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MUSEUS MILITARES EM LISBOA, GUERRA DO ULTRAMAR E MISSÕES DE PAZ

Por • 28 Ago , 2019 • Categoria: 04 . PORTUGAL EM GUERRA - SÉCULO XXI, 05. PORTUGAL EM GUERRA - SÉCULO XX, PRIMEIRA PÁGINA Print Print

Percorremos nos últimos dias os quatro principais Museus Militares da região de Lisboa que são responsabilidade dos ramos das Forças Armadas e estão abertos ao público: Museu de Marinha; Museu Militar; Museu do Ar (Sintra e Alverca). Visitamos também o Museu do Combatente, responsabilidade da Liga dos Combatentes. Neste artigo iremos abordar o modo como a Guerra do Ultramar (1961 – 1975) e as Missões de Paz (1991- actualidade) estão lembradas nestas instituições públicas, fazer algumas sugestões, e propomos a criação de um Museu da Guerra do Ultramar.

Quadro de António Lemos Viana exposto no Museu do Ar em Sintra. O modo como os artistas olharam para a Guerra do Ultramar – ao contrário da 1.ª Guerra Mundial por exemplo – não foi ainda devidamente incluída nos museus militares, esta é uma das excepções que se junta a pequenas peças de escultura de José Núncio no Museu Militar.

Museus sobre temática militar

Como nota prévia recordamos que há outros vários museus sobre temática militar na região de Lisboa e muitos no país, em regra com âmbito limitado uma vez que na sua maioria são responsabilidade de unidades do Exército e estão dedicados à sua área de actividade.

No Exército estes “pequenos museus” designam-se “Colecção Visitável” e carecem sempre de marcação prévia para serem visitados, o que é naturalmente um grande entrave; na Marinha a Escola de Fuzileiros em Vale do Zebro mantém a “Sala Museu do Fuzileiro” que também só pode ser visitada com marcação, o mesmo acontecendo com o Forte de São Julião da Barra em Oeiras, responsabilidade do Ministério da Defesa.

O Museu das Tropas Pára-quedistas da então Base Escola de Tropas Pára-quedistas, renovado nos anos 90 manteve um importante acervo de material de guerra capturado ao inimigo em África que continua exposto hoje. E bem, é a história desses anos da guerra.

Museu Nacional de História Militar de Angola. Peças de 11,4 cm m/46 de origem portuguesa em primeiro plano. Exibir material militar usado em combate por antigos inimigos é prática comum um pouco por todo o mundo.

Mais um exemplo, bitubo anti-aéreo 20mm capturado à Força Aérea Argentina nas Falklands/Malvinas em 1982 e exposta desde 1983 no Imperial War Museum em Londres.

O Exército dispõe ainda de Museus Militares no Porto, Buçaco, Elvas e Bragança no Continente, em S. Miguel e no Funchal nas Regiões Autónomas (Museu Militar dos Açores e o Museu Militar da Madeira), todos eles abertos ao público em permanência. Também no Exército o Núcleo Museológico das Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento no Campo de Santa Clara (Lisboa) pode ser visitado por marcação. Algumas unidades também mantém viaturas históricas expostas, algumas até bem identificadas, recordo por exemplo o caso do Regimento de Cavalaria n.º 6 , o Quartel  de Cavalaria na Brigada Mecanizada e o Regimento de Transportes em Lisboa, entre outros.

O Museu Militar de Elvas com várias colecções de interesse é um dos museus que mais tem crescido nos últimos anos, sobretudo na parte respeitante a viaturas militares – algumas que serviram da Guerra do Ultramar – e com uma inédita parceria com uma associação civil, a Associação Portuguesa de Veículos Militares.

O Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA, no interior da Unidade de Intervenção da GNR na Pontinha, também carece de autorização prévia da Câmara Municipal de Odivelas ou do Exército para ser visitado.

A Força Aérea mantém um Polo Museológico do Museu do Ar no Aeródromo de Manobra n.º 1 em Maceda perto de Ovar.

A Guarda Nacional Republicana dispõe de um museu no Largo do Carmo em Lisboa e a Polícia de Segurança Pública está a organizar um museu na Rua Capelo também em Lisboa, mas ainda sem data marcada para abrir ao público.

O Museu de Angra do Heroísmo do Governo Regional dos Açores inclui o Núcleo de História Militar Manuel Coelho Baptista de Lima.

A Associação de Comandos, uma entidade privada, mantém um espaço museológico na antiga Bataria da Lage do Regimento de Artilharia de Costa, em Paço de Arcos.

Há depois alguns Museus e Centros de Interpretação dedicados  a temática militar a cargo de autarquias, por exemplo em vários pontos das Linhas de Torres Vedras ou no Vimeiro, ou ainda o Museu Militar Forte de Santa Luzia em Elvas, vocacionados para épocas específicas.   

Um Museu da Artilharia de Costa na Parede que chegou a ser apresentado com “pompa e circunstância” em Janeiro de 2014, com a presença de ministro da defesa, chefes militares e autarcas, por um qualquer desentendimento não passou até hoje de um projecto. A antiga Bataria da Fonte da Telha, a única no mundo equipada com material 23,4mm em bom estado de funcionamento, tem o futuro mais do incerto.

Depois deste “giro do horizonte”, necessariamente incompleto, vamos então ao assunto central deste artigo, a preservação da memória da Guerra do Ultramar e das Missões de Apoio à Paz e Humanitárias.

 

Guerra do Ultramar

O Museu de Marinha tem um pequeno espaço dedicado à Guerra do Ultramar na sala alusiva aos séculos XIX e XX, no qual podemos ver “dois sectores”, um mais dedicado aos combates navais no Estado Português da Índia em Dezembro de 1961 e ao início da guerra em Angola, e outro aos três teatros de operações de África e com especial destaque para os Fuzileiros Navais e os Fuzileiros Especiais. No essencial são apresentados dois manequins armados e equipados, um fuzileiro especial e um marinheiro desembarcado; duas vitrinas com excelentes miniaturas de navios de guerra utilizados na Índia Portuguesa e em África; são projectados interessantes filmes sobre as operações em África e na Índia.

O espaço tem dignidade, está tudo bem apresentado e explicado, – fala-se em Guerra do Ultramar o que não acontece em outros museus como veremos – com textos e legendas em português e inglês. Agora também se poderá dizer que tendo em atenção o que foi o esforço de guerra da Marinha nos teatros de operações de África (e também na Ásia, por exemplo na descolonização de Timor) e os anos que este conflito durou, talvez se devesse alargar a área do museu dedicada a este período da sua história.

Entrada principal do Museu de Marinha no Mosteiro dos Jerónimos, uma excelente localização.

Sector dedicado à Guerra do Ultramar na Sala séculos XIX e XX.

 

O Museu Militar de Lisboa, do Exército, que dispõe de algumas excelentes salas remeteu em anos recentes a Guerra do Ultramar para um único e muito modesto espaço. Desconhecemos naturalmente se alguma coisa está prevista para o futuro próximo ou em organização, mas as três salas que nos anos 90 do século XX ainda se dedicavam às “Campanhas do Ultramar 1961 – 1974” (homenagem aos combatentes da Índia e de África; armamento apreendido; o esforço das nossas tropas da instrução ao combate e as últimas bandeiras) foram fechadas.

Os artigos expostos nesta nova sala são basicamente guiões heráldicos de algumas unidades expedicionárias, muitas miniaturas deste tipo de simbologia e outras, e alguns artigos da época, como uma espingarda automática HK G-3 fabricada em Portugal já em 1980, e um conjunto de esculturas, sem dúvida significativos mas carecendo de um melhor enquadramento e explicação. Talvez os elementos mais importantes sejam algumas antigas Bandeiras Nacionais que foram uma última vez arreadas pelo Exército em algumas das Províncias Ultramarinas, mas também aqui nada é escrito sobre o assunto. Há uma curta explicação, dois parágrafos, em que se referem os efectivos do Exército que foram mobilizados para a guerra, os que estavam em operações em 1974 e o número de mortos (*).

O esforço de guerra do Exército no último período do Império, na Índia e em África na guerra mas também nas Províncias  Ultramarinas onde ela nunca aconteceu, além de Macau e Timor, mereciam que grande parte das Caves Manuelinas do museu lhe fosse dedicado ou, em alternativa, que fosse encontrado outro espaço próximo do Museu (Campo de Santa Clara?) para o dedicar inteiramente à Guerra do Ultramar. Acredito que não seja fácil atribuir recursos a um empreendimento desta envergadura mas o Exército Português, certamente apoiado pelo Ministério da Defesa e da Cultura, tem que preservar a memória deste último grande conflito em que esteve envolvido. Sem problemas de consciência!

O Museu Militar de Lisboa fica junto à Estação de Santa Apolónia, uma excelente localização. Esta não é a entrada principal mas é a mais imponente!

A Sala dedicada à Guerra do Ultramar.

O Museu do Ar em Sintra acaba por ser aquele dos três ramos das Forças Armadas que dedica mais espaço à Guerra do Ultramar.  Percebe-se que assim seja, embora o museu se dedique à aviação militar e civil bem antes da criação da Força Aérea Portuguesa como ramo independente em 1952, todo o museu abrange um espaço temporal de pouco mais de um século.

Assim podemos encontrar nas paredes do Hangar Principal uma “fita de tempo” da aeronáutica em Portugal dos primórdios ao final da Guerra do Ultramar. Vários são painéis com fotos e informação relativa à actividade da Força Aérea no Ultramar, incidindo naturalmente sobre os meios aéreos empenhados e as infra-estruturas aeronáuticas. Neste mesmo hangar estão também expostas várias aeronaves que operaram em África, do Dakota e Noratlas ao F-84 e Fiat G-91, entre outros. Depois, um dos três Hangares Históricos tem a designação genérica de “Campanhas Militares em África” – que nos parece pouco adequada – embora na explicação do folheto-guia do museu já esteja referido que é dedicado à Guerra do Ultramar. Neste espaço estão aeronaves que actuaram na guerra, do Fiat G-91 e T-6 aos três modelos de helicópteros (embora o SA-330 Puma esteja na versão SAR e configuração VIP) entre outros.

Ainda nesta sala podemos ver painéis informativos alusivos às Regiões Aéreas do Ultramar e ao dispositivo da Força Aérea em Angola, Moçambique e Guiné, para além de réplicas de Guiões Heráldicos das unidades, incluindo os das Tropas Pára-Quedistas que foram parte deste ramo durante todo o conflito. Quando visitamos o museu verificamos que neste mesmo hangar há uma série de painéis alusivos às Tropas Pára-quedistas da Força Aérea (1955-1993), mas estão em local onde o público não consegue aceder e muito menos ler o que lá está escrito, nas paredes atrás de aviões.

Um suporte audiovisual neste Hangar das Campanhas Ultramarinas disponibiliza informação sobre: A Guerra do Ultramar; A Força Aérea e a Guerra de África; Organização da Força Aérea durante a Guerra de África; Biografias; Aeronaves da Força Aérea em Combate nos Céus de África; Apontamentos Históricos sobre a História das Tropas Pára-quedistas; Apontamentos Históricos sobre as Enfermeiras Pára-quedistas. Infelizmente quando ali estivemos o sistema estava avariado e não se conseguia aceder aos conteúdos.  

O Museu do Ar na Granja do Marquês, junto da Base Aérea n.º 1, sofre em termos de localização do mesmo mal que vários outros museus congéneres pelo afastamento das unidades aéreas dos grandes centros urbanos.

O Hangar principal.

O Hangar dedicado à Guerra do Ultramar

 

O Pólo do Museu do Ar em Alverca – aberto ao público apenas às segundas-feiras – é um complemento interessante a Sintra, tem outros aspectos e recordo desde já a Sala Edgar Cardoso onde o espólio de muitos heróis da aviação portuguesa pode ser visto – por exemplo alguns dos que se distinguiram na Guerra Civil de Espanha e também nas grandes viagens –  ou o sector dedicado ao armamento dos aviões. Aqui não há propriamente referências específicas à Guerra do Ultramar mas um par de aeronaves que lá actuaram, como o T-6 ou o AL II. Aqui não há uma única referência ao facto das Tropas Pára-quedistas terem integrado a Força Aérea entre 1955 e 1993. 

O Polo de Alverca do Museu do Ar está localizado frente à Estação de Caminho de Ferro de onde foi tirada esta fotografia.

O modo como estão expostas as aeronaves em Alverca permitem uma maior proximidade do visitante comparando com Sintra.

Em detalhe o curioso dispositivo para lançar “granadas de mão” a partir do T-6!

Concluindo, a Guerra do Ultramar durou pouco mais de uma década o que naturalmente para a Marinha e o Exército é um período muito pequeno nas suas longas histórias, no entanto o esforço de guerra quer em efectivos empenhados querem em baixas sofridas, foi enorme. Foi sem dúvida um dos maiores conflitos da nossa história e a última guerra que Portugal travou como país, com a mobilização de parte substancial da sua juventude e empenhando grandes recursos de toda a ordem.

No caso do Museu Militar de Lisboa é devido a este conflito uma muito maior atenção. Basta comparar com o espaço da 1.ª Guerra Mundial, menos anos, muito menos militares envolvidos, menos vítimas, mas uma dignidade completamente diferente. No local actual ou num outro em Lisboa exclusivamente dedicado a estas últimas Campanhas do Império – o que até nos parece preferível dadas as condicionantes do Museu – parece-nos que se trata de uma tremenda evidência e de uma urgência.  

O Museu de Marinha adaptou bem o pequeno espaço dedicado a este período ao conteúdo que decidiu expor, dá informação e tem dignidade. Parece-nos no entanto que também aqui o espaço poderia ser aumentado. Agora em relação à Marinha o que será certamente um enorme desafio mas um extraordinário complemento a este período, é musealizar uma das antigas corvetas que serviram em África e ainda se encontram ao serviço ou já abatidas para desmantelar/afundar.

Corveta portuguesa a ser objecto de grande reparação nos Estaleiros do Alfeite. Actualmente só uma corveta está no activo. a NRP João Roby, entregue à Marinha Portuguesa já em 1975.

No Museu do Ar o espaço dedicado a este conflito até nos parece bem, desconheço no entanto quais as aeronaves históricas que a FAP ainda dispõe “em armazém” e poderia expor depois de recuperadas. Assim, claro que melhor seria se fosse possível, entre outros exemplos, ali colocar um SA-330 Puma com a configuração desses tempos, e o mesmo para um Dakota (o que lá está é “civil”), mesmo que no espaço ao ar-livre. Percebo que o objecto principal deste museu são os aviões – como os seus congéneres estrangeiros que temos visitado – no entanto, mesmo estando referidas as Tropas Pára-quedistas poderiam ter outra atenção, um “sector”, imaginando que não será fácil até por questão de espaço e recursos. Afinal de contas parte importante do esforço da Força Aérea na Guerra do Ultramar – efectivos e baixas – recaiu nos boinas verdes.

 

Missões de Paz

As chamadas Missões de Paz e Humanitárias, iniciaram-se no início dos anos 90 do século XX e desde então têm continuado ininterruptamente. São quase 30 anos, cerca de 40.000 militares empenhados, 20 mortos, dezenas de feridos alguns com gravidade.

E onde está esta memória detalhada? Pura e simplesmente não está, ou está de modo quase imperceptível!

Os museus dos três ramos não lhes dedicam qualquer sala ou espaço. No Museu de Marinha não foram completamente esquecidas, há uma breve referência escrita (três parágrafos) a estas missões – Manutenção da Paz e Combate ao Terrorismo –  num painel onde se abordam outras missões na Sala da Marinha da Actualidade;  no Museu Militar de Lisboa rigorosamente nada;  e no Museu do Ar em Sintra como em Alverca, nada também.

Na Sala da Marinha da Actualidade há um painel dedicado à Manutenção de Paz e Combate ao terrorismo e Pirataria.

 

No Exército há contudo “Colecções Visitáveis” em algumas unidades espalhadas pelo país que dedicam, e bem, muita atenção às suas próprias forças que participaram nestas operações. São um bom exemplo!

A Brigada Mecanizada inaugurou este ano um espaço museológico onde as Missões de Paz não foram esquecidas.

Visitante frequente que sou de vários museus militares no estrangeiro devo referir que a maioria senão a totalidade dos que visitei, já incluem estas missões, alguns até com grande destaque uma vez que são as “missões do momento” e acerca das quais é relativamente fácil obter informação e artigos para expor. 

O Museu do Combatente instalado no Forte do Bom Sucesso, junto à Torre de Belém e ao rio Tejo tem uma localização privilegiada.

Museu do Combatente

Instalado hoje no Forte do Bom Sucesso em Belém (Lisboa), este museu da Liga dos Combatentes difere dos anteriores em vários aspectos: inicia a sua intervenção apenas no período da 1.ª Guerra Mundial; inclui os três Ramos das Forças Armadas, a Guarda Nacional Republicana e a Polícia de Segurança Pública; dá algum relevo às Missões de Paz e Humanitárias; e grande importância e espaço à Guerra do Ultramar.

Nestes últimos aspectos acresce que incluídos no conjunto museológico estão inseridos o Monumento “Aos Combatentes do Ultramar” e as Placas com a identificação dos mortos em campanha, a Capela e Memorial onde se encontra o “Soldado Desconhecido” deste conflito, o Padrão “Aos Combatentes das Missões de Paz” e a Placa com os mortos nestas missões.

No Forte do Bom Sucesso estão concentrados alguns dos símbolos mais marcantes da Homenagem de Portugal aos Combatentes da Guerra do Ultramar.

E é também aqui que igualmente se encontra a Homenagem aos que caíram nas Missões de Paz.

A localização do Forte, à beira-rio junto à Torre de Belém, perto do Padrão dos Descobrimentos e Mosteiro dos Jerónimos, coloca-o na zona turísticas mais visitada de Lisboa. O facto do Monumentos Aos Mortos do Ultramar ter Guarda de Honra permanente também constitui fonte de interesse para os visitantes.

Não é fácil nesta descrição deixar de parte as áreas do Museu que não são objecto deste artigo, centrando a nossa atenção apenas na Guerra do Ultramar e nas Missões de Paz e Humanitárias. E isto porque a organização de parte do museu – salas muito pequenas – está feita por “assuntos” em várias épocas no mesmo espaço, usando painéis com fotografias e artigos de uniforme, equipamentos, armas, etc. Por exemplo, “Operações”, onde se podem ver na mesma sala fotos de operações na 1.ª Guerra Mundial, na Guerra do Ultramar e em algumas Operações de Paz e alguns artigos de equipamento e algum armamento. O mesmo para “Moral”, “Deslocamentos”, Descanso”, etc.

Os prisioneiros de guerra não foram esquecidos mas na mesma sala estão outros assuntos diferentes já relativos às missões de paz.

 

Esta área terá a vantagem de se ver a evolução, as mudanças ao longo dos anos, mas em termos de organização parece-nos algo confuso. Talvez fosse mais adequando para uma exposição temporária do que para apresentação permanente.   

Temos depois 5 pequenos espaços dedicados à Marinha, Exército, Força Aérea, Guarda Nacional Republicana e Polícia de Segurança Pública, sem dúvida as áreas mais bem concebidas do museu, museologicamente mais modernos, em que estas entidades expõem a sua actividade com destaques para as missões fora de Portugal, seja na Guerra do Ultramar seja nas Missões de Paz. Estas salas são aliás, apesar das suas pequenas dimensões, um bom exemplo do que são hoje os museus deste tipo, conjugando informação escrita, fotografias, filmes e artigos reais (armas, equipamentos, fardamento, etc).

O espaço da Marinha em que também se dá atenção a missões recentes sem problemas em identificar o inimigo, e bem, mas nele também se abordam outras épocas e combates da Marinha.

Aqui o espaço do Exército em que as missões da actualidade são referidas e estão expostos alguns materiais simbólicos, além de um filme relativamente recente sobre o ramo e missões.

A Força Aérea mostra os antecedentes desde os primórdios da aeronáutica à Guerra Civil de Espanha e depois à Guerra de África, aborda as missões de actualidade, numa “fita de tempo” muito bem conseguida. Tem muita informação e está bem ilustrada.

As operações exteriores da GNR são o destaque deste espaço que nos dá uma imagem do que os militares da Guarda têm feito um pouco por todo o Mundo.

A PSP recorda e bem os primórdios da sua acção em África e na Índia, antes da Guerra do Ultramar e também depois no seu curso.

Há ainda uma exposição  “A Guerra do Ultramar…50 anos depois”, com painéis em português e inglês onde se pode ler muita informação e até alguma estatística, embora sejam textos com algum pendor político, onde se referem à guerra como “Colonial” expressão que até contradiz a designação da exposição. Nesta sala estão expostos um par de manequins uniformizados com fardamento usado no Ultramar mas também posterior e algum armamento, sem grande rigor.

Na área exterior há muito armamento dos três ramos, naturalmente mais do Exército e Marinha, a maior arte dele usado durante a Guerra do Ultramar e até uma ou outra arma capturada ao inimigo de então, que curiosamente nas salas inicialmente referidas são designados por “adversários”. Nesta altura está aberta ao público uma exposição temporária que aborda as missões de paz tendo como pano de fundo do Dia Internacional dos Capacetes Azuis da ONU (29 de Maio). Trata-se sobretudo de painéis informativos sobre a participação de Portugal nestas missões da ONU ao longo dos anos, até à actualidade. 

A Capela e o Memorial é um espaço de grande dignidade, muito bem concebido, que se enquadra perfeitamente no sector em que está inserido, junto ao Monumento e às Placas com a identificação dos mortos em campanha.

 

Museu da Guerra do Ultramar

Agora, parece-nos evidente que o Forte do Bom Sucesso não é um Museu da Guerra do Ultramar! É  um local de elevado simbolismo em relação à Guerra do Ultramar – Monumento; Placas com a identificação dos Mortos; Capela e Memorial com o “Soldado Desconhecido”, e assim se deve manter! Mas não é um Museu da Guerra do Ultramar, é um conjunto de pequenos espaços onde generosamente – e ainda bem – se expõem algumas poucas peças desses tempos em paralelo com outras da 1.ª Guerra Mundial e também das Missões de Paz. 

Há que encarar de frente a necessidade de um Museu da Guerra do Ultramar e não se julgue que é algo de inatingível, tem é que haver vontade política

Em 2017 o governo português aprovou a instalação na Fortaleza de Peniche do Museu Nacional Resistência e Liberdade, com um plano de recuperação orçado em 3,5 milhões de euros, o qual já está em curso com projecto concebido e aprovado. Trata-se de adaptar um edifício com uma rica história militar que remonta ao século XVI, classificado Monumento Nacional – desde 1938 – e usado para prender opositores políticos ao Estado Novo a partir de 1934, com instalações prisionais modernas entre 1953 e 1974. Este Museu como missão “…a preservação da memória histórica da Fortaleza de Peniche e da Luta do Povo Português e, em particular, da Resistência à Ditadura, pela Liberdade e pela Democracia…”. Segundo o Museu estiveram presos em Peniche, entre 1934 e 1974, 2.510 opositores ao regime.

Se foi possível criar condições em tempo recorde para este museu se implantar, parece pouco menos que incrível que não seja possível por de pé um Museu da Guerra do Ultramar, por onde passaram mais de 1.000.000 de portugueses, na qual morreram cerca de 10.000 e ficaram estropiados cerca de 30.000.

 

Conclusão

A Guerra do Ultramar é lembrada nos museus militares, todos têm esse período claramente identificado. Tendo em atenção a dimensão do esforço militar que Portugal fez nesse conflito, parece-nos que a sua importância relativa na “fita de tempo” da História Militar Nacional deverá ser aumentada e mais elementos museológicos devem ser disponibilizados aos visitantes. O Museu do Combatente aborda a Guerra do Ultramar de modo diferente, em paralelo com a 1.ª Grande Guerra e com as Missões de Paz, por “assuntos comuns”.

A criação de um grande Museu da Guerra do Ultramar que englobasse todo o esforço de guerra nacional, dos ramos das Forças Armadas às Polícias, sobre coordenação do Ministério da Defesa ou do Estado-Maior General das Forças Armadas, onde a história deste conflito seria contada na sua globalidade é uma dívida moral e histórica do país para com gerações de portugueses. Bem sei que os recursos são sempre escassos e mais ainda para a História e a Cultura Militares, mas quando há vontade política “o dinheiro aparece”. Por estranho que possa parecer aos leitores, já visitei museus militares na Europa financiados com…fundos europeus. 

As Missões de Paz e Humanitárias estão literalmente esquecidas no Museu Militar e Museu do Ar, e muito discretamente lembradas no Museu de Marinha. O esforço militar português no mundo de hoje – que já dura o dobro do tempo da Guerra do Ultramar – não é dado a conhecer aos visitantes, política aliás oposta aos mais importantes museus militares um pouco por toda a Europa. Parece-nos evidente que é uma urgência para os ramos das Forças Armadas alterar esta situação. O Museu do Combatente, ao contrário, lembra estas missões e até inclui aspectos relativos às Forças de Segurança.

Enquanto outras soluções não surgem para lembrar a Guerra do Ultramar, a imagem geral que nos fica é que na actualidade Marinha e Força Aérea têm os seus espaços dedicados a este que foi um dos grandes conflitos da nossa história, com dignidade e apresentados em termos modernos, mas ainda assim não corresponde ao esforço destes ramos nesse conflito. Sobretudo no caso da Marinha parece-nos que devia ser aumentado; o Exército por seu lado tem mesmo que rever a actual situação (se é que não o está a fazer, desconhecemos).  No Museu do Combatente existem bastantes referências à Guerra do Ultramar, embora com limitações, já os sectores específicos da Marinha, Exército, Força Aérea, Guarda Nacional Republicana e Polícia de Segurança Pública estão organizados em termos modernos, embora reduzidos mas isso são contingências do espaço disponível, e em um ou outro caso datados no tempo e a necessitar de actualização.

(*) O número de mortos e feridos na Guerra do Ultramar continua a ser difícil de obter! Há que considerar os três ramos das Forças Armadas Portuguesas, incluindo os militares de recrutamento local, as Forças de Segurança, quer as envidas da Metrópole quer também as locais, e as diferentes forças para-militares que serviram debaixo da Bandeira Nacional. E qual é a fonte? Quem tem autoridade para definir estes números? 

Leia mais no Operacional sobre Museus e Exposições dedicadas a temas militares, em Portugal e no estrangeiro:

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