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NA BÓSNIA E HERZEGOVINA 22 ANOS DEPOIS

Por • 10 Jun , 2018 • Categoria: 13. MEMÓRIA DAS MISSÕES DE PAZ, PRIMEIRA PÁGINA Print Print

Os anos passam rápido, as memórias marcantes permanecem. O regresso àquilo que foi o Teatro de Operações da Bósnia esteve e está na mente de muitos. Passados 22 anos da primeira missão expedicionária na Europa para as Forças Armadas Portuguesas desde 1917, um pequeno grupo de veteranos dessa força na IFOR/NATO em 1996 regressou à Bósnia e Herzegovina. Aqui ficam o relato e as imagens desta experiência que teve o seu ponto alto na homenagem aos 5 pára-quedistas que ali morreram ao serviço de Portugal.

02JUN2018. Os portugueses em Doboj posam para a posteridade. Com a Bandeira Portuguesa, Milos Bukejlovic, Vice-Presidente da Assembleia Municipal de Doboj, representante do Presidente da Câmara Municipal de Doboj. Esta bandeira esteve na primeira missão na Bósnia em 1996 e regressou agora para esta nova “missão”.

A ideia de organizar uma viagem à Bósnia e Herzegovina, país onde alguns milhares portugueses serviram durante duas décadas – em rigor desde 1991 até 2012 – sempre foi motivo de conversa nos nossos encontros de antigos militares, sobretudo pára-quedistas, talvez porque fomos os que em maior número ali servimos, ou porque sofremos as duras condições da primeira missão IFOR (Implementation Force da NATO que ali actuou entre Dez 1995 e Dez 1996), ou porque o espírito de corpo é mais alimentado pelos encontros anuais e, certamente também porque 5 boinas verdes ali morreram e não os esquecemos!

O esforço de Portugal na Bósnia foi enorme, e disso agora, olhando para a actualidade das nossas missões expedicionárias, mais noção se tem. Sendo certo que não foram só militares das Forças Armadas a rumar aos Balcãs – elementos da Policia de Segurança Pública, diplomatas, funcionários de vários departamentos governamentais, elementos dos serviços de informações, jornalistas, militares da Guarda Nacional Republicana, cineastas, académicos, um ou outro empresário – os militares do Exército, mas também da Força Aérea e Marinha, constituíram a esmagadora maioria dos portugueses que passaram pela Bósnia.

Note-se que este “destacamento” não teve a pretensão de vencer qualquer concurso! Antes de nós, bem sabemos que vários outros militares ou antigos militares que ali serviram, sozinhos ou com as suas famílias e amigos ali têm passado. Alguns têm também homenageado em Doboj os nossos mortos, e parte destes veteranos – como aliás no nosso grupo – nem nunca ali tinham estado, deslocaram-se propositadamente a Doboj com esse propósito. Este artigo é o relato desta viagem, permitindo a quem ali não foi “voltar ao teatro de operações” através da imagem e de algum texto. Contar esta história pode ajudar alguns outros, quem sabe!? É só isto, nada mais.

Destacamento

As redes sociais e o www.operacional.pt permitiram a divulgação desta iniciativa. Há cerca de um ano, em 23 de Maio de 2017, numa deslocação a Doboj para cerimónia oficial no Monumento que recorda os mortos portugueses na Bósnia, percebeu-se que as autoridades locais estavam receptivas em acolher/apoiar na medida do possível, uma visita deste género, uma homenagem na sua cidade.

Recorda-se que o Monumento é propriedade da cidade de Doboj – foi-lhe oferecido em 2007 sem no entanto ficar definido como seria a sua manutenção – e que, finalmente em 2016, depois de um longo e complexo processo, no Regimento de Paraquedistas em Tancos, se assinou um protocolo de cooperação entre a Cidade de Doboj e Liga dos Combatentes de Portugal para a manutenção do monumento. Este ano com o apoio da autarquia este grupo transportou e colocou no Momento um brasão em bronze da Liga.

Com “luz verde” de Doboj iniciou-se o planeamento de uma viagem que incluísse todos ou a maioria dos locais onde as tropas portuguesas entre 1996 e 2012 tivessem tido quartéis. Elaborado o programa foi contactada uma agência de viagens – a Inalva, Ldª – que com o nosso apoio e de três pessoas na Bósnia, a Daniela Knezevic-Kapetina (Sarajevo), o Rado Đurđević e a Sanja Valentim (Doboj), levou a bom termo o trabalho nem sempre fácil de elaborar um programa que fugia aos circuitos habituais, em locais onde o turismo ainda não chegou.

Feita a divulgação receberam-se cerca de 200 pedidos de informação por e-mail, todos respondidos, e ainda em 2017, inscreveram-se efectivamente 12 pessoas para a viagem. A distância de muitos meses a que foi necessário proceder à inscrição e o valor total que cada um teria que gastar em 5 dias – cerca de 1.000€, terá levado a que não houvesse mais inscrições. Ainda assim, mais tarde, 4 veteranos em circunstâncias diferentes saíram de Portugal e puderam juntar-se ao grupo nas actividades mais significativas. Um outro saiu da Suíça e foi lá ter e, infelizmente, dois portugueses que vivem na Bósnia – um em Doboj e outro em Trebinje, o dono do restaurante Portugalo – por imponderáveis de última hora não puderam estar presentes. Um jornalista da Radio Renascença, José Pedro Frazão, teve conhecimento desta iniciativa e pediu para se juntar ao grupo o que aconteceu. Ainda lá ficou depois do nosso regresso!

O “destacamento” ficou assim composto por um grupo inicial:

AQUILINO RODRIGUES; AUGUSTO BARROS; AUGUSTO PINHEIRO; FERNANDA BARROS; JOÃO CARDOSO; JOÃO FERREIRA; JOÃO LOPES; JOSÉ FELIX; JOSÉ FRAZÃO (jornalista RR); MIGUEL MACHADO; PAULO CONCEIÇÃO; RICARDO FERREIRA (vive em Espanha); RUI ALMEIDA (vive Reino Unido)

Juntaram-se ao grupo inicial idos de Portugal:

ALBERTO SILVA; ANTÓNIO SIMÃO; RUI SOARES; VÍTOR LEITE

Juntaram-se em Doboj para a homenagem idos da Suíça:

PEDRO VALENTIM; SANJA VALENTIM

Itinerário

Saídos de Portugal a 31 de Maio em direcção a Sarajevo, com escala em Munique, já fomos almoçar na capital Bósnia. Sem qualquer problema na chegada ao Aeroporto Internacional de Sarajevo, formalismos rápidos. Almoço  de Ćevapčići num pequeno restaurante em Dobrinja, bem perto do aeroporto, deu-nos a primeira imagem da cidade de onde a maioria tinha regressado a Portugal há mais de 20 anos. Calor, esplanadas cheias, lojas abertas, mercados de rua bem abastecidos, algumas, poucas, marcas da guerra ainda visíveis. O mini-bus e o competente condutor da Easy Rent seguiu depois até ao centro de cidade – cada um ía identificando/relembrando edifícios, esquinas que reconhecia e não raras vezes um ou outro levantava a voz de admiração quer pelas novidades que são bastantes, ou pelo contrário pelas marcas que desde 1996 (e antes bem entendido) ainda permanecem em alguns locais.

Passamos a “Biblioteca” e fazemos agora em viatura com ar-condicionado e wi-fi a estrada que tantas vezes estes antigos militares fizeram. Com a neve e o gelo do início 1996 ou o calor abrasador desse verão, escoltando colunas de ajuda humanitária para Gorazde. Começa uma chuva torrencial, alguns acidentes pelo caminho – nada connosco que o condutor é competente! – as boas-vindas da Bósnia profunda num itinerário com bom piso mas o mesmo traçado, difícil! 

Chegamos a Rogatica e o Hotel Park lá está à nossa espera, as fotos falam por si, não vale a pena explicar! Alguma peripécias com os quartos e a língua, mas nada que nos detenha! Cada um procura pela cidade as suas memórias, as recordações e acabamos todos na novel esplanada – onde estava a enfermaria em 1996 – a beber umas cervejas, uma das rodadas pagas pelo dono do Hotel!

Dia 1 de Junho saímos cedo para ver parte do “sector português” em 1996. Sim, parte, para o calcorrear todo teríamos que ali permanecer mais dias e hoje temos apenas até à hora do almoço! Kukavici, Ustipraca, Kopaci, Vitkovici, Gorazde. Fotos e mais fotos, directos no facebook, um aperto no coração aqui e ali. Procuramos lugares, diferenças, algum despojo, na realidade parecemos crianças num qualquer jogo infantil e não sei bem se os habitantes locais não nos acharam um pouco loucos.

De volta a Rogatica, almoçamos e seguimos para Sarajevo e Doboj, onde chegamos ao final do dia. Entre Sarajevo e Zenica uma boa auto-estrada está a funcionar e não deve faltar muito para que chegue mesmo a Doboj. A presença policial nas estradas nacionais é frequente assim como o controlo de velocidade com radar. Chegados ao Norte da Bósnia, somos surpreendidos com uma tremenda festa de finalistas no Hotel Park de Doboj – sim tem o mesmo nome do de Rogatica – e todo o jantar é passado ao som de música local e internacional, uma animação!

Antes do recolher, uma passagem pelo Monumento ali no Parque dos Heróis Nacionais (da resistência ao invasor alemão nos anos 40), junto à Câmara Municipal.

Dia 2 de Junho, sábado, a cerimónia há hora exacta, com todos os portugueses que se propuseram visitar a Bósnia nesta altura, programas diferentes, este ponto em comum, a Homenagem aos camaradas mortos ao serviço de Portugal.

Foi um momento de elevado simbolismo, intenso, que calou fundo em quem esteve presente. Aqui fica o texto lido pelo tenente-coronel (reforma) Miguel Silva Machado e traduzido no local para bósnio pela Sanja Valentim.

Exm.º Senhor Milos Bukejlovic, Vice-Presidente da Assembleia Municipal de Doboj, representante do Presidente da Câmara Municipal de Doboj, senhor Obren Petrović, muito agradecemos a sua presença.

Minhas senhoras e meus senhores,

Este grupo de veteranos das missões militares portuguesas na Bósnia e Herzegovina, a esmagadora maioria chegámos na força inicial em Janeiro de 1996, estamos aqui porque há muito desejávamos voltar a ver, regressar a este país que nos marcou.

Chegamos com o fim da guerra que tanta morte e destruição causaram, tivemos uma pequena amostra do muito que estes povos sofreram, demos o nosso melhor para que a situação normalizasse.

Saímos com a satisfação do dever cumprido mas alguma parte de nós aqui ficou. Fomos e somos bem recebidos, criamos amigos, alguns família, apesar da distância e da vida de cada um, tínhamos que regressar. Esta viagem estava pensada há muito, era desejada há muito, hoje está a ser cumprida.

Os 5 militares pára-quedistas que agora homenageamos eram nossos camaradas e estão sempre na nossa mente quando pensamos na Bósnia. Para eles foi uma viagem sem regresso, um drama para as Famílias, ainda hoje e para todo o sempre profundamente marcadas por estes acontecimentos. Por isso aqui estamos também, para honrar a sua memória.

Aqui entre nós estão dois militares que ficaram gravemente feridos em 1996, mas também quiseram regressar e para ambos já não é a primeira vez. Para eles, como para todos os que na Bósnia ficaram feridos, o nosso respeito e admiração.

A Câmara Municipal de Doboj e a Liga dos Combatentes de Portugal cuidam deste monumento – o qual desde agora também ostenta o brasão desta associação de combatentes portuguesa – e assim se garante que o sangue dos portugueses derramado na Bósnia e Herzegovina nunca seja esquecido:

24Jan1996 – Primeiro-Cabo Pára-quedista Alcino José Lázaro Mouta! Presente!

24Jan1996 – Primeiro-Cabo Pára-quedista Rui Manuel Reis Tavares! Presente!

06Out1996 – Primeiro-Cabo Pára-quedista José Ressurreição Barradas! Presente!

06Out1996 – Soldado Pára-quedista Ricardo Manuel Borges Souto! Presente!

16Jul2004 – Soldado Pára-quedista Ricardo Manuel Pombo Valério! Presente!

 

O que somos? Amigos!

O que queremos? Alvorada!

O que amamos? O Perigo!

O que tememos? Nada!

Em Posição…Já!

Momento alto desta viagem, a cerimónia de homenagem aos portugueses mortos na Bósnia ao serviço de Portugal.

Montagem fotográfica com o detalhe da placa com o nome dos 5 portugueses caídos na Bósnia colocada no monumento em 2012. O Brasão da Liga dos Combatentes foi colocado agora em 2018 por este “Destacamento” a pedido do Presidente da Liga, com o apoio da autarquia de Doboj.

Seguiu-se o almoço e a viagem para Sarajevo, porta de entrada e/ou saída para a generalidade dos militares portugueses que serviram na Bósnia e Herzegovina e também par este “destacamento”.

Dia 3 de Junho, manhã livre pela cidade, muita actividade comercial, trânsito intenso, edifícios novos e/ou a maioria já reparados, marcas da guerra aqui e ali, turistas asiáticos facilmente identificados pela cidade e outros mais discretos também. O turismo está claramente em expansão, no centro da cidade, hotéis, hostels, alojamento local, estão em todas as ruas, restaurantes, cafés, esplanadas animadas. Na parte da tarde tempo para alguns dos pioneiros dos primeiros dias de Bósnia em 1996 irem até Vogošća matar saudades do “Hotel Biokovo” e da “Volkswagen”, muitos prédios novos quer de habitação quer empresas pelo caminho. O bairro agora é maioritariamente muçulmano, a elevação onde pontificava um monumento à resistência aos invasores alemães, partilha agora o espaço com uma enorme mesquita. Ali ao lado o campo desportivo que em 1996 serviu de parque de estacionamento para os blindados italianos e fez as delícias de alguns portugueses – loucos do DAS! – que ali jogaram as primeiras partidas de futebol, a nevar, na Bósnia. O Biokovo parece estar a preparar-se para obras, mas 22 anos depois, está ainda assombrosamente igual ao primeiro momento em que o vimos! Ainda em Vogošća paragem na antiga “Volkswagen” agora “Mercedes” onde o DAS se manteve desde o inicio da missão até rumar a “Tito Barracks” no centro de Sarajevo. As mudanças são enormes, só com alguma paciência se conseguem identificar ténues sinais das antigas instalações militares.

Regresso com passagem pelo antigo comando da Brigada Multinacional Sarajevo-Norte de comando italiano – a semi-destruída maternidade de Zetra junto ao Estádio Olímpico – hoje totalmente reconstruída e a funcionar.

Tempo ainda para experimentar uma novidade, inaugurado recentemente, o teleférico “Trebevićka žičara” que nos dá uma boa panorâmica da cidade.

Na última noite a despedida da Baščaršija, a constatação que apesar da vida nocturna não diferir muito de outras capitais do leste europeu, a presença muçulmana não sendo nem de longe maioritária no vestir, é crescente. A influência da Turquia e de alguns países árabes é publicitada em edifícios religiosos e outros. Veremos entre a Europa da União e estes investidores do Oriente, qual o caminho que a Bósnia escolhe, ou qual o caminho que vai seguir?

Dia 4 de Junho, o regresso pela mesma via a Portugal, a despedida do aeroporto de Sarajevo para muitos um símbolo da missão na Bósnia, um dos locais mais martirizados pela guerra mas também a sua principal porta para o mundo.

Termino este relato com palavras que não são minhas, mas pareceram-me as adequadas. São do João Ferreira, pára-quedista que aqui esteve em 1996 e 1997 e que agora conduz um carro pesado pelas estradas da Europa.

Agora tenho outra forma de recordar este país. Fiquei com a sensação de que substitui as recordações menos boas por positivas, mas na realidade, as recordações antigas não se vão esquecer nem apagar… Ficaram mais bem organizadas dentro da minha memória e melhor enquadradas com aquilo que procurava e vivi durante estes dias!

No entanto, há recordações que não se apagaram passe o tempo que passar, como o emotivo momento da homenagem aos Camaradas Boinas Verdes que nunca mais voltaram…(Sarajevo, 04JUN2018)

Foto-reportagem

A reportagem fotográfica que se segue procurou seguir o itinerário desta visita de 2018 e juntar às fotos actuais imagens captadas em 1996 – em várias alturas do primeiro semestre – muitas são mesmo dos dias iniciais, mostrando o estado em que estavam algumas instalações que o contingente português veio a ocupar.  Uma vezes é evidente a mesma localização, outras não parece…mas não haverá grandes desfasamentos!

A Bósnia mudou muito desde que a conhecemos em 1996 e ainda bem! Entre Ocidente e Oriente as opções da Bósnia não parecem fáceis. Algum desenvolvimento vai chegando mas a entrada na União Europeia é uma incógnita e a influência dos países islâmicos é crescente. Só podemos fazer votos para que se mantenha um “Encontro de culturas entre Oriente e Ocidente”, frase cravada no solo da rua Sarači na Baščaršija e seja realmente um ponto de encontro de paz, convivência e tolerância.

Reportagem da Rádio Renascença na cerimónia em Doboj: Honra e emoção. Veteranos portugueses homenageiam militares mortos na Bósnia

Noticia no Diário de Notícias sobre a cerimónia de Doboj: Paraquedistas regressaram à Bósnia 22 anos após primeira missão

 

Aerodrom Sarajevo / Aeroporto Internacional de Sarajevo. Em 1996, bem cedo, os voos de sustentação da Força Aérea Portuguesa começaram a aterrar em Sarajevo. Mais tarde, em Junho e em Agosto, até a TAP escalou esta pista numa rotação de contingentes.

A aerogare, mesmo junto à pista, significava que estava na linha de confrontação. Os militares franceses das Nações Unidas perderam aqui 8 militares entre 1992 e 1995.

Mais uma rotação de militares portugueses estava em curso, formava-se…entre a aerogare e o avião! Neste caso uma equipa da RTP cobria o acontecimento. Entre Janeiro e Agosto de 1996 mais de 130 jornalistas e técnicos de órgãos de comunicação social portugueses (e uma dezena de estrangeiros) estiveram na Bósnia a acompanhar as forças portuguesas que se aproximavam do milhar de homens e mulheres. Nunca até então alguma força expedicionária tinha tido acompanhamento mediático – diário, meses seguidos –  nem voltou a ter até aos dias de hoje.

 

A parte da aerogare virada para Dobrinja em 6 Janeiro de 1996 quando ali chegaram os militares do Destacamento de Ligação vindos de Split em C-130 francês.

Rotação de militares portugueses já no Verão de 1996.

Palavras para quê!

 

A estrada do aeroporto para a cidade em Janeiro de 1996 ainda apresentava os resultados da guerra que terminara oficialmente 15 dias antes.

Um VAB francês que integrava o dispositivo anti-sniper nos primeiros dias de Janeiro de 1996. As viaturas da IFOR eram alvejadas e as forças da NATO ripostavam, tendo abatido um sniper na…tristemente célebre “avenida dos snipers” hoje, avenida “Zmaj od Bosne” (Dragão da Bósnia – Husein Gradaščević – chefe militar otomano Bósnio do século XIX).

NO cimo do monte as antenas da televisão, duramente bombardeadas durante a guerra. Ma primeira rua à direita ficava o acesso ao Destacamento de Apoio de Serviço português quando funcionou em “Tito Barracks”, hoje “Campus” Universitário de Sarajevo.

Conhecida por Biblioteca que foi, hoje totalmente recuperado este edifício alberga o “City Hall” (Câmara Municipal). Quem não passou por ele durante a missão na Bósnia?

O interior da Biblioteca e da Câmara Municipal que pode ser visitada.

Logo acima da Biblioteca na estrada para Pale/Praca e Rogatica / Gorazde iniciavam-se as coluna humanitárias que o batalhão português escoltava até ao enclave muçulmano de Gorazde.

Daqui partiu em Fevereiro de 1996 a primeira coluna humanitária que rompeu o cerco a Gorazde em anos e anos de guerra. Nos meses que se seguiram os pára-quedistas portugueses escoltaram inúmeras colunas, sempre cada vez maiores e com a segurança mais complexa. Não raras vezes houve incidentes.  NA encosta é bem visível uma das mudanças mais evidentes na cidade – e em outros locais – a vegetação cresce livremente. Antes quer por necessidade de madeira quer para manter “campos de tiro”, muitos locais estavam permanentemente limpos.

O Hotel Park de Rogatica, futuro QG das forças portuguesas durante anos, em Janeiro de 1996.

E as traseiras que viriam a ser parque auto, na mesma ocasião.

A varanda “bunker” foi transformada em marquise!

O refeitório que também servia de sala de reuniões e local para receber visitas VIP.

Dia de visita era dia de Guarda de Honra!

O hall de entrada do Hotel Park em Janeiro de 1996.

A “Porta-de-Armas” do QG do 2.º Batalhão de Infantaria Aerotransportado e, o nosso “Destacamento” antes de partir para uma visita ao antigo sector do batalhão.

Kukavici cujo edifício foi parcialmente recuperado. Uma placa datada de 2006 refere que se trata da “Escola de Kukavica” e que foi recuperada com o apoio do IDB – Islamic Development Bank in Jeddah. Está claramente abandonado. À volta há várias casas habitadas por agricultores.

O quartel de Ustipraca, onde estavam a maioria das Chaimites e onde por vezes as equipas de contacto do DAS vinham fazer reparações. Aqui uma placa em francês datada de 1998 refere que a “escola foi recuperada com financiamento da União Europeia pela SFOR”.

Entre este complexo escolar e a estrada Visegrad/Ustipraca/Gorazde/Rogatica que passa junto ao rio, a poucos metros, há hoje um grande número de bares e restaurantes. Aqui como em Rogatica, em 1996 não havia mesquitas.

A meio caminho entre Ustipraca e Gorazde, em Kopaci, junto a esta igreja ortodoxa – Igreja de S. Jorge –  e cemitério tiveram lugar em 1996 incidentes que obrigaram a intervenção em força do batalhão português para evitar males maiores.

A entrada em Gorazde foi mudando de “placa” ao longo dos anos e hoje…é esta.

Ainda em Janeiro de 1996 com a cidade de Gorazde cercada, em parte deste edifício estava “aquartelado” um pequeno destacamento de forças especiais francesas. Os portugueses do 2.º BIAT substituíram-no e ficaram com o “quartel”. Por pouco tempo, fomos depois para Vitkovici nos arredores.

Gorazde com o Drina ainda a alimentar os geradores improvisados para obter energia eléctrica e a ponte “Alije Izetbegovica”, ainda com o passadiço sob o tabuleiro, agora museu, antes para fugir aos snipers.

O quartel de Vitkovici, hoje fábrica “Prevent” que fabrica roupas industriais e material de protecção.

Vogošća, arredores de Sarajevo. Aqui ficaram nos primeiros dias de Janeiro de 1996 o comando da Brigada Multinacional Sarajevo-Norte (comando italiano) e os primeiros militares portugueses a chegar à Bósnia para a operação IFOR / NATO.

Este estádio de futebol foi no inicio de Janeiro de 1996 “parque de estacionamento” para os blindados italianos e também para as duas primeiras viaturas portuguesas a chegar ao teatro de operações, via Split, com o Destacamento Avançado do 2.º BIAT.

O Hotel Biokovo em 1996 estava completamente despido de qualquer recheio – só tinha as paredes – e está incrivelmente…na mesma ou quase! Parece que vai agora para obras.

Nas antigas instalações da Volkswagen em Vogošća, mesmo na linha de confrontação o estado de destruição era este. Aqui se instalou o DAS português e italiano e um Hospital de Campanha italiano. Hoje são instalações da Mercedes.

 

Depois de Vogošća e do Hotel Biokovo o comando da brigada “italiana” e o Destacamento de Ligação português mudaram-se para aqui, para Zetra, já dentro de Sarajevo, a antiga maternidade, em muito pior estado que o Biokovo!

E por aqui ficou o comando da brigada uns anos, bem assim como alguns oficiais portugueses que ali estavam em funções de Estado-Maior.

Hoje aqui funciona um centro hospitalar pediátrico e ginecológico.

“Tito Barracks” a antiga Academia Militar transformada em quartéis para as forças da NATO. O DAS funcionou aqui e servia também não raras vezes de ponto de apoio para muitos portugueses que vinham à Bósnia.

Nos tempos “áureos” em que o batalhão tinha 700 militares o DAS trabalhava e muito para os apoiar! Inicialmente mais de 200 militares, muitos não-pára-quedistas, integravam este destacamento e deles dependia a sustentação logística do 2.º BIAT.

O Marechal, o “cimento” que manteve a Jugoslávia unida, continua no seu posto indiferente ao tempo, na antiga Academia Militar hoje Campus Universitário de Sarajevo.
Quer sérvios-bósnios, quer muçulmanos-bósnios, gente do povo, sem nada lhes perguntar fizeram questão de referir que “no tempo de Tito vivia-se muito melhor do que agora”. Pode não ser um sentimento geral mas prova que a vida na Bósnia de hoje continua difícil para muitos.

 

Entre Ocidente e Oriente as opções da Bósnia não parecem fáceis. Algum desenvolvimento vai chegando mas a entrada na União Europeia é uma incógnita e a influência dos países islâmicos é crescente. Só podemos fazer votos para que se mantenha um “Encontro de culturas entre Oriente e Ocidente”, frase cravada no solo da rua Sarači na Baščaršija e seja realmente um ponto de encontro de paz, convivência e tolerância.

 

A “moeda” feita para assinalar esta viagem foi personalizada para cada um. Todos os que integraram esta Viagem à Bósnia 2018 estiveram em missão na Bósnia em 1996 e são pára-quedistas militares, excepto o Tenente-Coronel de Engenharia, Comando, Augusto Pinheiro, o único que ainda está na efectividade de serviço. Todos os outros estão na situação de Reforma ou Disponibilidade. Uma nota final para não haver dúvidas: esta viagem foi integralmente paga pelos próprios.

 

 

 

 

 

 

 

Sobre este assunto do Monumento em Doboj, leia também no Operacional:

22JAN2012 – OPERAÇÃO “NÃO OS ESQUECEMOS!”

24JAN2012 – REGRESSO A SARAJEVO

24MAI2014 – NÃO DESISTIMOS DA LUTA PELA MEMÓRIA DOS PÁRAS MORTOS NA BÓSNIA!

12ABR2015 – MONUMENTO EM DOBOJ/BÓSNIA: A CAMINHO DA SOLUÇÃO?

25ABR2015 – MONUMENTO EM DOBOJ, PASSAGEM DO TESTEMUNHO

18OUT2016 – MONUMENTO EM DOBOJ: NOVO CICLO NAS RELAÇÕES PORTUGAL – BÓSNIA E HERZEGOVINA

21JAN2017 – HOMENAGEM AOS PARAQUEDISTAS FALECIDOS NA BÓSNIA

31MAI2017 – PORTUGAL E OS PÁRA-QUEDISTAS MORTOS NA BÓSNIA HOMENAGEADOS EM DOBOJ

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