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UM DIA NO REGIMENTO DE GUARNIÇÃO N.º 3 – FUNCHAL

Por • 9 Nov , 2019 • Categoria: PRIMEIRA PÁGINA Print Print

O Regimento de Guarnição n.º 3 localizado no Funchal é a unidade fulcral do dispositivo militar na Madeira, com a esmagadora maioria dos efectivos das Forças Armadas nesta Região Autónoma. Tem capacidades que lhe permitem não só desempenhar a sua missão primária, naturalmente a vertente operacional, mas também o apoio às populações, facto comprovado em várias ocasiões recentes.

Porta de Armas do Regimento de Guarnição N.º 3 no Funchal, a principal unidade militar da Região Autónoma da Madeira.

A actividade do Exército Português nos últimos anos tem sido muito marcada não só pela participação em missões internacionais – com maiores ou menores efectivos já duram há mais de um quarto de século – como pelo apoio a entidades civis, estas fruto das catástrofes que nos têm atingido e a necessidade de reforçar a Protecção Civil – com infeliz destaque para os incêndios, suas vítimas e prejuízos. Acresce ainda a estes dois aspectos que nos parecem ser os de maior relevância, o grande esforço do ramo terrestre e das unidades em concreto, apesar das limitações legislativas, na divulgação das suas actividades e capacidades junto das camadas mais jovens da população, para tentar recrutar os efectivos que escasseiam. 

Monumento ao Combatente Madeirense no Ultramar – 1954 – 1975. Da autoria de Ricardo Velosa foi inaugurado em 26ABR2003. Na Guerra do Ultramar morreram quase cem militares madeirenses e “…pela sua excepcional bravura a Companhia de Caçadores 1522, cuja acção permitiu recuperar a Fazenda Madureira, nos Dembos (Angola, 1966), o que lhe valeu a Cruz de Guerra de 1ª Classe…”. Esta condecoração está hoje nas Armas do RG 3. Companhias de militares madeirenses serviram na Índia Portuguesa, Angola, Moçambique, Guiné, Timor, Macau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde.

D. Nuno Álvares Pereira Patrono da Infantaria e Santa Bárbara Padroeira da Artilharia, alusão às duas antigas unidades, que se fundiram no Regimento de Guarnição: Regimento de Infantaria do Funchal e do Grupo de Artilharia de Guarnição N.º2.

Actividade na Região, Continente e FND

Na Madeira o panorama é exactamente o mesmo, o Regimento esteve empenhado no aprontamento da 8.ª Força Nacional Destacada portuguesa que participou na Operation Inherent Resolve / Iraque (05Nov18 a 19Abr19), dando sequência com sucesso ao trabalho antes executado por idênticos contingentes das 3 Brigadas do Exército e da Zona Militar dos Açores; uma curiosidade, esta força foi a primeira FND que usou em operações o novo fardamento camuflado do Exército.

Preparação do 8.º Contingente Nacional que actuou no Iraque no âmbito da Operação Inherent Resolve em 2018 e 2019.

Militares da Madeira no Iraque a ministrar instrução às forças locais.

Dezembro de 2018, a 8.ª FND / OIR posa para a posteridade em Besmayah  no dia em que recebeu a visita do Comandante da Zona Militar da Madeira, Major-General Carlos Perestrelo.

O seu Batalhão de Infantaria este ano já participou em vários exercícios quer na Região Autónoma (“Exercício à Escala Total no Aeroporto da Madeira”/Aeroporto da Madeira; “Garjau/Golfinho 19”/Madeira; “Pedra Viva” na Ponta do Pargo/Madeira; “Espada 19”/Madeira; “SOFEC- Special Operations Forces Exercise Challange”/Madeira e Porto Santo; “Madeira 19”/Madeira) quer no Continente (“Trovão19” em Vendas Novas; “Strong Impact 19.1” em Leiria);

A Browning 12,7mm faz parte do armamento orgânico do RG 3.

Morteiros 120mm a arma de maior alcance actualmente em uso na ZMM.

O canhão bitubo 20mm, destinado a bater alvos aéreos e terrestres.

O RG 3 dispõe de uma carreira de tiro para armas ligeiras.

Como esta unidade também realiza incorporações e ministra “recrutas” acresce a esta lista, o exercício final do 4.º Curso de Formação Geral Comum de Praças do Exército de 2019, em Chão de Balcões nas zonas altas do Funchal. Agora, em Novembro de 2019 nova Formação Geral Comum de Praças já começou e…com o dobro dos efectivos da anterior!

Exercícios finais do 4.º Curso de Formação Geral de Praças, nas “alturas” da Madeira que podem ter um clima bem agreste!

Junto à Estação Radar da FAP no Pico do Areeiro. O Comandante do RG 3, Coronel Ponte Figueiredo e o Adjunto, Sargento-Mor Alves Diz, acompanharam a marcha final do exercício dos novos militares do Regimento.

Em termos de apoio às populações, curiosamente, este ano – até agora a actividade do RG 3 foi… em Tavira! É verdade, no âmbito do Plano de Apoio Militar de Emergência do Exército em Julho último um Pelotão de 21 Militares da Zona Militar da Madeira, maioritariamente composto por pessoal do RG 3 vieram até ao Algarve e Alentejo para reforço do Destacamento do Regimento de Infantaria Nº1 da Brigada de Reacção Rápida. Realizaram patrulhamentos em Silves, Monchique, Loulé, São Brás de Alportel e Beja, participaram num Juramento de Bandeira, em Castro Verde, e desenvolveram acções de Treino Operacional.

Militares da ZMM estiveram no último verão no Sul de Portugal empenhados em acções de Apoio Militar de Emergência e Treino Operacional.

Nas duas últimas grandes catástrofes que a Madeira sofreu (2010 e 2016) o apoio do RG 3 e dos seus militares às populações não foi coisa pouca.

Centro de acolhimento temporário dos desalojados dos incêndio do Funchal, localizado no Regimento e Guarnição nº3, RG3, Funchal, 09 de Agosto de 2016.

A cooperação com a Marinha e a Força Aérea na Região Autónoma também é uma realidade, quer na Ilha da Madeira quer no Porto Santo, seja através do Comando Operacional da Madeira que depende do Estado-Maior General das Forças Armadas, seja directamente através dos respectivos ramos.

Recorda-se que a Zona Marítima da Madeira sob o comando de um Capitão-de-Mar-e-Guerra, dispõe de um navio patrulha em permanência na Região Autónoma – actualmente um da Classe Tejo – e a espaços reforça o seu dispositivo temporariamente com meios navais idos do Continente; No âmbito da Autoridade Marítima Nacional, o mesmo Capitão-de-mar-e-guerra que comanda a ZMM é o Chefe do Departamento Marítimo da Madeira, Capitão do Porto do Funchal, Capitão do Porto de Porto Santo, Comandante Regional da Polícia Marítima da Madeira, Comandante Local da Polícia Marítima do Funchal e Comandante Local da Polícia Marítima de Porto Santo.

A Força Aérea mantém na Ilha de Porto Santo o Aeródromo de Manobra n.º 3 e na Ilha da Madeira a Estação Radar n.º 4, no Pico do Areeiro.  O Destacamento Aéreo da Madeira é composto por um C-295M e um EH-101. Além de apoiar e outras aeronaves militares que operem ou transitem no aeródromo, Compete ainda ao AM 3 garantir o armazenamento e distribuição por oleodutos de todo o combustível a consumir na ilha do Porto Santo.

Iniciou-se nos últimos dias mais um Curso de Formação Geral de Praças, vulgo “Recruta”. Meia centena de jovens madeirenses de ambos os sexos iniciam assim a sua vida militar.

Em tempos de grande falta de efectivos no Exército, apesar de tudo na Madeira a situação não sendo a ideal é bem melhor que em muitos outros regimentos que temos visitado. E isto apesar do Exército só recrutar Praças madeirenses para as suas unidades no Arquipélago. A convicção geral aqui é que o “passa-palavra” sobre o que é a vida militar e o entrosamento na sociedade civil, apesar dos baixos salários dos Praças e da feroz “competição” da hotelaria, ainda vai dando os seus frutos. Não se sabe é por quanto tempo.

Inseridos na comunidade

De um modo geral não há dúvidas que nos dias de hoje o entrosamento das unidades do Exército com as populações locais é uma realidade um pouco por todo o país, especialmente em locais mais afastados dos grades centros urbanos de Lisboa e Porto. Parece-nos no entanto que aqui isto é ainda mais notório. Além das excelentes relações com as entidades regionais e autárquicas – o que aliás ficou dramaticamente evidente no recente e infeliz caso da exoneração do Comandante do COM  e ZMM com veemente tomadas de posição públicas destas entidades – haverá certamente mais aspectos, a outros níveis, mais “junto ao terreno” que o justificam.  Talvez o apoio recente em situações tão dramáticas como as cheias e os incêndios que o Funchal conheceu e o imediato apoio que as Forças Armadas no seu todo prestaram, mas naturalmente que foram os militares do Exército que estiveram “olhos nos olhos” com as vítimas, foram eles que os receberam nas camaratas do Regimento; talvez pelo facto da generalidade dos praças, e uma grande parte dos sargentos e oficiais que aqui servem serem madeirenses ou na Região residam a título permanente; talvez pela cooperação na área desportiva com entidades civis, algumas várias vezes por semana, como a Associação de Atletismo da Região Autónoma da Madeira, o Clube Sport Marítimo, a Associação Cultural e Desportiva do Jardim da Serra, o Clube Naval do Funchal; e com outras entidades ligadas à conservação da natureza, como o Instituto das Florestas e Conservação da Natureza e o Parque Ecológico do Funchal.

No dia da passagem à situação de Reserva, o Comandante Operacional da Madeira e Comandante da Zona Militar da Madeira, Major-General Carlos Perestrelo, foi recebido no Regimento e entre outras homenagens de que foi alvo pelos militares e civis da unidade, o Comandante do Regimento Coronel Ponte Figueiredo fez questão de convidar o seu antigo comandante, uma última “prova do rancho”.

E certamente também em grande medida por aqui se realizarem as actividades do Dia da Defesa Nacional, uma actividade comum a muitas unidades das Forças Armadas, bem assim como muitas visitas escolares (este ano já foram 24, mais de 1000 crianças); mas também uma actividade inédita em Portugal, o Projecto “Alista-te por um Dia”, ao qual aliás tivemos oportunidade de assistir, acompanhando crianças e professoras. Nestes últimos 12 meses cerca de 2.000 crianças passaram pelo RG 3 no âmbito deste Projecto destinado a crianças do 1º Ciclo do Ensino Básico, 4º ano de escolaridade de 65 escolas da Madeira. Este é um projecto das Forças Armadas e não apenas do Exército, executado pelo Comando Operacional da Madeira com a natural colaboração do Governo da Região Autónoma, que pretende transmitir aos jovens do 4 ano do Ensino Básico os valores da instituição militar e da cidadania, dando a conhecer de forma dinâmica e apelativa, as actividades mais representativas das Forças Armadas Portuguesas. 

Quando falamos em números seja de visitas seja de efectivos militares devemos ter sempre em linha de conta que segundo os últimos dados oficiais, (relativos a 31 de dezembro de 2016), residiam na Região Autónoma da Madeira 254. 876 pessoas.

Alista-te por um dia é uma iniciativa que envolve as entidades Regionais e os três ramos das Forças Armadas na Madeira que sem dúvida promove um maior conhecimento da instituição militar por parte da sociedade civil, em concreto alunos e professores do Ensino Básico. O “dia militar” das escolas que visitam o RG 3 inicia-se com um ensaio do Hino Nacional e depois a participação activa no cerimonial do Hastear da Bandeira Nacional.

De modo descontraído as crianças cantam o Hino Nacional e aprendem que a Bandeira Nacional é um símbolo a respeitar.

Ainda no “rescaldo” das comemorações nacionais da 1.ª Guerra Mundial e do grande impacto que tiveram no todo nacional, também nesta actividade, a Guerra, é explicada às crianças e bem assim como os rudimentos do que cada militar fazia e com que equipamentos.

A passagem pelas trincheiras com fumos e sons do “campo de batalha” talvez seja a parte mais emocionante deste dia!

Segue-se o “campo de sobrevivência” onde uma dezena de técnicas e/ou materiais que permitiriam a uma pessoa sobreviver em ambiente natural sem auxilio externos são apresentados e explicados sucintamente. De algum modo será um apelo à aventura e à vida ao ar livre!

O armamento orgânico da unidade é apresentado de modo naturalmente muito genérico às crianças que mostram grande interesse e curiosidade em algumas das suas características.

O “Alista-te por Um Dia” pareceu-nos ser uma actividade bem conduzida pelos militares envolvidos, num registo informativo e com um mínimo de formalidades militares, sem cair em auto-elogios ou publicidade ostensiva. Os resultados práticos deste projecto imagino que ainda seja cedo para os perceber em todas as suas vertentes, agora que Professores e Crianças gostaram e  ficaram com uma boa imagem das Forças Armadas disso não nos fica a menor dúvida.

Turismo Militar, um excelente exemplo!

Outra área que o RG3 tem desenvolvido, com recursos próprios e em colaboração com o Museu Militar da Madeira e o Comando da Zona Militar da Madeira é a área do chamado “Turismo Militar”. Vamos dedicar outro artigo a este aspecto que como os nossos leitores sabem tem sempre a atenção do Operacional, mas desde já ficam aqui um par de notas.

A Bataria de Artilharia de Costa do Pico da Cruz é a mais bem conservada existente em Portugal e que se pode visitar! Ao panorama sombrio que se vive em relação à preservação das antigas batarias de artilharia de costa no Continente – como aqui temos referido em várias ocasiões – a Madeira mostra-nos um óptimo exemplo que caminha para a excelência! Não estamos a exagerar, já vimos muita coisa semelhante em muitos países e é mesmo assim. Já está muito bom para se visitar, vai ficar melhor!

Em termos de Turismo Militar, além do Museu Militar da Madeira no Palácio de São Lourenço aberto ao público e com alguns aspectos inovadores, há ainda a referir na Unidade de Apoio da ZMM, no Pico de São Martinho, o excelente trabalho que está a ser feito na recuperação da Bataria de Artilharia Anti-Aérea, e que tudo indica em breve poderá também passar a ser visitada. Nesta área no Continente não há nada sequer semelhante, apenas algumas armas guardadas em museus. Em suma, o “circuito integrado através do património militar” previsto pela Zona Militar da Madeira, em cooperação com o Governo Regional, a Câmara Municipal do Funchal e a Universidade da Madeira,  e que previsivelmente também incluirá o antigo “Paiol Geral do Funchal” – hoje sede da Liga dos Combatentes e que também visitamos –  e o “Percurso Histórico Militar do Funchal” (este da responsabilidade da Câmara Municipal do Funchal), já tem o Museu Militar em pleno funcionamento, e muito em breve estará totalmente “operacional”. Um exemplo a seguir no Continente e nos Açores! 

Um pequena amostra do que iremos abordar no artigo dedicado ao Turismo Militar na Madeira. As batarias de costa (Krupp 15cm 1898) e anti-aérea (9,4cm) e uma Berliet (Camião Militar GBA6 MT 6X&) fielmente recuperado no RG 3 e que está a funcionar.

 

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