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PÁRAS PRONTOS PARA A REPÚBLICA CENTRO AFRICANA

Por • 27 Jan , 2018 • Categoria: EM DESTAQUE Print Print

«Não há duas missões iguais», frase tantas vezes ouvida a militares que em várias missões expedicionárias têm participado, é uma verdade comprovada agora na República Centro Africana. “As experiências quer da primeira quer da segunda força estão traduzidas nesta instrução que estamos aqui a desenvolver e se há coisas em comum nos dois contingentes que nos antecederam, há outras bem diferentes que nos foram relatadas. A situação está em permanente evolução e é preciso profissionalismo, motivação, grande capacidade de adaptação e…bom senso para enfrentar o imprevisto”.

Mais uma missão para os militares do 1.º Batalhão de Infantaria Pára-quedista. Depois da Bósnia, Timor-Leste, Kosovo, Iraque e Afeganistão, agora a República Centro Africana. O teatro de operações é difícil, o clima também e a força multinacional tem características e capacidades diferentes das que encontramos nas operações da NATO. As anteriores FND têm representado Portugal ao mais alto nível porque a missão atribuída tem sido bem cumprida, e é isso que se espera desta nova força.

Lições aprendidas colocadas em prática

As palavras são do Tenente-Coronel Pára-quedista João Bernardino, 52 anos de idade, 31 de serviço, comandante do 1.º Batalhão de Infantaria Pára-quedista (1BIPara) que se encontrava no Campo de Tiro, em Alcochete, quando ali estivemos durante algumas horas para tomar contacto com esta fase final da preparação para mais uma missão deste batalhão(*) da Brigada de Reação Rápida (BrigRR). Traduzem a experiência dos dois contingentes que o antecederam na República Centro Africana (RCA), o segundo deles ainda em operações e que vai ser rendido a partir de meados de Fevereiro. Continua João Bernardino, “a cooperação tem sido excelente, julgo que os meus antecessores não podiam ter feito mais para transmitir aquilo que foi e está a ser neste momento a sua vivência na RCA. As dificuldades quer a nível logístico quer a nível operacional, as soluções encontradas para cada obstáculo, as características das facções em presença e o seu modo de agir quer do ponto vista psicológico quer militar, as capacidades e vulnerabilidades dos nossos parceiros na força multinacional e sobretudo dos grupos armados, tudo me foi passado com grande abertura quer pelo Tenente-coronel Musa Paulino (comandante da 1.ª FND) quer pelo Tenente-Coronel Duarte Varino (comandante da 2.ª FND, que ainda está na RCA).

Os relatórios vindos da RCA contribuem e muito para ajustar o treino ministrado em Portugal, mas este trabalho de preparação do 1.ºBIPara que termina dentro em breve com uma inspecção operacional – Combat Readiness Evaluation (CREVAL) pela Inspecção Geral do Exército – começou bem antes. Incluiu reuniões de trabalho no Regimento de Comandos e na BrigRR com os oficiais da 1.ª FND (esteve no teatro de operações de Janeiro a Setembro de 2017); participação de quadros deste 1.º BIPara no exercício final de certificação operacional da 2.ª FND que actualmente está na RCA; o reconhecimento ao teatro de operações em Novembro de 2017 pelo comandante e alguns quadros do 1BIPara que o seu comandante considera “foi bom irmos lá tão cedo, assim ainda foi possível fazer algumas adaptações que nos pareceram aconselháveis. Estes reconhecimentos são muito importantes, por mais informação que nos chegue do teatro de operações, e chegam muitas como já referi, não há nada que substitua uma avaliação directa ”.

O Major Pára-quedista Carvalho, 42 anos de idade, 22 de serviço, oficial de operações desta 3.ª FND, enquanto nos explica uma acção que vai ser treinada e inclui o uso de um “drone” e do destacamento EOD (explosive ordnance disposal, que em português se pode traduzir por inactivação de engenhos explosivos) no desimpedimento de uma “picada” (estrada de terra) que havia sido bloqueada com abatises – quem esteve ou estudou a guerra do Ultramar sabe bem o que isto é, e sobretudo o perigo que significa! – reforça as palavras do seu comandante “…pode-se mesmo dizer que estamos on-line com a força dos Comandos que está na RCA, alguns dos procedimentos que ali puseram em prática recentemente, são estes que já estamos aqui  a treinar. A alteração das circunstâncias no terreno é uma constante, a força do TCor Varino (2.ª FND) actuou em alguns locais e contra grupos diferentes da do TCor Paulino (1.ª FND) e logo deparou-se com problemas diferentes, teve que encontrar soluções diferentes. Vamos mentalizados para as mesmas ameaças mas também outras novas que apareçam e haveremos de resolver!”

Prevendo-se já que a próxima força – a partir em Agosto ou Setembro de 2018 – possa ser oriunda do 2.º Batalhão de Infantaria Pára-quedista (2BIPara), quadros deste batalhão da BrigRR virão também fazer uma visita de informação a este exercício e assim tomar contacto com o que está ser feito para começar a delinear a sua própria preparação para eventual emprego na RCA. 

Numa das carreiras de tiro os pelotões treinaram “posições modificadas combinadas”. O militar sob orientação de um instrutor exercita o tiro “ao alvo” …mas através das “seteiras” identificadas com um número.

Como se percebe desde a posição de pé até à deitado passando por várias “intermédias”, o atirador tem que adaptar-se, rapidamente, visar o alvo e abrir fogo.

Dependendo naturalmente do ritmo imposto pelo instrutor, pode ser um treino bastante exigente …e tem que ser!

Não basta apontar para a zona e apertar o gatilho, isto é feito para atingir o inimigo e para isso tem que ser avaliado com seriedade. Note-se no militar à esquerda o “drop-bag” que é utilizado para colocar rapidamente os carregadores vazios em vez de os deitar ao solo, sendo depois de terminada a acção recolocados no local próprio, os porta-carregadores.

Boa imagem do actual equipamento individual do militar do Exército que vai actuar na RCA. Melhorou-se sem dúvida e do colete balístico à bandoleira da arma, passando por vários outros itens houve uma evolução. A espingarda HK G-3 7,62x51mm NATO, que entrou ao serviço a partir de 1961, continua a destoar mesmo que algumas (poucas!) das que estão na RCA disponham de melhoramentos. A urgência na sua substituição é maior do que nunca.

O BGen. comandante da BrigRR, unidade organizadora desta FND esteve em Alcochete. Da esquerda, Cap. Nelson Inácio que dirigia o treino de tiro, BGen. Coelho Rebelo, TCor João Bernardino, Cmdt. 3.ª FND (Conj.) MINUSCA e do 1BIPara, Cor. Ferreira Duarte, Cmdt. RI 15 (Tomar) unidade mobilizadora do 1.º BIPara.

Esta cooperação franca e esta partilha de informação entre Comandos e Pára-quedistas que vai mesmo muito para além do que é serviço e entra nas experiências pessoais entre quem esteve, quem está e quem vai estar na RCA, é uma das provas do clima que reina na Brigada de Reacção Rápida entre militares de origens muito diferentes e que traduz uma das vantagens deste modelo de organização”, refere o Brigadeiro-General Coelho Rebelo presente em Alcochete para se inteirar do modo como estava a decorrer a preparação de mais esta força da BrigRR – a qual comanda “de facto” desde Outubro de 2017 mas oficialmente desde 9 de Janeiro de 2018 – que vai ser projectada para nova missão exterior. 

Para os observadores menos atentos, nomeadamente no espaço público, fala-se muito em relação à RCA de Comandos e agora de Pára-quedistas, mas a realidade é que (além da participação do Destacamento de Controlo Aéreo Táctico da Força Aérea Portuguesa que se irá em breve juntar a esta FND e que no terreno irá actuar inserido na componente operacional junto com os pelotões de pára-quedistas, correndo os mesmo riscos), não só a força é composta por militares de outras especialidades como todos estes seus componentes do Exército estão na dependência da Brigada de Reacção Rápida, uma das três grandes unidades do ramo terrestre, juntamente com a Brigada Mecanizada e a Brigada de Intervenção, esta última que em breve irá projectar uma força para o Afeganistão.

Perguntamos ao BGen. Cmdt. da BrigRR, deixando de parte as considerações de ordem política, diplomática e mesmo geoestratégica, como vê este emprego operacional real  e continuado de forças da brigada na RCA?  “Do ponto de vista puramente operacional faço uma análise muito positiva daquela que é a participação, sem excepções, em missões que somos chamados a cumprir no quadro das políticas de alianças internacionais das quais Portugal é signatário. 

Em primeiro lugar porque, desde logo, a atribuição pelo Escalão Superior destas missões à BrigRR consubstancia o reconhecimento das capacidades operacionais residentes nesta Grande Unidade do Exército que estão solidamente alicerçadas num modelo de treino intensivo e exigente e com provas dadas.

Em segundo lugar porque propicia uma vivência operacional única e uma partilha de experiências notável a todos quantos nelas participam, que não é possível ser recriada na sua plenitude em situações de treino, este acervo de conhecimento único, no caso concreto da BrigRR, é utilizado no refinamento das acções de treino operacional, adaptado às novas realidades da conflitualidade, que conduzirão a um cada vez melhor produto operacional.

Contudo não podemos negligenciar o factor risco, que no caso do empenhamento operacional é exponencial face ao treino; e é de forma a mitigar ao máximo este factor que a formação e o treino são necessariamente intensos e exigentes pois constituem a antecâmara do seu emprego nos muitas vezes complexos Teatros de Operações em que nos encontramos”.

Aqui treinava-se fogo e movimento, com apoio mutuo. O treino iniciava-se com esta simulação de desembarque de viatura.

Como se compreende a coordenação entre os 5 elementos da esquadra é fundamental para manter a pressão sobre o inimigo quer no ataque quer…

…na rotura de combate, sempre com apoio. E isto não é teoria já aconteceu com anteriores FND na RCA, terem que efectuar uma acção destas que aqui se treinava.

Uma das armas mais potentes da FND, a velha mas fiável Browning 12,7mm, um caso de longevidade que continua sem rival nos quatro cantos do mundo, mesmo nos exércitos mais evoluídos. Podia ter alguns sistemas de apoio à pontaria, mas continua uma excelente arma.

Pode ser usada para diversos tipos de tiro e na FND também está montada em viaturas.

A velha HK MG 3, calibre 7,62mm, sendo uma boa arma também já teve o seu tempo e deverá ser substituída por uma arma mais recente. Uma das soluções já a vimos ser apresentada aqui em Alcochete.

Usada pelas tropas portuguesas durante a guerra do Ultramar nos anos 60 e 70 do século XX, era muito superior à também usada HK 21.

O Capitão Freire supervisiona o treino de tiro com as HK MG 4, calibre 5.56mm, que pode ser usada com este bipé ou montada nas viaturas “Commando Assault Vehicle” que também estão na RCA.

Armamento e equipamento

Olhando para o material que está a ser empregue na RCA actualmente e que vai ser usado por esta força que agora vai partir – basicamente o mesmo mas com alguns melhoramentos de detalhe, já lá iremos – estamos naturalmente a pensar desde logo em termos de viaturas e armamento, individual e colectivo. Quisemos também abordar este aspecto crucial para o sucesso da missão e para a segurança do pessoal, perguntando ao comandante da BrigRR: sendo verdade que cada Exército combate com o que tem e não com o que gostaria de ter, quais os aspectos ligados ao material a ser empregue que gostaria de ver melhorado?A sua afirmação é uma verdade insofismável que é transversal a todos os Exércitos, pois o permanente, chamemos-lhe, “desassossego” dos Comandantes leva a que nunca se dêem por satisfeitos na busca das últimas soluções tecnológicas que façam a diferença no Campo de Batalha, no entanto esse “desassossego” tem que necessariamente ter em linha de conta a realidade económica do País e a relevância que pretende ter a nível internacional. No caso concreto, como potenciais áreas de esforço, elencaria como prioritárias a protecção, mobilidade e comando e controlo; contudo permita-me relevar um factor que nos é particularmente grato, e que está imune às conjecturas económicas e políticas internacionais, que é a qualidade do Soldado Português que continuará a servir a pátria sem pré-condições, onde e quando for chamado a fazê-lo.”

Para quem acompanha estas matérias em Portugal e no estrangeiro a questão do equipamento das forças é recorrente. Claro que se nota bem mais em missões da NATO do que da ONU como esta, uma vez que as forças que actuam na RCA – quer os grupos armados quer as próprias unidades da força multinacional – estão num nível tecnológico baixo. Isto não quer naturalmente dizer menos perigoso ou exigente, mas sim que parte do nosso equipamento e armamento é contemporâneo ao do “inimigo” quando em boa verdade devia ser – dizemos nós! – bem mais moderno. É naturalmente a qualidade do soldado que tem que fazer a diferença, mas os riscos são naturalmente maiores. O caso da espingarda e de algum outro armamento é paradigmático bem assim como o caso das viaturas blindadas (e não blindadas) também. Claro que a estrutura superior dos Ramos e das Forças Armadas sabem bem estas limitações mesmo que não gostem de as admitir publicamente, o que se pode compreender, o impacto político seria embaraçoso. Mas ninguém duvide que esta avaliação de ameaças e riscos consoante o teatro de operações é sempre feita e transmitida ao poder político a quem compete a atribuição de recursos. Tudo parece indicar aliás – o que é um bom sinal – que a nova FND a destacar para o Afeganistão ainda este ano (NATO Resolute Support Mission), num teatro de operações e parceiros com exigências tecnológicas muito diferentes da RCA, será equipada (finalmente!) com viaturas blindadas que conferem protecção muito superior às que Portugal actualmente dispõe.

Acresce que na RCA – ao contrário das missões da NATO – o apoio de artilharia é inexistente e o apoio aéreo para missões de ataque ao solo e evacuação sanitária é limitado. Mesmo assim o apoio aéreo é uma das poucas ajudas com que a força pode contar e daí a relevância da equipa da Força Aérea que integra os Forward Air Controller (FAC), controladores aéreos avançados. Seja para evacuação médica seja para ataque ao solo em apoio a alguma acção armada que a força portuguesa tenha que enfrentar. E isto não é teórico, já aconteceu. Aliás a primeira acção da 1.ª FND que foi amplamente divulgada em Portugal fruto do louvor que lhe foi concedido pelo comandante da força, incluiu o apoio aéreo por parte de helicópteros do Senegal que integram a MINUSCA e dispõem de um poder de fogo bastante temido e eficaz quando usado com profissionalismo, os MI35. Outras aeronaves disponíveis são os helis paquistaneses que também operam na MINUSCA.

A nossa Quick Reaction ForceQRF quando é empregue e por vezes a grandes distâncias da sua base está assim em grande medida entregue a si própria, às suas capacidades e ao seu pessoal. O poder de fogo residente na força é portanto uma preocupação, nomeadamente dispor de armas que tenham alcance e capacidade de destruição superior às armas dos grupos armados. A QRF é uma força de infantaria ligeira, a armas mais potentes e eficazes que transporta e estão operacionais são a metralhadora pesada Browning 12,7mm, o Carl Gustaf 84mm e o morteirete 60mm. Outras armas individuais – como a pistola Whalter P-38 9mm, a  espingarda automática SPAS 12mm, “shot gun” ou o Lança Granadas 40mm LG 6, com tambor para 6 munições – e colectivas – como o problemático Lança Granadas Automático 40mm Santa Bárbara M1 – também estão em uso nas FND’s portuguesas na RCA. 

Além destes aspectos operacionais também os logísticos não são menos importantes em zonas remotas da RCA onde…não há nada, ou há muito pouco. Como sempre na guerra, a logística pode aliás ser mesmo determinante para o sucesso ou insucesso de uma missão!

Um aspecto muito importante não só por ser uma missão em que tem havido na realidade acções de combate como pelos problemas associados ao clima e à situação sanitária do país, é o apoio médico. Este está na realidade a um nível raras vezes visto nas missões expedicionárias (ou mesmo nunca visto e ainda bem!), note-se que para uma força operacional de 3 pelotões, esta FND dispõe de 2 médicos, 3 enfermeiros e 2 socorristas.

O novo equipamento individual distribuído a esta FND agrada ao pessoal! Recebido já durante a preparação está ainda em fase de adaptação mas as referências que nos foram feitas são positivas. “O colete é realmente bem mais confortável que os anteriores, não nos tolhe os movimentos como alguns modelos anteriormente distribuídos que por vezes criavam problemas na reacção às emboscadas, para apontar bem a arma em determinadas posições ou mesmo para sair rapidamente das viaturas, e confere protecção acrescida – por exemplo o cinturão também é «à prova de bala» – e todo o conjunto permite que cada um coloque os seus artigos do modo como acha mais prático. Eu por exemplo já alterei a posição do porta-carregadores de pistola e dos da G-3, para melhor poder fazer uso deles,” diz-nos o Sargento-chefe Pára-quedista André Pena, 51 anos de idade, 33 de serviço, por sinal um dos últimos militares pára-quedistas transferidos da Força Aérea para o Exército em 1994 que ainda está ao serviço…e operacional! Continua André Pena,  “o capacete Ops Cor parece-nos adequado para aquele teatro de operações e as missões  a desempenhar e as novas botas recebidas, as Jungle Boots, – já adquiridas fruto da experiência das forças que lá têm estado – são muito boas”.

O Major Carvalho refere que “parte do equipamento foi recebido no âmbito do «Projecto BIPara» com verbas da Lei de Programação Militar e que está a ser cumprido por fases”. Confirma o que acaba de ouvir do SChef Pena e continua “o colete modelar balístico Thor da NFM confere protecção no peito, costas e cintura, tem bolsas para assessórios e carregadores de pistola e espingarda, porta-granadas, kit-primeiros socorros, drop-bag, porta-cantil e ainda outros se necessário”.

A nível do fardamento, para um observador externo como nós, salta à vista que estão em uso dois padrões de camuflagem, o tradicional do Exército nos últimos 20 anos – de inspiração britânica – que é usado nas calça e dólman, e um mais recente padrão “MultiCam” que é o usado na cobertura dos capacetes e no equipamento individual. Ao que nos foi dito o pessoal da Força Aérea que se vai juntar à FND também faz uso do “MultiCam” (que igualmente já vimos nos destacamentos de precursores aeroterrestres do Regimento de Pára-quedistas), e está prevista a recepção de novas “combat shirts” (artigo em uso no teatro de operações desde a 1.ª FND) também diferentes do dito padrão do Exército. Se isto quer dizer que o “MultiCam” será o futuro para todos os uniformes de campanha do Exército e mesmo das Forças Armadas…não foi possível saber.

O Maj. Carvalho, Oficial de Operações, ladeado pelo SChef. Pena adjunto do Comando e responsável CIMIC, apresenta ao BGen. Rebelo o exercício táctico que se vai seguir e que foi montado com base nas últimas informações chegada do Teatro de Operações.

Na RCA os High Mobility Multipurpose Wheeled Vehicle continuam a ser as nossas únicas viaturas blindadas de transporte de pessoal, têm cumprido e assim se vai continuar. Os HMMWV “portugueses” foram adquiridos para a missão em Timor (em 2000), depois foram ainda utilizados no Kosovo e receberam uma blindagem (em Israel) para novo emprego no Afeganistão em 2006. Nesse teatro de operações chegamos a usar quer URO-VAMTAC quer HMMWV, emprestados por Espanha e EUA. Em 2017 rumaram à RCA. O Programa das Viaturas Tácticas Ligeiras Blindadas, previsto na Lei de Programação Militar e para o qual sucessivos chefes militares do Exército têm alertado, foi em 30JUN2016, desbloqueado com a assinatura do Despacho n.º 8840/2016 do MDN que autoriza a aquisição (via NATO Support Procurement Agency) de 167 viaturas por 60.800.000,00€, em 5 anos. É um procedimento que não tem carácter de urgência, não se sabendo quando chegam as primeiras viaturas.

Um dos Quadcopters usado no exercício a que assistimos para fazer o reconhecimento de obstáculos que bloqueavam uma estrada.

Um primeiro obstáculo não estava armadilhado, com as devidas precauções de segurança, foi removido para se continuar a marcha.

As deslocações no teatro de operações são demoradas, desgastantes e podem ser perigosas. Grupos armados têm feito vários mortos às forças internacionais com flagelações às suas coluna.

Neste obstáculo o “drone” detectou uma armadilha, uma equipa EOD do Módulo de Engenharia foi chamada a intervir. O militar está equipado com o fato pesado de protecção MK5.

A uma distância segura a armadilha é neutralizada. Ainda que este tipo de ameaça não tenha (até agora…) na RCA a importância de outros teatros de operações – como o Afeganistão por exemplo – a FND não descurou o treino desta vertente das suas capacidades.

O Sargento-Ajudante de Engenharia Paulo Soares, 43 anos de idade, 23 de serviço, com o canhão disruptor RE-70 que foi usado para fazer explodir a armadilha. À semelhança dos FAC da Força Aérea, estes militares e outros que não integram os pelotões operacionais de pára-quedistas não deixam de correr os mesmos riscos, são parte importante de qualquer missão no teatro de operações.

Os “artilheiros” das 12,7mm  instalados nas torres dos HMMWV estão relativamente desprotegidos mas ao mesmo tempo numa posição de tiro privilegiada e com uma potente arma que pode ter enorme importância na neutralização de quem ataque a coluna.

Em caso de ataque a guarnição desembarca e reage, ficando o condutor e o “artilheiro” nas suas posições.

Um militar foi ferido, retirado do interior da viatura e estão a ser-lhes prestados cuidados de emergência médica. Por vezes pode haver uma flagelação apenas para atrasar a coluna e tentar fazer baixas, outras há que estar preparado para um ataque e mesmo tentativa de assalto à coluna.

O Land Rover 130 TD4, “Commando Assault Vehicle”, trata-se de uma viatura civil adaptada com vários componentes, como uma blindagem na sua parte inferior. A guarnição da viatura é de 5+1 e está equipada com 1 metralhadora pesada Browning 12,7mm, ou em alternativa uma HK MG 3 7,62mm, e 3 ou 4 HK MG 4 5,56mm (na imagem). A viatura tem uma “rollbar” para proteger o pessoal em caso de capotamento e onde está o berço da arma principal e também para dois pneus suplentes, cunhetes de munições e um Carl Gustav. Do completo faz ainda parte um morteirete 60mm, o que confere a esta viatura e sua guarnição um bom poder de fogo. Como sempre neste tipo de viaturas, espera-se que a falta de protecção seja compensada pela sua agilidade e velocidade o que nem sempre é possível de fazer…

O Primeiro-Sargento Falcão refere que estes “drones” comerciais são versáteis e fáceis de usar embora com bem menos autonomia e sensores menos potentes que os AR4. Os da Tekever têm autonomia de 2 horas o que pode naturalmente ser necessário para certas missões mas para outras estes são preferíveis. Complementam-se bem.

O caso dos “Drones”

Uma nota breve sobre os “veículos aéreos não tripulados” que estão em uso na RCA e também no 1BIPara e que vimos ser empregues neste treino operacional. Mais uma das lições aprendidas no teatro de operações e transmitida para a força em preparação foi a (quase) indispensabilidade dos “drones” (chamemos-lhes assim por facilidade de expressão) para aumentar a segurança do pessoal em muitas situações. Sendo certo que no teatro de operações no âmbito de um protocolo com uma firma portuguesa de veículos aéreos não tripulados, a Tekever, há aparelhos AR4, também é verdade que muitas missões exigem o uso de “Quadcopters”. O Primeiro-Sargento Falcão, 39 anos de idade, 17 de serviço, recebeu formação ministrada pela Tekever com o AR 4, para possível utilização dessas competências na RCA, e manobra aqui em Alcochete um dos “drones” comerciais adquiridos para esta missão: “…estes são mais versáteis e fáceis de usar embora com bem menos autonomia e sensores menos potentes que os AR4. Os da Tekever têm autonomia de 2 horas o que pode naturalmente ser necessário para certas missões mas para outras estes são preferíveis. Colocam-se no ar com muita rapidez, são fáceis de operar, fazem o reconhecimento logo ali na frente a umas centenas de metros e regressam. É outro tipo de aparelho, e no caso concreto da RCA complementa muito bem outros mais potentes que possam ser usados”. O que vimos nesta área é fácil de traduzir por palavras e de demonstrar como um equipamento de baixo custo pode contribuir para o aumento da segurança de uma força em operações. Uma coluna auto depara-se com abatises a bloquear a estrada. Assim que os obstáculos são detectados a coluna pára o movimento e assume uma postura defensiva. O “drone” descola e dirige-se ao obstáculo, ao mesmo tempo que a força pode ainda tomar medidas adequadas para verificar a possibilidade de as árvores nas proximidades serem abrigo para observadores/atiradores “empoleirados”. A câmara do “drone” em principio detecta se o obstáculo está ou não armadilhado o que vai determinar o emprego ou não da secção EOD, para a sua neutralização. Todo este processo é moroso, a segurança da força tem que ser acautelada – isto não é um filme de acção nem uma demonstração para jornalistas – ultrapassar obstáculos sem baixas é o objectivo.

MINUSCA & EUTM-RCA

Além das limitações no apoio aéreo que já referimos  – que naturalmente depende das Nações Unidas e não de Portugal – outra lacuna refere-se ao transporte aéreo táctico quer com aeronaves de asa fixa quer rotativa. Essa sim seria uma enorme mais-valia para a força portuguesa uma vez que o seu principio de emprego pelo comando da força é a intervenção rápida. Os movimentos via terrestre que antecedem uma intervenção são regra-geral muito demorados e acrescentam risco que poderia ser evitado. Vários dias até chegar à área de operações, que podem distar centenas de quilómetros da base em Bangui. É fácil imaginar o desgaste que isso provoca no pessoal quer em termos físicos quer psicológicos, além do alastrar de problemas que podem ter lugar no lugar da acção, enquanto  QRF não chega. A título de exemplo refira-se que uma das últimas operações executadas na RCA pela 2.º FND teve lugar a 700 quilómetros da capital e que se chega a demorar 3 dias para fazer 150 Km…

Os portugueses têm feito a diferença nesta força e isso é unanimemente reconhecido, salvaram da morte muita gente, contribuíram para atenuar o sofrimento de muitos outros. Mas é preciso não ter ilusões, a FND portuguesa é composta por 160 militares e está integrada numa força multinacional com muitas limitações composta por 10.246 militares, a esmagadora maioria originários de países africanos e asiáticos.

Portugal dá também um contributo – este ano reforçado – para a formação e treino das Forças Armadas locais, no âmbito da EUTM-RCA, assegurando mesmo o comando da força durante 2018, sendo este um caminho obrigatório para a solução de médio e longo prazo dos problemas de segurança do país.

O “morteirete” de 60mm, ainda fabricado na INDEP, com anos e anos de emprego operacional continua uma boa arma para este tipo de operações. O seu uso requer muito treino mas é um arma de utilização muito rápida e fazendo tiro curvo pode bater alvos fora do alcance das outras armas da força.

Os Carl-Gustaf M2 de 84mm chegaram aos pára-quedistas em 1982 e continuam a ser usados. Na imagem os procedimentos para “alinhar” a arma (pelo venturi e cano) com o seu aparelho de pontaria (visor telescópico).

Apontador e municiador preparam disparo. O Carl Gustaf pode usar vários tipos de munições, das de instrução às explosivas, anti-pessoal e iluminantes e sendo uma arma algo pesada para transporte apeado adapta-se a várias situações tácticas e as suas “granadas” são temíveis.

Tendo a limitação de não poder ser empregue em espaços confinados, por causa do escape de gases – vem visível na imagem – é uma boa arma, com várias versões em uso um pouco por todo o mundo, e pode ser decisiva numa situação extrema na RCA.

O treino de combate em áreas edificadas pode ter real aplicação na RCA. As FND que lá têm estado já actuaram várias vezes em povoações contra grupos armados.

Além da sua primeira finalidade – preparar técnica e tacticamente os militares para combater neste ambiente – este treino também é uma mais-valia para ao espírito de equipa/pelotão e aperfeiçoar o entrosamento entre os seus vários elementos.

A confiança que se gera num ambiente de dependência mutua é um dos suportes do espírito de corpo.

A análise séria do que foi feito, desde os mais baixos escalões de execução e de comando é fundamental para aperfeiçoar o treino e melhorar assim a capacidade da força como um todo.

 

3.ª Força Nacional Destacada (Conjunta)/MINUSCA

Em cumprimento de decisão política do governo português, com parecer favorável do Conselho Superior da Defesa Nacional de 24MAR2016, Portugal tem desde Janeiro de 2017 uma força de escalão companhia a actuar como QRF/Quick Reaction Force – Força de Reacção Rápida, às ordens do comandante militar da Força das Nações Unidas na RCA – United Nations Multidimensional Integrated Stabilization Mission in the Central African Republic/MINUSCA. A 1.ª FND partiu para a RCA em 17JAN2017 e foi rendida pela 2.ª FND nos primeiros dias de Setembro, a qual deverá agora regressar em Março de 2018, quando esta 3.ª FND estiver integralmente colocada no teatro de operações. De assinalar que estes voos de rotação semestrais são responsabilidade das Nações Unidas, tendo-se apenas verificado voos de responsabilidade nacional para emergências – o caso do C-130 da Força Aérea Portuguesa accionado para repatriar um militar Comando da 1.ª FND ferido em operações – ou voos de sustentação logística que se venham a tornar indispensáveis.

A 3.ªForça Nacional Destacada-Conjunta/MINUSCA conhecida pela sigla 3ªFND-(Conj)/MINUSCA, está a ser preparada desde Setembro de 2017 e deve estar dada como pronta nesta primeira quinzena de Fevereiro de 2018. O treino foi faseado de acordo com um calendário e plano de aprontamento, que engloba todos os procedimentos administrativo-logísticos incluindo o aprontamento sanitário, o treino operacional, tanto individual como colectivo e finalmente preparação para a projecção da força. Os primeiro elementos partirão em Fevereiro e os restantes em Março.

O Tenente-Coronel Pára-quedista João Bernardino, 52 anos de idade, 31 de serviço é Comandante do 1.º BIPara desde Dezembro de 2016, tem uma extensa folha de serviços com várias missões internacionais (Bósnia, Timor-Leste, Kosovo e Afeganistão), condecorações e louvores. Assumiu a preparação desta 3.º FND (Conj.) MINUSCA em 4 de Setembro de 2017 e só podemos desejar-lhe e aos 158 homens e mulheres sob o seu comando, felicidades e sorte! Boa missão!

O treino operacional incluiu as seguintes tarefas-chave:

Missões de combate; patrulhas de segurança; operações de vigilância e de recolha de informações; reconhecimentos na área de operações; protecção de civis; proteger infra-estruturas ou áreas sensíveis e entidades ou outras Forças amigas; operações de cerco e busca; dirigir a acção de helicópteros de ataque; operações de extracção/resgate; actividades de coordenação com entidades civis.

Na RCA a FND portuguesa está instalada no aquartelamento de M. Poko, junto ao Aeroporto Internacional em Bangui a capital, podendo actuar em todo o território da RCA, o que tem acontecido frequentemente.

A 3ªFND-(Conj)/MINUSCA um efetivo de 159 militares, organizados em:

Comando e Estado-Maior;

Destacamento de Apoio com os módulos de Comunicações, Sanitário, Manutenção, Alimentação, Reabastecimento/Serviços e Modulo de Engenharia;

3 Pelotões de Paraquedistas e uma Equipa de controlo Aéreo Táctico (TACP) da Força Aérea. Os 3 pelotões de pára-quedistas dispõem cada um de 30 militares e estão organizados em equipas.

A missão do contingente português inclui:

Protecção de civis contra a violência física; apoio à implementação no processo de transição; facilitação imediata, total e sem constrangimentos de iniciativas de assistências humanitárias; protecção de pessoal e instalações da ONU; promoção e protecção dos direitos humanos; apoio à implementação da justiça nacional, internacional e de um Estado de direito; apoio às autoridades no planeamento e implementação da estratégia de desarmamento, desmobilização e reintegração.

Mesmo que seja um assunto classificado sobre o qual não nos adiantam detalhes, percebe-se pelo treino e por relatos de diversas acções reais, que as Regras de Empenhamento estão feitas para permitir o uso da força sem grades entraves o que naturalmente é alguma garantia de segurança para o nosso pessoal. Felizmente parece  que estamos longe dos tempos em que estas forças das Nações Unidas estavam manietadas por Regras de Empenhamento completamente desfasadas das necessidades operacionais.

Antes de nos despedirmos de Alcochete onde passamos “meio-dia de trabalho” com o batalhão, o TCor. Bernardino resume, “o aprontamento assentou em três vectores essenciais: disciplina, treino e motivação aos quais se acrescentou a resiliência, flexibilidade e adaptabilidade. Temos que demonstrar imparcialidade, profissionalismo e presença. Sabemos bem que a QRF actua quando tudo o resto já falhou. A força tem que ser coesa, onde as especialidades ou mesmo os ramos das forças armadas de origem de cada um não condicionem o resultado final que se pretende pelo menos igual aos que nos antecederam. Esta 3ª FND na RCA é constituída por militares do Exercito e da Força Aérea Portuguesa. Muito embora seja suportada por 80% de militares pára-quedistas, a unidade vale pelo seu todo, pelo seu colectivo. O segredo do sucesso está na coesão, camaradagem e espírito de corpo”.

Os números da MINUSCA. É preciso não ter ilusões, a FND portuguesa tem feito a diferença, aliviado o sofrimento de muitos e salvado mesmo outros, mas é composta por 160 militares e está integrada numa força multinacional com muitas limitações composta por 10.246 militares, a esmagadora maioria originários de países africanos e asiáticos.

A RCA tem um território 7 vezes maior que Portugal. A capacitação das suas próprias Forças Armadas é a única solução durável para o conflito. A ONU deve, entre outros aspectos, criar condições de segurança no país para que a EUTM-RCA possa fazer o seu trabalho de formação das Forças Armadas da RCA e no qual Portugal também está a desempenhar um papel.

(*) O 1BIPara é um dos batalhões cujo pessoal mais missões exteriores tem cumprido nas Forças Armadas Portuguesas. Bósnia, Kosovo, Timor-Leste, Iraque, Afeganistão, Guiné-Bissau e agora República Centro Africana.

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