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VISITA AO SUBMARINO “ESPADON”

No momento em que se aproxima a passos largos a retirada do serviço activo do último submarino da classe “Albacora”, e tentando contribuir para manter viva a ideia antiga de preservar – pela primeira vez em Portugal – pelo menos um destes navios, apresentamos um caso semelhante, o “Espadon” (Espadarte), que se encontra aberto ao público em Saint-Nazaire.

O "Espadon" foi o primeiro submarino francês a ser desmilitarizado e exposto ao público como museu. [1]

O "Espadon" foi o primeiro submarino francês a ser desmilitarizado e exposto ao público como museu.

O “Espadon”
O “Espadon” foi um submarino da Marinha Francesa pertencente à classe “Narval”, a primeira construída em França depois da 2ª Guerra Mundial, mais antiga portanto que “Daphné” a dos portugueses “Albacora”, “Barracuda”, “Cachalote” e “Delfim”. Modernizado em 1968 o “Espadon” ficou a partir dessa data com algumas semelhanças à classe que veio também a dar origem à 4ª Esquadrilha de Submarinos da Marinha Portuguesa, da qual ainda navega o “Barracuda”.
O “Espadon” foi lançado à água em 1958, entrou ao serviço em 1960 e depois de modernizado ainda navegou até 1985, cumprindo assim 25 anos de serviço. As missões que cumpriu foram as normais da sua época, dissuasão, vigilância de zonas oceânicas, treino e campanhas oceanográficas, mas nunca foi empenhado em missões de combate. Em Setembro desse ano saiu do porto de Lorient onde se encontrava com 15 dos seus antigos 16 comandantes para cumprir uma última missão, simbólica claro, de navegação. No ano seguinte foi rebocado para Saint-Nazaire onde se encontra.
Trata-se de um navio com 78 m de comprimento, 7,22m de largura e 12 de altura. O seu peso à superfície é de 1.600 toneladas e quando submergido atingia as 1.900.
No conjunto dos submarinos franceses o “Espadon” detém duas particularidades: foi o primeiro a navegar além do círculo polar Árctico e a ter emergido no meio dos bancos de gelo; trata-se também do primeiro – mas não o único actualmente – submarino francês a ser aberto ao público como museu. E foi nesta qualidade que o visitamos.

A enorme "doca/porto" de Saint-Nazaire: à direita a eclusa fortificada e à esquerda a base dos U-Boat alemães [2]

A enorme "doca/porto" de Saint-Nazaire: à direita a eclusa fortificada e à esquerda a base dos U-Boat alemães.

Eclusa museu de Saint-Nazaire
Saint-Nazaire na costa atlântica de França tem sido ao longo dos séculos um importante porto deste país e no decurso da 2ª Guerra Mundial foi um dos locais escolhidos pelos alemães para a construção de uma base fortificada destinada a submarinos e quando necessário outros navios de pequeno porte. À semelhança de Lorient, Brest, La Rochelle e Bordeuax, o “bunker” principal de Saint-Nazaire impressiona ainda hoje pelas dimensões e robustez.

Descrição sumária das infra-estruturas deixadas pelos alemães e hoje aproveitadas turisticamente. Note-se que não estão na mesma escala sendo a cima bem maior (299m de frente) [3]

Descrição sumária das infra-estruturas deixadas pelos alemães e hoje aproveitadas turisticamente. Note-se que não estão na mesma escala sendo a de cima bem maior (299m de frente).

A base principal que incluía 14 alvéolos para submarinos – 6 dos quais duplos – e todas as infra-estruturas de apoio logístico necessárias à reparação naval e funcionamento da estrutura. No mesmo edifício funcionavam, em três andares, sessenta oficinas diversas, para reparar qualquer elemento dos submarino. Também aqui co-existiam sectores tão diferentes como as camaratas para os operários, hospital (com farmácia, dentista e sala de operações) ou depósitos de munições, cozinhas, duas centrais eléctricas e mais um sem número de órgãos que permitiam o funcionamento autónomo debaixo dos bombardeamentos aliados. Tinha diverso armamento para tiro anti-aéreo e terrestre que permita a defesa isolada de outras estruturas existentes. Os alemães construíram ainda em Saint-Nazaire mais duas  fortificações de relevo: um edifício posto de comando na retaguarda da base (hoje não existente) e uma eclusa.

A Eclusa que hoje aloja o "Espadarte". Á direita (pintadas de azul) as comportas da eclusa original, que foi durante muito tempo - inaugurada em 1856! - a entrada original do Porto. Ao fundo o estuário do rio Loire que dá acesso ao Atlêntico. [4]

A eclusa que hoje aloja o "Espadarte". À direita (pintadas de azul) as comportas da eclusa original, que foi durante muito tempo - inaugurada em 1856! - a entrada original do Porto. Ao fundo o estuário do rio Loire que dá acesso ao Atlântico.

Esta destinada a permitir a entrada dos submarinos no porto com segurança acrescida. Na realidade o momento da travessia da eclusa provou ser bastante perigoso uma vez que era demorada e assim os submarinos estavam ao alcance da aviação aliada. Ao lado da eclusa normal construiu-se assim uma “blindada”, a qual no entanto pouco serviu visto que só ficou terminada em 1944. É nesta estrutura que se encontra hoje o museu com o “Espadon”. O porto de Saint-Nazaire alberga ainda outros museus como a Base de Submarinos, a Escala do Atlântico (sobre parte da história não militar do Porto e os grandes transatlânticos que ali partiam ou faziam escala) e um dedicado a aspectos ecológicos.

Oa álvelos da base de submarinos vistos do interior da eclusa. [5]

Os álvelos da base de submarinos vistos do interior da eclusa.

As estruturas construídas pelos alemães tiveram utilizações diversas depois da guerra, acabaram por se degradar e só a partir do final dos anos 80 – até 2000! – se procedeu à sua total requalificação, pela autarquia, com fundos próprios, do Estado Francês e da União Europeia. Hoje este conjunto, sobretudo a enorme base, tem utilizações ligadas ao turismo e à cultura.

Ao museu chega-se facilmente de carro ou a pé, havendo estacionamento. O tecto da eclusa fortificada pode ser visitado e tem acesso por escadas e elevador [6]

Ao museu chega-se facilmente de carro ou a pé, havendo estacionamento. O tecto da eclusa fortificada pode ser visitado e tem acesso por escadas e elevador.

A eclusa fortificada de Saint-Nazaire recebeu o “Espadon” em 1987 que desde então tem sido visitado por milhares de pessoas. Paga-se (adultos) 8,00 € para o ver e ainda há a possibilidade de gastar mais alguns euros na loja que apoia o navio, onde pode encontrar de tudo um pouco, ligado a submarinos, à 2ª Guerra Mundial e a Saint-Nazaire. Livros, camisolas, filmes, moedas, autocolantes, postais, diplomas da visita, moeda comemorativa, miniaturas, enfim uma série de objectos de colecção e de divulgação que ajudam a pagar a manutenção do “Espadon”.

O S-637 "Espadon" no local onde cumpre a sua missão desde 1987. [7]

O S-637 "Espadon" no local onde cumpre a sua missão desde 1987.

A torre do Espadarte não é a original, esta semelhante às da classe "Daphné" foi instalada em 1987. [8]

A torre do Espadarte não é a original, esta semelhante às da classe "Daphné" foi instalada em 1987.

Visita
A visita propriamente dita começa com a atribuição a cada pessoa de um sistema de som, muito simples e eficaz. Cada visitante tem uns auscultadores e um “teclado” com uma dezena de números. Dentro do navio cada local de visita tem um algarismo e carregando nesse número pode-se ouvir não só a descrição do que nos rodeia mas também alguns sons originais de situações passadas a bordo de submarinos.

A entrada para os visitantes. Aqui termina a autorização para tirar fotografias. [9]

A entrada para os visitantes. Aqui termina a autorização para tirar fotografias.

A visita começa com uma descrição histórica do local onde nos encontramos; a entrada no submarino faz-se na sua parte posterior, por uma escada “normal”, com corrimão e tudo, que ali foi instalada, tendo-se para isso cortado naturalmente parte da sua estrutura. Aliás algumas, poucas, partes interiores do submarino (parte dos beliches e alguns suportes de torpedos, por exemplo) foram retiradas para facilitar os movimentos dos visitantes; segue-se a visita à câmara dos mecânicos e dos electricistas e ao compartimento para saída dos nadadores de combate; Passa-se aos motores, diesel e eléctricos onde se explicam as suas características e, entre outras coisas, a necessidades de vir perto da superfície (cada 5 dias) para através de um “schnorchel” obter oxigénio necessário ao funcionamento a diesel e, segue-se, a mini-cozinha (que fornecia 130 refeições/dia); O centro de operações incluí todos os equipamentos necessários à navegação, às transmissões, à detecção e ao lançamento dos torpedos e é também aqui que se encontram os dois periscópios do submarino; o posto central – designado o centro vital do submarino – local onde uma equipa de 4 a 5 homens assegurava em sistema continuo todas as manobras do navio e é aqui que se explica – e vê – que um sistema de luzes informava os tripulante se era dia (branca, que estava acesa cerca de 14 horas) ou noite (encarnada); A câmara do comandante e as dos oficiais, com alguns objectos e uniformes, e os alojamentos da tripulação, e é aqui que se ouvem relatos da vida a bordo, quando 65 homens estavam, no máximo 45 dias a bordo, o único chuveiro, o sistema de “cama quente” (neste submarino dispunham de duas camas para três homens que se revezavam na sua utilização), e também aqui se fica a saber que neste submarino não se permanecia mais do que 5 dias a profundidades de 100/150m; o último compartimento que se vista é o mais espaçoso do submarino, o dos torpedos (6 tubos de lançamento) que em missão também servia para projectar filmes à tripulação.

A visita decorre sempre com um número controlado de pessoas a bordo para não causar "apertos" desnecessários. O espaço interior visitável é bastante razoável. [10]

A visita decorre sempre com um número controlado de pessoas a bordo para não causar "apertos" desnecessários. O espaço interior visitável é bastante razoável.

O submarino mesmo nesta situação de museu carece de manutenção diária. [11]

O submarino mesmo nesta situação de museu carece de manutenção diária.

E aqui se sai do “Espadon”, mais uma vez por uma escada normal que obrigou aliás a retirar os berços porta-torpedos de uma dos lados do submarino e tem-se acesso à loja já referida.

A loja do museu tem uma panóplia enorme de artigos relacionados com o "Espadon" e também com outros assuntos militares, nomeadamente os passados na região, com destque para a 2ª Guerra Mundial. [12]

A loja do museu tem uma panóplia enorme de artigos relacionados com o "Espadon" e também com outros assuntos militares, nomeadamente os passados na região, com destaque para a 2ª Guerra Mundial.

O terraço da base de submarinos, onde outrora a artilharia anti-aérea alemã estava instalada (e mais tarde a NATO manteve um centro radar), é hoje aproveitado para exposições. Nesta altura uma sobre a história de Saint-Nazaire. [13]

O terraço da base de submarinos, onde outrora a artilharia anti-aérea alemã estava instalada (e mais tarde a NATO manteve um centro radar), é hoje aproveitado para exposições. Nesta altura uma sobre a história de Saint-Nazaire.

O sector da base virado para a cidade, mantém alguma paredes originias (na foto) e outras foram retiradas para dar acesso a infra-estruturas de apoio ao turismo. [14]

O sector da base virado para a cidade, mantém alguma paredes originais (na foto) e outras foram retiradas para dar acesso a infra-estruturas de apoio ao turismo.

Aqui está assim um exemplo que não é decalcável a papel-químico para Portugal mas pode servir de inspiração à preservação dos nossos “Albacora”. Viana do Castelo que já nos proporciona a visita ao “Gil Eanes”  e deverá receber o “Delfim” e Cascais que tudo indica receberá o “Albacora”, certamente saberão em conjunto com a Marinha, encontrar uma solução portuguesa , integrada nos seus circuitos culturais e turísticos que nos permita e a muitos estrangeiros, visitar a este peculiar tipo de arma.

Quer saber mais sobre o “Espadon”: http://www.netmarine.net [15] ; http://www.saint-nazaire-tourisme.com [16]

Bibliografia consultada:

Braeuer, Luc, La base sous-marine de Saint-Nazaire. ISBN: 2-9513787-5-0

Buffetaut, Yves, Les ports de l’Atlantique, Marines Éditions. ISBN: 2-909675-99-8

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