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UMA MANHÃ NO “VIANA DO CASTELO” (I)

O NRP “Viana do Castelo” materializa como poucas outras unidades navais aquilo a que este ramo das Forças Armadas designa, “duplo uso”: cumpre missões de interesse público e militares. Com claro pendor para as primeiras, espera-se desta classe de navios, quando completa, que venha a ser um importante contributo para a defesa dos interesses portugueses nas áreas marítimas de jurisdição Nacional.

O primeiro Navio Patrulha Oceânico da Marinha, recebeu o nome da cidade onde será construída toda esta nova classe de patrulhas. [1]

O primeiro Navio Patrulha Oceânico recebeu o nome da cidade onde será construída toda esta nova classe de patrulhas da Marinha Portuguesa.

Na nossa história recente nem sempre o Mar tem recebido a atenção que qualquer pessoa de bom senso acha normal para um país com a inserção geográfica de Portugal. Felizmente nos tempos que correm todos, do Presidente da República ao Bloco de Esquerda, acham que o nosso espaço marítimo tem que ser devidamente protegido e explorado. Para um “uso civil” do uso do mar é necessária uma “componente militar” que o permita. Esta deverá ter além das capacidades proporcionadas por meios da Força Aérea, nomeadamente os aviões de patrulha marítima e os helicópteros de busca e salvamento, as características normais das marinhas de guerra, com meios de superfície (onde se incluem os helicópteros orgânicos das unidades navais) e sub-superfície. Mas a Marinha tem que ter capacidade de assistência a pessoas e embarcações em perigo; fiscalização da pesca; protecção e controlo das actividades económicas, científicas e culturais; protecção dos recursos naturais; prevenção e combate à poluição; prevenção e combate a actividades ilícitas como o tráfico de droga ou a imigração ilegal; apoio em caso de catástrofe nas zonas costeiras no Continente e Arquipélagos. Isto tudo mais não é do que parte substancial das missões que os navios da classe “Viana do Castelo” vão cumprir. Têm mais capacidades, já lá iremos, mas estas são algumas das principais e muitas vão ser cumpridas diariamente, ano após ano, durante muitos anos.

O "Viana do Castelo" em Maio de 2011 na doca 3 da Base Naval de Lisboa, no Alfeite, frente à fragata "D. Francisco de Almeida". [2]

O "Viana do Castelo" em Maio de 2011 na doca 3 da Base Naval de Lisboa, no Alfeite, frente à fragata "D. Francisco de Almeida".

Com "cinco pisos" (quase 13 m de altura), 83,1 de comprimento e 3,8 de largura, e 1.870 toneladas de deslocamento, estes navios atingem os 21 nós com os motores a diesel. [3]

Com "cinco pisos" (quase 13m de altura), 83,1m de comprimento e 3,8m de largura, e 1.870 toneladas de deslocamento, estes navios atingem os 21 nós com os motores a diesel.

No mastro (por cima e atrás da ponte) estão instalados os radaresde navegação, multisensor electro-óptico e antenas de comunicações. [4]

No mastro (por cima e atrás da ponte) estão instalados os radares de navegação, multisensor electro-óptico e antena de comunicações satélite.

A popa do "Viana do Castelo". É na "tolda" imediatamente por baixo do "convés de vôo"  que são instaladas as calhas que permitem o transporte e lançamento de minas. [5]

A popa do "Viana do Castelo". É na "tolda" imediatamente por baixo do "convés de voo" que são instaladas das calhas que permitem o transporte e lançamento de minas.

Visto de estibordo, com um dos semi-rigidos e o mastro de destaque. [6]

Visto de bombordo, com um dos semi-rígidos "Delta" e o mastro de destaque.

Acontece que estes meios navais, estas plataformas, não se compram como quem compra uma viatura num revendedor de automóveis! Além dos investimentos serem vultuosos, trata-se de projectos que não raramente se arrastam por muitos anos, mesmo décadas. Quando se escrever a história desta classe de navios que está a ser construída nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, certamente que todos os factos, indecisões e decisões que se verificaram serão recordados. Agora, apenas para vincar bem o tempo que estes projectos demoram e os resultados naturalmente gravosos para o “assunto Mar” – note-se o que vem escrito pelo Vice-Almirante Silva da Fonseca nos “Cadernos Navais”, n.º 10, Julho-Setembro de 2004:
O caso do Navio Patrulha Oceânico (NPO) é paradigmático (…)
Anos 70 – reconhecida, pelo menos informalmente, a necessidade de plataformas específicas, concebidas para a execução de modo económico das tarefas de serviço público;
Anos 80 – criado o GAPO “grupo do anteprojecto do patrulha oceânico”;
Outubro 1991- é aprovado o conceito de emprego e os objectivos operacionais do NPO;
Julho de 1997 – é criado o GTPAT, “grupo de trabalho do patrulha oceânico” que elaborou o “Requisito Formal de Necessidade”, os “Objectivos Operacionais” e os “Requisitos Operacionais”;
Novembro de 1998 – promulgado o POA 5 (Requisitos Operacionais do Navio Patrulha Oceânico); criado um grupo de trabalho com elementos do Estado-Maior da Armada, Direcção de Navios e Arsenal do Alfeite, para iniciar a elaboração do anteprojecto;
Dezembro de 1999 – elaborado na Direcção de Navios a “especificação técnica”;
Março de 2000 – apresentado pelo Chefe do Estado-maior da Armada ao Ministro da Defesa Nacional um programa de aquisição de 10+2 NPO’s;
Janeiro de 2001 – publicado o despacho conjunto 15/2001 (Primeiro-Ministro, Ministro da Defesa Nacional, Ministro das Finanças, Ministro da Economia, Ministro do Ambiente e do Ordenamento do Território)
Março de 2001 – apresentada uma consulta formal aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo;
Julho de 2001 – Os ENVC apresentam uma proposta para discussão;
Outubro 2001 – iniciam-se as negociações Marinha/ENVC;
Setembro de 2002 – concluem-se as negociações chegando a Marinha/MDN a acordo com os ENVC;
15OUT2002 – assinatura do contrato de construção de dois NPO’s pelo Primeiro-ministro em Viana do Castelo;
19DEZ2002 – obtido o visto do Tribunal de Contas. O contrato entrou em vigor no dia seguinte.
JUL2005 – data aprazada para entrega do primeiro NPO”
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Como é sabido o primeiro navio foi definitivamente entregue em 2011.

A antiquada peça de "Bofors" 40mm que equipa o navio será substutuída por uma moderna "Oto Melara" de 30mm com carregamento automático e controlo remoto. [7]

A antiquada peça de "Bofors" 40mm que equipa o navio será substituída por uma moderna "Oto Melara" de 30mm com carregamento automático e controlo remoto.

Nas "asa da ponte" é possivel comnadar o navio e operar o propolsor de proa. [8]

Nas "asa da ponte" é possível comandar o navio e operar o propulsor de proa.

O convés de vôo permite a operação de um Lynx (ou helicópetros semelhante). Note-se na chaminé (em frente) a "barra do horizonte" para os pilotos se orientarem na aterragem. O restante equipamento de apoio visual está coberto. [9]

O convés de voo permite a operação de um Lynx (ou helicóptero semelhante). Note-se na chaminé, em frente, por cima do canhão de água (vermelho) a "barra do horizonte" para os pilotos se orientarem na aterragem. O restante equipamento de apoio visual está coberto.

O convés de voo visto do canhão de água. À esquerda, junto à escada para a tolda, a consola de operações do "flight deck officer". Quando se vai operar o convés as redes de protecção ficam rebatidas. [10]

O convés de voo visto do canhão de água. À esquerda, junto à escada para a tolda, a consola de operações do "flight deck officer". Quando se vai operar o convés as redes de protecção são rebatidas.

Os NPO podem ser reabastecidos em alto-mar. Aqui o sino e respectivo mastro. [11]

Os NPO podem ser reabastecidos em alto-mar. Aqui o "sino" que acoplado a uma mangueira permite receber o combustível de um navio reabastecedor navegando lado-a-lado.

Ou seja, mesmo que tudo corresse normalmente, seria sempre mais de uma década, desde que a necessidade começa a ser percepcionada até à sua entrada ao serviço. Mesmo sem querer aprofundar a temática – queremos é mostrar o que vimos no Alfeite! – ou desresponsabilizar quem quer que seja, note-se contudo que exemplos de processos de atrasos e aumentos de preços na construção de novos meios militares, em Portugal, na Europa e Estados Unidos, são uma constante. Meios complexos – e ao contrário do que se possa pensar os “Viana do Castelo”, para as nossas capacidades, não é coisa simples – originam naturalmente processos demorados. Mais uma vez segundo Silva da Fonseca, em 2004: “um projecto de aquisição de meios com certa envergadura é um processo demorado e complexo, com numerosos prazos e etapas. A necessidade de técnicos especializados e experientes das várias disciplinas da engenharia, mas mais recentemente, também da área jurídica e financeira, é patente e manifesto (…) a gestão deste tipo de projectos implica algum «know-how», que se perde com grandes hiatos entre a sua execução.

Uma das principais "ferramentas" do NPO, a semi-rigida de 15 pessoas. Vários países colocam armamento nesta embarcação conferindo-lhe maiores capacidades de intervenção. [12]

Uma das principais "ferramentas" do NPO, a semi-rígida "Delta" de 15 pessoas. Vários países colocam armamento nesta embarcação conferindo-lhe maiores capacidades de intervenção.

O sistema designado por "turco", permite a colocação muito rápida da embarcação na água. [13]

O sistema designado por "turco", permite a colocação muito rápida da embarcação na água.

Colocada a estibordo do navio (imediatamente atrás das balsas salva-vidas) esta embarcação atinge os 31 nós e tem motores a gasóleo. [14]

Esta embarcação "Delta" atinge os 31 nós de velocidade e tem motores a gasóleo.

O facto de não ter hélice mas sim jacto de áua convere-lhe maior versatilidade de emprego. [15]

O facto de não ter hélice mas sim jacto de água confere-lhe maior versatilidade de emprego.

Um detalhe que em certas missões pode ter importância. O apoio para uma metralhadora ligeira (disponivel para já a veteranissima HK-21) e um escudo balistico. [16]

Um detalhe que em certas missões pode ter importância. O apoio para uma metralhadora ligeira (disponível para já a veterana HK-21) e um escudo balístico.

Se não houver um reequipamento regular ao longo dos anos, estaremos sempre condenados a começar do zero. O mesmo acontecendo com a indústria, está bem de ver. Neste como em outro tipo de equipamentos para qualquer ramo, decidir entre o fazer em Portugal ou comprar fora, “chave na mão”, será sempre uma opção política. Achamos que o correcto é investir em Portugal e criar riqueza no nosso país, sem dúvida. Mas isso pressupõe continuidade sem a qual é impossível quer da parte militar quer da industrial, alcançar o “bom e barato”, ou pelo menos, não tão dispendioso como no estrangeiro. Porque se o resultado for “mau e caro”, sinceramente, não vale a pena, as missões a que se destinam os meios ficarão comprometidas.

Agrua que coloca a semi-rigida de 9 pessoas na água também permite o embarque/desembarque de outros tipos de cargas. [17]

A grua que coloca a semi-rígida de 9 pessoas na água também permite o embarque/desembarque de outros tipos de cargas.

Como se percebeesta semi-rigida é mais demorada de colocar na água, mas tem a vantagem da polivalência da grua. [18]

Como se percebe esta "Delta" é mais demorada de colocar na água, mas o sistema tem a vantagem da polivalência da grua. Note-se à retaguarda da "Delta" uma das "redes de abordagem" do navio.

A tolda, sendo bem visivel o aparelho de força que opera no mono-carril e consegue efectuar transporte de cargas nos dois bordos. A carga pode entrar por cima (através da grua da semi-rigida), e ser colocada por este aparelho aqui ou no porão multi-usos (no nível inferior). [19]

A tolda, sendo bem visível o aparelho de força que opera no mono-carril e consegue efectuar transporte de cargas nos dois bordos. A carga pode entrar por cima (através da grua da semi-rígida), e ser colocada por este aparelho aqui ou no porão multi-usos (no nível inferior). Note-se ainda, a bombordo e a estibordo as duas fiadas de apoios para as calhas que suportam as minas.

Sendo o primerio da sua classe, o "Viana do Castelo" vai permitir "afinar" pessoas e equipamentos num novo tipo de navios, permitindo uma entrada ao serviço mais rápida para as próximas unidades. [20]

Sendo o primeiro da sua classe o "Viana do Castelo" vai permitir "afinar" pessoas e equipamentos neste novo tipo de navios, e uma entrada ao serviço mais rápida para as próximas unidades.

Em 2005 foram lançados selos comemorativos do reequipamento da Marinha. Mesmo com atrasos, em alguns casos significativoscomo no NPO, o processo está em marcha e a Marinha melhor equipada para cumprir a sua missão. [21]

Em 2005 foram lançados selos comemorativos do reequipamento da Marinha. Mesmo com atrasos, em alguns casos significativos como no NPO, e lacunas como o Navio Polivalente Logístico, o processo está em marcha e Portugal dispõe agora de melhores meios para defender os seus interesses.

Veja a 2.ª parte desta reportagem a bordo do “Viana do Castelo” aqui: UMA MANHÃ NO “VIANA DO CASTELO” (II) [22]