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UM “DAKOTA” MUITO ESPECIAL, O AC-47T NA COLÔMBIA

Hoje trazemos aos nossos leitores pela mão de um novo colaborador, Douglas Hernández, um artigo que julgamos muito interessante. Desde logo porque trata de uma aeronave das mais conhecidas de sempre, o C-47; depois porque a sua utilização como gunship foi amplamente divulgada no decurso da guerra do Vietname e está no imaginário de muitos; por último, continua operacional nos dias de hoje e tem sido empregue em combate, na Colômbia.

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O primeiro AC-47T (o “T” significando turbo, respeitando aos novos motores PT6A) chegou à Colômbia em 1993, para substituir os AC-47 que ali entraram ao serviço em 1987, e incluiu também novos aviônicos, substituição de todo o sistema eléctrico, aumento do comprimento da fuselagem, instalação de sistema anti-gelo e metralhadoras GAU-19A, de 12,7mm.

Este artigo foi originalmente publicado na Revista Segurança & Defesa [2], parceiro do Operacional no Brasil, e é da autoria de Douglas Hernández, a ambos muito agradecemos. Douglas Hernández (Medellín, Colombia), é sociólogo de formação e frequenta Mestrado na Universidade de Antioquia, onde se graduou. Fundador e director do website www.fuerzasmilitares.org [3] é também correspondente no Brasil da Segurança & Defesa e colaborador nos EUA do Air and Space Power Journal USAF [4]. O seu trabalho de divulgação das forças militares colombianas foi agraciado pela Asociación Internacional de Lanceros [5]com a Cruz de Honor.

AC-47T na Colômbia: uma história de “Fantasmas”

Algumas das imagens mais marcantes da Guerra do Vietname (1965/1975) são as que mostram posições americanas sob ataque nocturno de efectivos vietcong, sendo defendidas desde o ar por aeronaves AC-47, apelidadas de Puff, the Magic Dragon ou Spooky. Tratava-se de uma versão do cargueiro C-47 convertida para ataque ao solo, Close Air Support, armado com metralhadoras instaladas lateralmente, que concentravam seus fogos sobre  os inimigos em terra, enquanto voava em circulo sobre o alvo. O que poucos sabem é que, hoje em dia, esse conceito continua a ser  empregue na América do Sul, com grande sucesso, pela Fuerza Aérea Colombiana (FAC).

Vista lateral do AC-47T FAC-1654. Observe-se a torreta FLIR sob o nariz e a pintura de baixa visibilidade, para dificultar a visualização a partir da terra. Em relação ao C-47 padrão, as principais diferenças são o uso de armamento, os novos motores e as novas pontas das asas. [6]

Vista lateral do AC-47T FAC-1654. Observe-se a torreta FLIR sob o nariz e a pintura de baixa visibilidade, para dificultar a visualização a partir da terra. Em relação ao C-47 padrão, as principais diferenças são o uso de armamento, os novos motores e as novas pontas das asas.

Uma missão

Na escuridão da noite, pequenos grupos de terroristas das FARC (Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia) (1) convergem para o ponto de reunião combinado, nas cercanias de um povoado. O plano é atacar a pequena guarnição da Polícia, sediada junto à praça principal, com uma força muito superior em número aos defensores, que ficarão completamente assoberbados, incapazes de qualquer outra acção que não fosse sua própria defesa. Isso permitirá aos atacantes assaltar o banco local, procurar e eliminar alguns civis que haviam sido classificados como “objectivos militares” e “colaboradores do inimigo”, e assim reafirmar o seu domínio sobra a zona, intimidando a população para que pagasse impostos aos “revolucionários”.

O ataque se iniciará com o lançamento dos chamados “cilindros bomba”, através de um sistema que se assemelha a um morteiro mas que carece de precisão, o que faz com que os explosivos caiam indiscriminadamente nas proximidades do alvo. Como esse será a pequena instalação da Polícia, é inevitável que alguns dos cilindros caiam sobre residências, escolas ou lojas, resultando em vítimas civis. O panorama é sombrio, e o povoado parece estar condenado a receber um forte castigo… os policiais morrerão ou serão sequestrados, e muitos civis serão vítimas fatais.

O que os terroristas não sabem é que, através de informadores no terreno as autoridades já têm conhecimento do ataque, e que um AC-47T “Fantasma” está naquele momento sobrevoando o local a grande altitude, vigiando os insurrectos através de um dispositivo FLIR (2). Uma esquadrilha de caças Kfir(3), armados com bombas guiadas por laser, aproxima-se a grande velocidade. O AC-47T marcará os alvos, que serão atacados cirurgicamente, minimizando os danos colaterais. Quanto se tentarem reagrupar, os terroristas sobreviventes serão atacados pelo próprio “Fantasma”, com uma chuva de balas contra a qual não existe defesa. O tempo em que os membros da FARC tomavam povoados e neles faziam o que lhes aprouvesse na vontade, levando morte à população civil e à Fuerza Pública, são coisa do passado.

Essa narrativa representa uma típica missão da Fuerza Aérea Colombiana, com o emprego do AC-47-T e mostra porque a tomada de povoados é actualmente algo extremamente raro na Colômbia. Mesmo quando não se conhecem previamente os planos dos terroristas e as acção é lançada, torna-se muito difícil para os atacantes fugirem, pois seriam detectados pelas aeronaves de reconhecimento e de ataque.

3 AC 47T 002 [7]

4 AC 47T 005 [8]

"Bengalas iluminantes" LUV-2D/B: uma vez lançadas, descem com paraquedas e fornecem iluminação por cerca de cinco minutos [9]

“Bengalas iluminantes” LUU-2D/B (flare aircraft parachute): uma vez lançadas, descem com paraquedas e fornecem iluminação por cerca de cinco minutos.

Esta imagem inicialmente publicada na Segurança & Defesa, foi a primeira vez que uma imagem panorâmica do interior de um dos AC-47T colombianos foi divulgada. [10]

Inicialmente publicada na Segurança & Defesa, foi a primeira vez que uma imagem panorâmica do interior de um dos AC-47T colombianos foi divulgada.

Fantasma

O AC-47T “Fantasma” é uma das aeronaves mais temidas pelos grupos narco-terroristas que operam na Colômbia. O nome teve origem no código de chamada via rádio de um dos primeiros pilotos do modelo, o então Capitão Jorge Salazar. O grande sucesso que as operações de apoio às forças terrestres executadas pelo seu avião tiveram, levou a que todos os aviões do tipo passaram a ser conhecidos como “Fantasma” e usarem esse indicativo rádio.

Aeronave mítica!

O DC-3/C-47 tem suas origens na década de 1930, e é uma aeronave sobejamente conhecida na América do Sul. A sua importância pode ser aquilatada pelo facto do General Dwight D. Eisenhower o ter apontando, juntamente com o jipe e as lanchas de desembarque, como um dos três elementos essenciais à vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.Os Estados Unidos operaram os seus C-47 não só na Segunda Guerra Mundial, como também em outros conflitos, como Coreia e Vietname. Nesse último foram usados não só para transporte — sua função tradicional — mas também para ataque ao solo. Essa adaptação foi resultado das necessidades específicas daquele teatro de operações, que pediam  imaginação e flexibilidade. Assim surgiu o conceito do C-47 armado, equipado com metralhadoras multicano Minigun, de 7,62mm, atirando lateralmente — a aeronave recebeu a designação de AC-47, com o “A”, logicamente, significando “Attack”.

Em 15 de dezembro de 1964 foi realizada a primeira missão de um AC-47 Spooky no Vietname, tendo descolado da Base Aérea de Bien Hoa. A ideia era que, realizando um círculo contínuo, para a esquerda, com a asa daquele lado em baixo, os tiros do armamento lateral seriam concentrados em uma mesma área do solo, saturando-a com projécteis, não importando a partir de qual ponto do círculo o armamento estivesse sendo utilizado.

Posteriormente, os AC-47 foram retirados de serviço activo na USAF, sendo o seu lugar tomado pelo AC-119 e pelo AC-130, com maior capacidade, armamento mais pesado, e sensores mais sofisticados. O AC-130 está em uso hoje, actuando em áreas como Iraque e Afeganistão.

A Força Aérea da Colômbia adquiriu os primeiros exemplares do DC-3/C-47 a partir de 1944, e com o passar do tempo chegou a receber mais de 60 dessas aeronaves, que foram empregues nas unidades de transporte militar e também na linha aérea estatal SATENA [11], que ainda existe e é operada pela FAC.

Colômbia e EUA na guerra anti-subversiva

Para se compreender melhor a história, é mister levar em conta que não são de hoje os laços entre a Colômbia e os EUA  no que respeita à cooperação militar. A Colômbia participou da Guerra da Coreia, actuando sob mandato da ONU, e o Batallón Colombia N°1 integrava o 21st Infantry Regiment da 24th Division / U. S. Army. Isso gerou relações de amizade e cooperação que, consolidadas, chegam até nossos dias. O Ejército Colombiano modernizou o seu armamento e doutrina para a guerra convencional com base no que foi absorvido pelos oficiais e suboficiais que actuaram na Coreia.

Depois um novo tipo de guerra surgiu no sudeste asiático, e suas lições serviriam para os dois blocos que se contrapunham na Guerra Fria. Assim, com base Tratado Interamericano de Ajuda Recíproca (TIAR), e como quase todos os países sul-americanos, a Colômbia também recebeu assessoria e treino dos EUA no campo da guerra não convencional. O conflito na Colômbia tinha diversas características semelhantes ao que ocorreu no Vietname, e por isso muitas lições puderam ser aplicadas no país.

Note-se a tomada de ar no lugar de uma das janelas (existe dos dois lados), para evitar a acumulação de gases gerados pelo disparo das armas. Quando o armamento é utilizado, a porta traseira é aberta. Sob o nariz do avião a torre FLIR, a qual inclui os sensores que transmitem informação à consola respectiva no interior da aeronave. [12]

Note-se a tomada de ar no lugar de uma das janelas (existe dos dois lados), para evitar a acumulação de gases gerados pelo disparo das armas. Quando o armamento é utilizado, a porta traseira é aberta. Sob o nariz do avião a torre FLIR, a qual inclui os sensores que transmitem informação à consola respectiva no interior da aeronave.

A consola designada "estação de inteligência", vendo-se a tela para apresentação do FLIR e vários tipos de equipamento de rádio para comunicação ar-ar, ar-terra e varrimento do espectro de frequências. As imagens do FLIR podem ser transmitidas em tempo real aos centros de Comando e Controle da Força Aérea Colombiana. [13]

A consola designada “estação de inteligência”, vendo-se o “monitor” para apresentação do FLIR e vários tipos de equipamento de rádio para comunicação ar-ar, ar-terra e varrimento do espectro de frequências. As imagens do FLIR podem ser transmitidas em tempo real aos centros de Comando e Controle da Força Aérea Colombiana.

Em primeiro plano o canhão DEFA 30mm (retirado dos Mirage) mas que se saiba nunca foi empregue em operações reais e a metralhadora GAU 19A, 12,7x99mm, a arma por excelência do AC-47T [14]

Em primeiro plano o canhão DEFA 30mm (retirado dos Mirage, mas que se saiba nunca foi empregue em operações reais) e a metralhadora GAU 19A, 12,7x99mm, a arma por excelência do AC-47T

Estação de armas Nº1, com uma GAU-19A instalada. Para evitar que fiquem soltos no interior do avião, os cartuchos usados são recolhidos na caixa metálica que aparece na parte inferior. [15]

Estação de armas Nº1, com uma GAU-19A instalada. Para evitar que fiquem soltos no interior do avião, os cartuchos usados são recolhidos na caixa metálica que aparece na parte inferior.

Detalhe do visor de tiro do piloto, para que possa colimar o alvo enquanto realiza uma contínua curva à esquerda. A precisão é verificada pelo uso de munição tracejante [16]

Detalhe do visor de tiro do piloto, para que possa colimar o alvo enquanto realiza uma contínua curva à esquerda. A precisão é verificada pelo uso de munição tracejante.

O AC-47 e AC 47T na Colômbia

Em 1987, já lá vão e décadas, a FAC iniciou os trabalhos de conversão dos primeiros C-47 em AC-47, com assessoria de técnicos da U. S. Air Force. As duas primeiras aeronaves convertidas foram o FAC-1686 e o FAC-1681, sendo a primeira tripulação operacional composta pelos: Coronel (r) Gerber Sánchez, Coronel (r) Wilson Castañeda, e Técnicos Jefes Heriberto Montealegre, Orlando Vanegas e Onésimo Lozano.

Os primeiros AC-47 da FAC eram armados com três metralhadoras de 12,7mm, um visor de tiro especial para o piloto, sistema de navegação Omega, sistema FLIR, lançador de flares para defesa antimíssil, “bengalas” para iluminação noturna, duas pistolas de “bengalas” convencionais, e sistema de comunicação interna para toda a tripulação. A equipagem era composta de piloto, copiloto, operador de FLIR, técnico, chefe dos armeiros e três armeiros, e todos os tripulantes eram equipados com pára-quedas e coletes à prova de bala.

As aeronaves modificadas receberam reforços estruturais para resistir às vibrações e à ressonância causada pelas metralhadoras. Em 1987, os AC-47 da FAC ainda utilizavam os motores a pistão R-1830 de 1.200hp, o que trazia desvantagens logísticas e alguns problemas para voar sobre a cordilheira andina. Ocorreram algumas emergências por falhas no motor, e em 1988 houve um acidente fatal com o FAC-1650, que no cumprimento de uma missão deveria passar entre os povoados de Villavicencio e Girardot à altitude de 16.000 pés. Ao enfrentar difíceis condições meteorológicas, houve formação de gelo nas asas, mudando o perfil aerodinâmico das mesmas e aumentando o peso, o que levou à perda de sustentação e consequente queda da aeronave.

Esses problemas motivaram a repotencialização dos aviões com motores turboélices PT6A, para o que foi contratada a empresa americana Basler Turbo Conversions (sediada em Oshkosh, no Wisconsin, EUA). A nova configuração, comercialmente conhecida como BT-67, não somente incluiu os PT6A como também incorporou aviônica moderna, substituição de todo o sistema eléctrico e aumento do comprimento da fuselagem, entre outros aspectos que em conjunto aumentaram a segurança e a capacidade dos aviões. Foi também instalado um sistema anti-gelo e metralhadoras multicano GAU-19A, de 12,7mm.

O primeiro AC-47T (o “T” significando “Turbo”) chegou à Colômbia em 1993, e no decurso de uma década foram enviados à sede da Basler nos EUA, um total de oito AC-47 para transformação na versão “turbo”.

Em 1997 as tripulações dos AC-47T adquiriram a capacidade para operar com dispositivos de visão nocturna. Isso foi possível graças ao apoio recebido do Comando Aéreo de Combate N°3 (sediado em Malambo, no Norte da Colômbia) e do Comando Aéreo de Combate N°4 (sediado em Melgar, perto de Bogotá a capital do país), unidades pioneiras nesse tipo de capacidade na Colômbia.

Embora os AC-47T colombianos tenham duas estações de armamento, normalmente são artilhados apena com uma GAU-19A. Após os Mirage 5 da FAC terem sido retirados de serviço, foram feitos testes para o uso do seu canhão DEFA de 30mm a partir do AC-47T. Esta instalação está  operacional, mas ao que se saiba o canhão nunca foi usado em operações reais.

Entre as vantagens dos AC-47T estão seu grande volume de fogo, tempo de permanência sobre o alvo, grande alcance e precisão das armas, o que minimiza os danos colaterais. O facto dos projécteis virem “de cima” reduz a utilidade de trincheiras e outros tipos de abrigos do inimigo.

A sua eficácia na luta contra a subversão torna necessária a sua manutenção em condições operacionais. No entanto os AC-47T estão desgastados e talvez fosse uma boa ideia converter alguns dos CN235 da FAC para este tipo de missão, o que permitiria manter por muitos anos esse tipo de capacidade.

Notas:

(1) Em 23 de Junho de 2016, o governo e as FARC assinaram em Havana (Cuba) um Acordo designado “Cese al fuego y de hostilidades bilateral y Definitivo y Dejación de Armas [17]”. Tem portanto menos de um mês, e o que nele se prevê é que no prazo de 180 dias seja assinado o Acordo Final. A expectativa é grande! 

(2) Forward Looking Infra-Red.

(3) Caça de origem israelita baseado no Mirage 5 francês.

(4) Designação dada na Colômbia ao conjunto dos três ramos das Forças Armadas e a Polícia Nacional