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RETRATOS DE UMA MISSÃO NA BÓSNIA

Esta série de artigos que hoje iniciamos é um olhar muito particular sobre a primeira missão portuguesa na Bósnia e Herzegovina em 1996. O autor, José Manuel Araújo, que serviu 25 anos nas tropas pára-quedistas portuguesas, Sargento Pára-quedista desde 1984, integrou a força inicial e dá-nos uma visão a dois tempos descritiva mas também cómica, daquilo que viu, daquilo porque passou.

Logo criado para o 2BIAT em 1996, no momento da 1.ª missão na Bósnia e Herzegovina. Neste caso estava inserido em cartões telefónicos (autor: José Prazeres / SIPRP/Exército Português) [1]

Logo criado para o 2BIAT em 1996, no momento da 1.ª missão na Bósnia e Herzegovina. Neste caso estava inserido em cartões telefónicos (autor: David Prazeres / SIPRP/Exército Português)

José Manuel Araújo faz sobre a missão do 2.º Batalhão de Infantaria Aerotransportado na Bósnia e Herzegovina, aquilo que de quando em quando um militar consegue fazer sobre a sua vivência em campanha: um relato verídico, por vezes mordaz, mas também cómico e de leitura agradável. É um modo de “contar a história” de uma missão que poucos conseguem escrever, sintetizar, mas que acaba por dar uma boa imagem daquilo que realmente se passou.
Aqueles que serviram no antigo Ultramar Português bem assim como os que têm participado nestas novas campanhas das Força Armadas Portuguesas um pouco por todo o mundo, em terra, no mar ou no ar, sabem bem que o tempo em missão não é feito só de “guerra”, só de “operações”. Agora são meses, como antes foram anos, em que soldados, sargentos e oficiais, 24 horas sobre 24 horas, trabalham mas também convivem, zangam-se, divertem-se, criam laços que perduram uma vida.
Uma das boas maneiras de transmitir o que é esta vida em campanha está aqui, nos textos de José Manuel Araújo, Sargento-Ajudante Pára-quedistas na situação de Reforma Extraordinária, agora dirigente numa associação cultural e secretário numa outra mutualista. 

RETRATOS DE UMA MISSÃO NA BÓSNIA
1 – INTRODUÇÃO
No dia 29 de Janeiro de 1996, embarquei para a missão IFOR/NATO, na Bósnia e Herzegovina. Passaram 20 anos.
Foi a primeira vez que Portugal projectou uma força militar desta dimensão, para um teatro de operações europeu, após a I Guerra Mundial, tinham passado 80 anos. Antes tivera o esforço de uma guerra colonial, com a colocação de forças em teatros de operações africanos (e em Timor), mas tinham passado 20 anos, sobre o fim desse conflito e do consequente regresso ao território continental de todos os militares.
A missão foi atribuída ao Exército e foi empenhado o 2º Batalhão de Infantaria Aerotransportado, antigo Batalhão de Paraquedistas 21 do Corpo de Tropas Pára-quedistas (CTP) da Força Aérea Portuguesa.
Será sempre fonte de discussão a quem seria atribuída a missão se o CTP não tivesse transitado da Força Aérea para o Exército em 1994. O certo é que, a então Brigada Aerotransportada Independente, era, à data, a única unidade já constituída e enquadrada, capaz de colocar no terreno uma unidade de escalão batalhão, mais os órgãos de apoio e fazer a rendição dos mesmos, após 6 meses, num total de 1800 militares.
E por ser a única unidade com essa capacidade é que foi sempre a primeira a deslocar forças, para todas as missões que depois ocorreram, nomeadamente no Kosovo e em Timor Leste.
Consequentemente, dos dezasseis militares portugueses que faleceram em serviço, em missões de apoio à paz, fora do território português, nove eram paraquedistas.
A preparação para a missão foi realizada na sequência de outras que a antecederam, destinadas a outras putativas missões que acabaram por nunca se confirmar e, consequentemente, com o espírito de que, era apenas mais uma preparação porque, até dois meses antes do início da missão, quase ninguém acreditava que fosse efectivamente concretizada.
Isso levou a que a que acabasse por ter que se utilizar, muitas vezes, a portuguesíssima técnica do “desenrascanso”.
A missão foi cumprida com eficácia e competência, como é apanágio dos militares portugueses. Apesar da inexperiência, convirá referir que apenas um punhado de sargentos tinham participado na guerra colonial, a força portuguesa demonstrou grande capacidade de adaptação às condições e ambiente local, sendo a única força militar da “nossa divisão”, (a chamada divisão “francesa” onde sob comando destes operavam além dos franceses e portugueses, italianos, espanhóis, marroquinos e egípcios) que estava estacionada em território controlado pela facção sérvia.

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A Divisão Multinacional Sudoeste, de comando Francês, incluía italianos, espanhóis, portugueses, egípcios e marroquinos. O sector atribuído ao Batalhão Português, tinha comando em Rogatica e, inicialmente, quartéis em Kukavice e Ustipraca na República Srpska da Bósnia de maioria sérvia. Sarajevo/Vogoska e Gorazde, em terreno de maioria muçulmana, também tinham quartéis portugueses.

Para o êxito da missão contribuiu o espírito português, herdado do tempo das descobertas, que nos torna andarilhos das sete partidas e nos permite relacionar-nos com todo o mundo, sem arrogância ou preconceito…
Mas para o êxito da missão foi decisivo o espírito de corpo e uma classe de sargentos forjada na casa mãe dos paraquedistas. Foram os sargentos, com relevo para os oriundos dos cursos ministrados em Tancos, nos tempos da Força Aérea, que foram a argamassa que congregou e uniu a força destacada no terreno e, através do exemplo, cumpriu e fez cumprir as ordens emanadas.
Durante a missão aconteceram muitos episódios que marcaram, definitivamente os que por lá passaram.
A vivência diária, nos quartéis instalados, duma população quase exclusivamente masculina, ocasionou muitas situações picarescas e satíricas que, passados 20 anos, me parece ser interessante relatar.
É o que pretendo fazer ao longo dos próximos episódios…

O exercício no decorrer do qual se passa o seguinte episódio teve grande atenção mediática e foi alvo de visitas da alta hierarquia politica e militar de Portugal. Longe disto, José Araújo, conta-nos...a Ceia do Comandante! [3]

O exercício no decorrer do qual se passa episódio seguinte teve grande atenção mediática e foi alvo de visitas da alta hierarquia politica e militar de Portugal. Longe disto, José Araújo, conta-nos…a Ceia do Comandante!

2 – A CEIA DO COMANDANTE
Este episódio aconteceu durante a preparação. Naquela fase em que ainda quase ninguém acreditava que a missão se efectivasse. Só entendi relata-la porque é demonstrativa do modo de estar da classe de sargentos nos paraquedistas…!
Estávamos em Setembro de 1995. No âmbito do planeamento da preparação para a missão decorria um exercício, na região de Vila Nova de Foz Coa. O exercício, que tinha cinco dias de duração, só previa refeição quente no almoço do 5º dia , que era a última, porque depois o exercício era encerrado e acontecia o regresso ao quartel, todas as outras refeições eram a ração de combate…!
Durante todo o exercício os trens de campanha, da Companhia de Comando e Serviços (CCS), ficavam estacionados no mesmo local. Ora, para confeccionar essa refeição quente, era necessário montar as cozinhas….
A Secção de Alimentação da CCS, nunca fazia exercícios…! E nunca fazia porque nunca simulava que confeccionava e servia refeições… confeccionava-as e servia-as de facto…! Ora tendo as cozinhas montadas era quase “indecoroso” comer ração de combate…
Previdentes, os sargentos da CCS levaram para o exercício, a “expensas” próprias, géneros para garantir que não tocariam na ração de combate. Houve até uma refeição que foi garantida por um cabrito comprado a um pastor que passou com o rebanho no local.
Importará referir que o Comandante da Companhia, que estava com o Estado-Maior, a comer ração de combate, teve conhecimento prévio das refeições quentes…!
O Comandante de Batalhão teve conhecimento de que o pessoal da CCS não estava a comer a famigerada ração de combate e terá tecido comentários depreciativos e manifestado desagrado. (obviamente que essa informação acabou por chegar ao pessoal do estacionamento)
O exercício terminava na 6ª feira e, na noite do dia anterior, o Comandante, acompanhado pelo Sargento-Chefe do Batalhão, apresentou-se na CCS e foi falar com o Tenente que comandava o estacionamento. Na altura estava a começar a ser preparada a refeição quente para o dia seguinte, jardineira de vaca. O Comandante de Batalhão virou-se para o Tenente e disse que queria umas febras e uma garrafa de vinho para jantar. A conversa foi ouvida pelo sargento de reabastecimento, que foi contar o que tinha ouvido ao sargento da secção de alimentação.
O Tenente chamou o sargento da alimentação e disse-lhe o pedido do Comandante. Resposta do sargento:
– Ai ele anda chateado por nós comermos refeições quentes e agora também quer?!
As febras fomos nós que compramos, não há nada para o Comandante…! O Tenente ficou titubeante e o sargento continuou:
– Estamos a começar a preparar a carne para amanhã, se ele quiser arranja-se um bocado… mas vai demorar…!
O Tenente lá foi ter com o Comandante a dizer-lhe que o único jantar que se poderia arranjar era da carne do dia seguinte e o Comandante, há quatro dias a comer ração de combate, lá teve que dizer que sim…! Quando ficou pronto foi posta uma mesa para o Comandante e para o Sargento Chefe. Estavam estes a preparar-se para comer quando se ouviu… um “tiro”…! Ora, mal aconteceu o disparo, o pessoal do estacionamento deu execução aos procedimentos subsequentes a um ataque do inimigo e, desligou o gerador e os fogões… E o Comandante lá teve que comer às escuras…!
Acabou por não haver contacto com o inimigo e, após um prolongado lapso de tempo, o estacionamento lá voltou ao normal… Mas ficou sempre uma dúvida sobre quem fez o disparo? E a conclusão é que não foi o verdadeiro inimigo!
O disparo foi feito por um inimigo especial…Um inimigo da ceia do Comandante…!
José Manuel Araújo

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