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RETRATOS DE UMA MISSÃO NA BÓSNIA (IV)

Quarto e talvez último artigo desta série – o autor ainda não decidiu, esperemos que continue! – RETRATOS DE UMA MISSÃO é um olhar muito particular sobre a primeira missão portuguesa na Bósnia e Herzegovina em 1996. José Manuel Araújo, que serviu 25 anos nas tropas pára-quedistas portuguesas, Sargento Pára-quedista desde 1984, integrou a missão e dá-nos uma visão a dois tempos descritiva mas também cómica, daquilo que viu, daquilo porque passou. Hoje anda pelos caminhos do Senhor e do álcool!

O "Ateu Mor" a ser "convertido" pelo Capelão! [1]

O “Ateu Mor” a ser “convertido” pelo Capelão!

7 – O ATEU-MOR

Indiscutivelmente, a grande maioria dos militares, participantes na missão IFOR seguia a religião católica, ainda que predominassem os auto designados “católicos não praticantes”, classe religiosa demasiadamente ambígua. Isto porque pretendem usufruir dos benefícios, sem pagarem os custos inerentes….!

Para garantir o apoio, à maioria católica, a missão integrava um capelão militar, que detinha um posto de oficial superior e fazia parte do Estado-Maior Técnico, competindo-lhe o apoio religioso mas também e em comunhão com os médicos, o apoio psicológico.

O capelão estava aquartelado em Rogatica, conjuntamente com o Comando e Estado-Maior do Batalhão mas, porque era o único padre na missão, ia percorrendo os diversos aquartelamentos.

Ora o Capelão em funções, fazendo jus à classe abacial a que pertencia, gostava de degustar uma boa refeição.

Sendo oficial superior tinha assento na mesa do Comandante, durante as refeições, mas esquivava-se sempre que podia e era visita assídua nas refeições do pessoal da cozinha, onde era raro faltar a um jantar…!

Os capelães sabem sempre tudo, não só dos pecadilhos que se cometem, felizmente protegidos pelo “sigilo profissional”, mas também sabem que, na “tropa”, o melhor local para se comer é na cozinha…!

Só que…

Nas refeições na cozinha, para alem do pessoal da Secção de Alimentação, chefiada por um Primeiro-Sargento, tinha assento “cativo” o Sargento de Reabastecimento, afinal era ele que fornecia os géneros para a confecção das refeições…

Ora o Sargento de Reabastecimento era um incréu empedernido, no que era secundado pelo Sargento que chefiava a Equipa da Alimentação.

Por isso, quando o Capelão estava presente, as conversas, nos jantares da cozinha, acabavam, invariavelmente, por desembocar na religião…!

E o padre, preso aos dogmas que a sua igreja impõe, ficava, muitas das vezes, com problemas de argumentação para responder a dois descrentes, bem informados e conhecedores das histórias, muitas delas “negras”, da religião católica. E ficava ainda com problemas de consciência pois, com esses constantes diálogos com o “diabo” do Sargento, lá ia colocando escolhos no seu caminho para o paraíso…

Talvez por isso, quando chegaram à Bósnia exemplares do “Novo Testamento”, para distribuir pelos católicos, o Capelão fez questão, possivelmente para aliviar a consciência, de oferecer um exemplar ao Sargento, com dedicatória…! (exemplar que o Sargento ainda hoje guarda, “religiosamente”…!)

Cumprindo o ritual católico o Capelão realizava a missa dominical, liturgia onde, obviamente o Sargento de Reabastecimento, nunca foi visto nem achado…!

Nunca….. até um dia…

No decorrer da celebração de uma missa, o Capelão, durante a homilia lembrou-se de introduzir o Sargento na sua prelecção, dizendo:

– Ainda ontem estive a discutir com o Sargento de Reabastecimento, o Ateu-Mor do Batalhão…!

E assim aconteceram duas coisas, que seriam imprevisíveis e mesmo impensáveis…

O Sargento de Reabastecimento participou numa missa e, simultaneamente, foi promovido a Mor….!

Mas nem mesmo essa “participação”, “pela mão” do padre, no ritual católico, nem a oferta, que o capelão lhe fez, do “Novo Testamento”, conseguiram realizar o milagre da sua conversão, o que torna, no mínimo, discutível a eficácia da taumaturgia..!

Este episódio deu origem a um retrato, que aqui fica, para memória futura…!

8 – O WHISKY ITALIANO

O Sargento da Secção de Reabastecimento do 2º BIAT(eu!), era conhecido pela apetência para a praxe, fama que lhe advinha já da BOTP 2, depois AMSJ, onde era sempre o principal suspeito de tudo o que ocorria que cheirasse a praxe, mesmo que estivesse ausente da unidade….!

E verdade seja dita que, em pelo menos 90% dos casos, era verdade.

E o sargento já tivera oportunidade de por em prática, na missão, as suas “habilidades praxistas” … Ora o sargento usava, no cinturão, uma navalha multiusos espanhola.

Um dia, no bar do quartel de Rogatica, num período de lazer, tirou o cinturão e dependurou-o nas costas da cadeira, enquanto jogava as cartas.

Quando se levantou e ia colocar o cinturão, constatou que o mesmo se ausentara para parte incerta…! Numa busca rápida ficou claro que o mesmo não se ausentara de livre vontade, fora “sequestrado”…

Restou-lhe aguardar o que diria o sequestrador….

No dia seguinte estava afixado no bar um pedido de resgate. E o resgate solicitado era uma garrafa de whisky de uma determinada marca que, não por acaso, era das caras…!

E o sargento ficou com um dilema: não podia deixar a sua amada navalha multiusos refém dos vis “raptores”, mas não queria ver, quando fosse a troca, a cara de satisfação dos “sequestradores”, enquanto saboreavam o whisky…

E não tinha muito tempo para resolver a situação, porquanto a troca deveria acontecer no dia seguinte. Começou por adquirir, no bar, a garrafa de whisky, o que motivou um ar de riso no barista…

Depois surripiou uma seringa e duas agulhas na enfermaria…

A brigada italiana incluía, na alimentação que fornecia ao batalhão português, umas garrafas, individuais, de 6cl, duma bebida tipo conhaque, de marca cordiale, de cor um porco mais clara que o whisky e uma outra com uma cor mais escura. Como era o sargento responsável pelo reabastecimento, que incluía o deposito de géneros, levou consigo uma dúzia de garrafas.

Muniu-se ainda duma garrafa de 70 cl, vazia, um isqueiro, um tubo de cola e de muita, mas muita paciência…. e fechou-se no seu quarto………!

Começou por misturar, na garrafa vazia o conteúdo das garrafas de cordiale até resultarem numa mistela de cor idêntica à do whisky que havia comprado. Essa era a parte mais fácil…

O difícil era retirar o whisky da garrafa e substitui-lo pela mistura que fizera.

E era difícil porque a garrafa tinha um selo, uma rolha exterior, que não podia ser removida e uma rolha inviolável, no interior….!

Começou por retirar, com muito cuidado o selo, humedecendo-o. Depois do selo retirado, aqueceu uma agulha e perfurou a rolha exterior, num ponto que ficaria coberto pelo selo. Voltou a aquecer a agulha e, com cuidado, perfurou a rolha interior, inviolável(!). Depois veio a fase da paciência, que consistiu em retirar todo o whisky com a seringa e fazer o inverso com a mistura que fizera.

Depois de terminada a substituição, com calor disfarçou o furo, colou o selo no sitio e analisou bem o trabalho realizado, concluindo que estava perfeito.

No dia seguinte, à hora marcada para a entrega do resgate, compareceu no local aprazado, o bar do aquartelamento, levando na mão a garrafa do putativo wiskhy…

O bar estava cheio de pessoal, que sorriu quando o viu entrar, saboreando uma previsível vingança, os “sequestradores” estavam junto ao balcão e ele dirigiu-se-lhes e fez a entrega da garrafa. Desconfiados fizeram primeiro a vistoria, para se certificarem da autenticidade da garrafa e, perante o selo e a rolha exterior, intacta, ficaram satisfeitos e fizeram a entrega do “refém”.

Era visível o ar prazenteiro dos “sequestradores”, que abriram a garrafa e começaram a servir-se e aos restantes presentes…

O sorriso manteve-se até levarem os copos à boca, momento em que, em vernáculo, manifestaram o seu espanto pelo engano……!

O sargento foi ao seu quarto e trouxe a garrafa do whisky, entrou no bar e serviu-se do whisky e a alguns dos presentes, enquanto dizia:

-Aos meus amigos eu sirvo whisky escocês, não essa zurrapa de whisky italiano…!!!

José Manuel Araújo

Leia aqui os três artigos anteriores desta série:
RETRATOS DE UMA MISSÃO NA BÓSNIA (I) 1 – INTRODUÇÃO; 2 – A CEIA DO COMANDANTE [2]

RETRATOS DE UMA MISSÃO NA BÓSNIA (II) 3 – OS SEMÁFOROS DE SARAJEVO; 4 – ALBERTO O CONCERTISTA [3]

RETRATOS DE UMA MISSÃO NA BÓSNIA (III): 5 – A MONDA DOS DENTES; 6 – O QUEIJO DA SERRA [4]