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RETRATOS DE UMA MISSÃO NA BÓSNIA (II)

Continuamos esta série de artigos, um olhar muito particular sobre a primeira missão portuguesa na Bósnia e Herzegovina em 1996. O autor, José Manuel Araújo, que serviu 25 anos nas tropas pára-quedistas portuguesas, Sargento Pára-quedista desde 1984, integrou a missão e dá-nos uma visão a dois tempos descritiva mas também cómica, daquilo que viu, daquilo porque passou. Hoje passamos pela “Avenida dos Snipers” em Sarajevo e pernoitamos no “Hotel Park” em Rogatica!

Sniper Alley

3 – OS SEMÁFOROS DE SARAJEVO

A viagem de Lisboa até à Bósnia teve várias escalas. O embarque foi no aeroporto militar de Figo Maduro, num avião da TAP que nos transportou até Split, na Croácia. Depois seguiu-se uma deslocação de viatura, em coluna militar, até Ploce, ainda na Croácia, deslocação que seria muito interessante se fosse uma viagem turística, porque decorreu quase sempre junto ao mar Adriático, com uma paisagem de grande beleza.

Depois de Ploce entramos na Bósnia, pela zona do estreito acesso, de cerca de 8 Km, que esta tem ao mar Adriático e dirigimo-nos em direcção a Sarajevo, passando por Mostar, sendo que o destino final era Rogatica.

A entrada na Bósnia tornou-se perceptível pelas marcas da guerra gravadas nos edifícios. Mas o mais absurdo era passar por uma povoação e ver casas completamente destruídas ao lado de casas intactas. E percebia-se que a casa destruída fora pertença de alguém da etnia que não era dominante na área e tinha sido destruída, não pelas armas, mas ostensivamente queimada e vandalizada pelos vizinhos…

Marcante foi a entrada em Sarajevo.

Sarajevo era a única cidade Bósnia com dimensão comparável às cidades europeias de alguma dimensão. Mas os prédios estavam todos esventrados.
E percebia-se o que fora o conflito, quando se via os jardins das casas transformados em pequenas hortas e em cemitérios…Sarajevo apresentava-se, indiscutivelmente, como a capital.

E foi mesmo o único local onde me recordo de ver semáforos. Enquanto percorríamos Sarajevo, numa larga alameda, com quatro faixas de rodagem em cada sentido, aconteceu que o sinal luminoso, pois foi aí que vi semáforos, ficou vermelho. A viatura da frente da coluna militar respeitou o semáforo e parou, parando consequentemente toda a coluna. Depois do tempo que lhe estava definido, mudou para verde e a coluna retomou a marcha, ultrapassou Sarajevo e dirigiu-se para o seu destino.
Mais tarde descobrimos que aquele semáforo, onde paráramos, se situava na famigerada alameda dos snipers…!

Os snipers, em Sarajevo, foram um terrível instrumento de terror. Pelas suas armas foram abatidos, indiscriminadamente, muitos civis, que tinham que sair de suas casas para se reabastecerem de bens essenciais, numa estratégia de espalhar o medo e a insegurança. Quando atravessamos Sarajevo ainda havia snipers activos…! E, por isso, nenhuma viatura militar respeitava os semáforos de Sarajevo…Nenhuma…Até passar a coluna portuguesa……….!!!

E a verdade é que nada aconteceu… Talvez porque os snipers estivessem distraídos…! Ou talvez tivessem feito uma pausa para um café…! Ou então ficaram tão espantados, quando viram a coluna parada nos semáforos, que tiveram um ataque de riso e nem conseguiram reagir…!
Mas eu, cá para mim, prefiro acredito que os snipers, quando viram a coluna parada, ficaram tão sensibilizados, com o respeito português pelos semáforos, que se puseram em sentido e fizeram continência…!

4 – ALBERTO O CONCERTISTA

Araújo Bosnia HPark [1]

A força portuguesa na Bósnia tinha vários quartéis, no corredor de Gorazde, que foram” alugados” e não ocupados…(!), porquanto foram pagos às autoridades locais.
O Comando do batalhão estava em Rogatica, no antigo Hotel Park, destruído e vandalizado pela guerra. No antigo hotel, a funcionar como quartel, foram criadas as condições mínimas de segurança e de habitabilidade… habitabilidade para militares entenda-se.
– No rés-do-chão situava-se o refeitório, as cozinhas e o bar. Existia ainda uma área administrativa e quartos para pessoal.

– Na cave ficavam os armazéns de material e os sanitários.

– Numa tenda montada, junto à entrada principal, funcionava a enfermaria.

– Numa área existente nas traseiras, foram montadas tendas para alojamento de pessoal e situava-se o parque de viaturas dos trens de campanha.

– Pelo primeiro andar estavam distribuídos quartos para alojamento do pessoal.

– No segundo andar funcionava o Estado Maior e o centro de comunicações, existia ainda uma área do pessoal italiano e mais quartos.

Pelos quartos foi distribuído o pessoal sendo que, não havendo alojamento diferenciados para as diversas classes, havia quartos em que estavam instalados sargentos com oficiais e praças com sargentos. Quando os quartos foram ocupados quis a “sorte” (!) que num dos quartos ficassem dois oficiais do Estado Maior conjuntamente com o Alberto…….!

Alberto era um sargento, sobejamente conhecido e reconhecido, pelos seus pares, pelos elevados dotes dos seus adenoides, sendo famosos pelos seus “concertos nocturnos”…!Talvez por isso, não tenha sido a sorte que determinou que ficasse no quarto com os dois oficiais. Seriam estes melómanos e os restantes sargentos, amavelmente, fizeram questão de lhes facultar a oportunidade de vivenciarem, in loco, os dotes “artísticos” do Alberto….!

Na primeira noite no Hotel Park, Alberto esmerou-se e deu um concerto de tal forma grandioso e “estrondoso” que, estupefactos com os “dotes artísticos” do Alberto, os dois oficiais, não querendo perturbar o concerto, pegaram nos respectivos sacos cama e foram dormir para a sala do Estado Maior…! Dos concertos do Alberto fica para a história o retrato …!

José Manuel Araújo

Leia aqui o primeiro artigo desta série: RETRATOS DE UMA MISSÃO NA BÓSNIA [2]