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PIONEIROS DO PÁRA-QUEDISMO CIVIL PORTUGUÊS

José Guilherme Mansilha volta a partilhar as suas memórias com os leitores do “Operacional” e mais uma vez aborda a temática dos primórdios do pára-quedismo em Portugal. A queda-livre desportiva de pára-quedistas civis, no nosso país, nasceu em 1957, com a intrepidez de uma jovem delicada, frágil e muito bonita, Isabel Rilvas. “Isabelinha”, como os militares lhe chamavam. Em 1954, com 19 anos, tirou o brevet de pilotagem de aviões ligeiros, seguido do brevet de voo à vela. Em 1956 obteve, em Biscarrosse, França, o brevet de saltos automáticos. O seu entusiasmo levou-a a voltar no ano seguinte. Foi a 1.ª mulher da Península Ibérica a saltar em pára-quedas.

Angola, 1967: salto sobre Luanda (da esquerda), Ferreira da Costa, José Mansilha e Albano Carvalho         [1]

Em Portugal, o pára-quedismo nasceu em 1965 na então Província Ultramarina de Angola. Os saltos desportivos civis sobre mantiveram-se até ao final da guerra, dinamizados pelo Aeroclube de Luanda e Batalhão de Caçadores Pára-quedistas n.º 21.

Fez o curso de queda-livre e de instrutora de pára-quedismo, completando 25 saltos. Não existindo ainda em Portugal legislação apropriada, obteve uma licença provisória para saltar no país. Foi-lhe também concedida autorização para o fazer com os pára-quedistas militares. O seu primeiro salto em Tancos teve lugar em 18 de Janeiro de 1959. Seguiram-se mais 25 saltos, quase todos em queda-livre. Em 3 de Maio de 1959, convidada pelo Aeroclube de Luanda, saltou em queda-livre em Angola, perante luandenses maravilhados. Repetiu a proeza em 17 de Maio em Lourenço Marques, fascinando uma multidão de moçambicanos. Assistiam pela primeira vez a um salto em pára-quedas. Mais ainda, realizado em queda-livre por uma mulher.

Isabel Rilvas [2]

Isabel Rilvas (1955), formada em França.

Helena Réves

Helena Revés (1966) em Luanda.

Trouxe documentação de França e tornou-se uma grande impulsionadora da criação das enfermeiras pára-quedistas. Tenho o privilégio de conhecer pessoalmente a Sra. D. Isabel Rilvas, e ter por ela uma grande estima, consideração, ternura e amizade. Esta é recíproca. Encontramo-nos todos os anos duas vezes, em Tancos em 23 de Maio e no jantar de fim do ano da “Velha Guarda Pára-quedista”. Com o lindo sorriso de menina, que conserva, mantém a beleza da juventude. Chama-me “o meu herói”.
Como se descreve abaixo, Helena Revés foi a segunda portuguesa a saltar em queda-livre em Portugal, 1.ª com o curso tirado no nosso país.

Muitos pára-quedistas civis, contemporâneos, desconhecem os episódios de pioneirismo do pára-quedismo desportivo em Portugal. Maravilham-nos com a sua perícia, fascinantes bailados aéreos de sonho que tão habilmente executam, encantando quem lhes assiste: quer durante a queda-livre, enquanto a distância ao solo diminui vertiginosamente, quer após a abertura do pára-quedas. Planam como pássaros, com os quais já hoje partilham o vôo. Falcões humanos que brincam com falcões reais que os seguem. Um pára-quedista não sente que cai, sonha que voa.
Sendo um dos fundadores dos “Falcões Negros” e praticante dos anos 60, deixo o meu testemunho para que a História não esqueça factos, com mais de meio século, que foram determinantes para a criação das condições que permitiram que o sonho seja hoje uma realidade para destemidas mulheres e homens que saltam e voam juntos.

Angola, onde começou a Grande Aventura

Angola teve o privilégio de a partir 1963, durante a guerra do Ultramar, reunir em Luanda no Batalhão de Caçadores Para-quedistas 21 (BCP 21), instrutores entusiastas pela queda-livre, com um nível do mais avançado que havia em Portugal. Esse grupo integrava instrutores do Regimento de Caçadores Pára-quedistas (RCP), de grande qualidade, experiência e muitos cursos no curriculum, e instrutores pioneiros que, nunca tendo dado um curso de para-quedismo eram, no entanto, dos mais experientes na prática da queda-livre desportiva. A sua simbiose proporcionou ao Aeroclube de Luanda equipas que, essas sim, eram do mais evoluído que nós tínhamos.
Em 1963 chegaram a Luanda dois oficiais milicianos, os alferes para-quedistas (engenheiro de minas) Lobo de Oliveira e Ângelo Lopes. Tinham o curso de instrutores de pára-quedismo da Escola de Biscarrosse (França). Dando asas ao seu entusiasmo disponibilizaram-se para que o pára-quedismo desportivo civil português se tornasse uma realidade. Ofereceram-se para dar um curso. Foram ao encontro da aspiração de civis e de militares da Marinha, Exército e Força Aérea que estavam ou viviam em Luanda. A ideia foi bem aceite pelos tenentes-coronéis da Força Aérea Portuguesa: Carloto de Castro, que além de ser o Secretário de Estado das Obras Públicas e Comunicações na Província, era o Diretor da Aeronáutica Civil e pelo Diretor do Aeroclube de Luanda, Ten Coronel Medina. Iniciaram-se as diligências para que o curso se concretizasse e para que o Aéro Clube obtivesse um avião adequado. O processo levou quase dois anos.
Por motivo de doença, o alferes Ângelo Lopes regressou à metrópole. A autorização chegou em 1965, quase no fim da comissão do alferes Lobo de Oliveira. Vendo-se só, recorreu à ajuda do alferes instrutor militar do quadro complemento Albano Marques de Carvalho. Foi feliz escolha. Jovem, muito experiente e de grande qualidade, com elevado espírito de doação e de sacrifício, tornou-se um dos primeiros instrutores de civis nesta modalidade desportiva, que não mais abandonou. O curso começou em Julho de 1965 e terminou festivamente em 3 de Outubro. O alferes Lobo de Oliveira acabara a comissão de serviço regressando à metrópole, pelo que já não concluiu a instrução de terra. Esta foi terminada pelo alferes Albano de Carvalho que deu também a fase dos saltos. O Livro de Curso, conservado e disponibilizado por ele, não só identifica os primeiros instrutores mas, principalmente, os primeiros civis formados em Portugal. Refere também militares do Batalhão que, tendo saltado com o curso, obtiveram em 3 de Outubro de 1965 a Licença de 1.º Grau: Martinho José de Castro, José de Sousa Tavares Rebimbas, José Maria Duarte Fernandes, Francisco Álvaro, Adelino Alves V. Almeida, Armando da Conceição Santos, Custódio da Costa Coutada, José Luís Soares Rosa e Herculano Baltazar N. Cruz.

Capa do "Livro de Curso" [3]

Capa do "Livro de Curso"

Palavras dos alunos e do Diretor do Curso no dia do primeiro salto. [4]

Palavras dos alunos e do Director do Curso no dia do primeiro salto.

O "Boina Verde", boletim do BCP 21, incluiu no seu n.º 4 uma reportagem sobre este 1.º Curso. [5]

O "Boina Verde", boletim do BCP 21, incluiu no seu n.º 4 uma reportagem sobre este 1.º Curso.

Relação do alunos e instrutores do 1.º Curso [6]

Relação do alunos e instrutores do 1.º Curso

De entre os instrutores que em 1965 foram colocados em Luanda, destacam-se: comandante e segundo comandante do BCP 21, tenente-coronel Fausto Marques e major Marques da Costa. O comandante, com os cursos de pára-quedismo e de instrutores e monitores pára-quedistas feitos em Pau, França, foi o primeiro pára do BCP de Tancos a fazer um salto de queda-livre em Portugal, tornou-se o nosso melhor praticante da época. Quando atingia os 30 saltos foi nomeado para o Curso de Estado-Maior. O 2.º comandante pertencia ao grupo que tomara parte nos dois estágios de aperfeiçoamento de queda-livre, realizados em Portugal por instrutores Franceses.

Tenente-coronel Fausto Marques salta sobre Tancos (à esquerda). Luanda (da Esquerda) Instrutores alferes Bessa, tenente Albano de Carvalho, major Marques da Costa e capitães Moutinho e Mansilha [7]

Tenente-coronel Fausto Marques salta sobre Tancos (à esquerda). Luanda, instrutores (da esquerda), alferes Bessa, tenente Albano de Carvalho, major Marques da Costa e capitães Moutinho e Mansilha

Não tendo participado activamente na instrução foram uma equipa de comando abertamente apoiante.
Em 1964 foi colocado no BCP 21 – 1.ª Companhia de Caçadores Pára-quedistas (1CCP), o capitão para-quedista Araújo e Sá e pouco depois o 1.º sargento para-quedista, monitor, Campaniço. Em 1965 juntaram-se-lhes o capitão José Mansilha, que foi comandar a 1.ª CCP, o alferes Albano de Carvalho e o sargento Gaspar. O entusiasmo do 1.º curso foi contagiante, pelo que começou a preparação de um segundo. O capitão Araújo e Sá, agora Oficial de Informações e Operações do Batalhão, aderiu ao Aeroclube, passando a dirigir a Secção de Pára-quedismo. Foi seguido pelos capitão Mansilha, 1.º sargento Campaniço e o sargento Gaspar, equipa que esteve à frente do 2.º curso. O capitão Mansilha embarcou para uma operação no Norte da Província e só tomou parte na fase final do curso.

2.º curso: 19 Ago 66. Com combinação de salto azul claro, de pé no centro, o director do curso Araújo e Sá. À sua esquerda, Gonçalves, Vater Carmelo e monitor Campaniço. Na sua frente Rosalina Castro e de joelho no chão monitor Gaspar. [8]

2.º curso: 19 Ago 66. Com combinação de salto azul claro, de pé no centro, o director do curso Araújo e Sá. À sua esquerda, Gonçalves, Valter Carmelo e monitor Campaniço. Na sua frente Rosalina Castro e de joelho no chão monitor Gaspar.

Com a colaboração da Sra. D. Helena Revés Pedrosa, e uma pequena ajuda de Valter Carmelo, que integraram este curso, foi possível relembrar mais alunos: Céu Penha Rodrigues, Rosalina Castro, Ivone, Olinda, (que foi vítima mortal num salto de queda-livre realizado anos depois), major engenheiro militar Basto, capitão engenheiro militar Miranda, tenente engenheiro militar Vasco Rocha Vieira, engenheiro mecânico de aeronáutica Valter Carmelo, Gonçalves, soldado para-quedista Duarte, Rosa Duarte, jornalista do Jornal Notícias, Ferreira, mecânico de aviões, alferes para-quedista António Assoreira, (que morreu em combate quando, durante umas férias que passou em Angola, sua terra natal, se ofereceu para guia numa operação), sargento Jofre, piloto de helicópteros da Força Aérea, Castelo Branco, Almendra (irmão do major-general Heitor Almendra), Óscar Lemos, Lima (sempre de equipamento branco), Galvão, Alpoim e Xavier. Identifico também os alferes Cardoso, comando, e Dias Henriques, pára-quedista.

Foto da esquerda: Capitães Araújo e Mansilha, equipando; Foto da direita: começando pela esquerda, primeiro, cabo Castro, 5.º capitão engenheiro Miranda, 6.º Ferreira, 10.º Óscar de Lemos, 12.º Xavier. [9]

Foto da esquerda: Capitães Araújo e Mansilha, equipando; Foto da direita: começando pela esquerda, primeiro, cabo Castro, 5.º capitão engenheiro Miranda, 6.º Ferreira, 10.º Óscar de Lemos, 12.º Xavier.

Quando o capitão Araújo e Sá regressou a Tancos foi rendido pelo capitão Lemos Costa que substituiu o capitão Mansilha na 1.ª CCP. Saltava no Aeroclube mas não aderiu à instrução. O capitão Mansilha passou a dirigir o Pára-Clube, organizando-se o 3.º curso. Foram instrutores o alferes Carvalho e monitores os sargentos Campaniço e Gaspar.

Licença civil de 2.º Grau [10]

Licença civil de 2.º Grau.

Capa de uma caderneta de pára-quedista civil. [11]

Capa de uma caderneta de pára-quedista civil.

Frequentaram o curso, Carminda Alves da Silva; Maria Adelaide Pinto Teixeira; Maria da Conceição Moreira de Almeida; Maria Luísa Silvestre Carvalho; Maria Manuela Sampaio Nunes Morgado; Neida das Dores Fernandes; Olinda Maria Brecha de Carvalho; Amândio Augusto Pais Correia; António Correia Ferreira; António Boavida Pinheiro; Carlos Dias, Eduardo Dias Pereira de Lima; Diocleciano Pereira; Fernando José de Alpoim; Fernando Manuel Costa Neves de Valera; Francisco J. Casadinho Carvalho; Frederico F. Ribas Santos Oliveira; Hélder Diniz de Almeida Neves; Hugo Brazão Câmara Rosas; João António Figueiredo; João Manuel Vieira de Moura; Jorge Manuel de Almeida Martins Camelo; José Carlos de Barros Moreira de Oliveira Pegado, meu cunhado; José António Teixeira de Freitas; José Tomé Dias; Leopoldo José Águas Gonçalves; Luís Domingos Costa Azevedo Vaquinhas; Manuel Pereira da Silva; Paulo de Medeiros Enes Ferreira; Reinaldo Arsénio Águas Gonçalves; Rui José Bernardo Pereira Lucas e Sigismundo Gonçalves da Conceição Revés.

Capa do Boletim do 3.º curso e foto dos finalistas do curso: no centro a Helena Revés, do segundo curso, à direita do pai. [12]

Capa do Boletim do 3.º curso e foto dos finalistas do curso: no centro a Helena Revés, do segundo curso, à direita do pai.

Neida recebe o diploma, ao centro, com a mão na gravata, tenente-coronel Medina e na sua frente o director do curso. Foto da direita, grupo de páras dos 3 cursos. [13]

Neida recebe o diploma, ao centro, com a mão na gravata, tenente-coronel Medina e na sua frente o director do curso. Foto da direita reúne alunos dos três cursos. O 10.º de pé a contar da esquerda é o Manuel Ferreira da Costa, do 1.º curso. Tinha grande habilidade para a queda-livre. Dedicou a sua vida ao desporto aéreo até ser vítima de um grave acidente, com um ultra-leve que pilotava. Vive em Tomar retido em casa. Ao centro, de pé, 9.º a contar da esquerda, o tenente-coronel Sigismundo Revés, 45 anos de idade, pai da Lena. Foi arrastado por ela para esta aventura.

A caminho da centena de páras civis tornou-se apetecível um curso de queda-livre. Estavam criadas as condições para avançar para a Grande Aventura, sonho da maioria. Sonho também dos instrutores que contribuíram para que ela se concretizasse. O curso foi iniciado em Outubro de 1966. O 1.º salto realizou-se 27-11-66.

1.º curso civil de queda-livre. [14]

1.º curso civil de queda-livre. Da esquerda, em pé: tenente Albano de Carvalho, (instrutor), comandante Reis, (piloto), Helena Revés, capitão pára Mansilha (director do curso), capitão engenheiro Miranda, Ferreira, Óscar Lemos, alferes pára Dias Henriques, sargento piloto da Força Aérea Jofre e Gonçalves. De joelhos 1.º sargento Campaniço (monitor),engenheiro mecânico de aeronáutica Valter Carmelo, tenente engenheiro Rocha Vieira, Furriel Ferreira da Costa e 1.º cabo pára Castro

O nome do alferes Albano Marques de Carvalho preza por ser mencionado em todos os cursos iniciais de Angola e posteriormente já capitão, em 1969, em Moçambique. Não mais largou a instrução da modalidade. Foi monitor no meu curso de queda-livre, onde ganhei por ele uma grande consideração e amizade que se tornou mútua. No decorrer do terceiro curso automático, em Angola, aprendi mais com ele do que ensinei. Era a minha primeira experiência prática de instrutor.

Esboço e emblema do curso. [15]

Esboço e emblema do curso.

Na fase dos saltos, no que me sentia mais à-vontade, adoptei um método muito próprio para incutir aos alunos confiança, entusiasmo e “o bichinho” da queda-livre. Quando um instruendo já estava à vontade no ar, punha-o a saltar em último do avião. Saía imediatamente atrás dele, aproximava-me até ficar a cerca de um metro de distância. Era um espectáculo olhar aquelas caras de alegria. Creio que esse salto passava a fazer história para eles. Sempre a controlar a altitude pelo altímetro e o tempo pelo cronómetro, quando se aproximava o momento de abertura dizia-lhes adeus com os dois braços. Simulava o gesto de abrir, rodava 180º afastando-me um pouco e abria o pára-quedas. Acabara de lhes pôr o carimbo daquilo em que a queda-livre é mais emocionante. O trabalho relativo.
Utilizavam-se para o treino de salto pára-quedas com calotes de abertura automática do “669”, adaptadas a arneses de queda-livre do “6571”. Por segurança, apenas se faziam retardos de 5”. Para maiores tempos usavam-se os Sky Diver, americanos. Abatidos por idade no BCP 21, as calotes foram considerados em estado de utilização. Com eles apanhei dois incómodos sustos:
Primeiro susto: a Lena Revés só podia fazer retardos de 5”. O punho de abertura do Sky Diver era muito preso e ela não tinha força para o puxar. Estava condenada a esse tempo de retardo de abertura. Pára-quedista muito promissora, a única menina do curso, custava-me assistir a essa “condenação”. No dia 10-01-1967 disse-lhe: hoje vai fazer um retardo de 10”. Olhou-me surpreendida, olhar a que respondi: vai saltar com o meu pára-quedas. Emprestei-lhe todo o equipamento, inclusivé o altímetro, aplicado no pára-quedas de reserva. Por segurança pedi ao piloto para subir mais alto do que o necessário. Ela saltou, manteve a sua posição impecável e, caiu, caiu, caiu até que a perdi de vista. Finalmente, pensando já no pior, vi o pequeno cogumelo branco e rosa do “6571” a formar-se, lá muito em baixo, quase colado ao solo. Os páras que iam no avião disseram-me: “mestre, o senhor ficou branco como a cal”. Não havia razão para menos! A justificação até foi bem lógica e aceitável, embora tivesse ultrapassado os previstos 10”: “eu sentia-me tão bem que me regulei pelo altímetro. Só abri aos 500 metros de altitude!…”. Fez um retardo de 28”. Foi “perdoada…” e o seu salto muito apreciado. Se houve alguma temeridade, a responsabilidade total coube ao director do lançamento, que não previu esta hipótese.

Cerimónia de Encerramento do curso [16]

Cerimónia de Encerramento do curso

Fez o primeiro salto automático em 07-08-1966, data em que já tinham sido formadas dezenas de enfermeiras páras. Não sendo a primeira mulher portuguesa a saltar de pára-quedas foi a primeira, formada em Portugal, a fazer o curso de queda-livre e um salto de abertura manual. Sem dúvida que, uma digna sucessora de Isabel Rilvas.

Duas "saídas" de Helena Revés Pedrosa. [17]

Duas "saídas" de Helena Revés Pedrosa.

Até 23-06-68 fez 83 saltos de queda-livre em Angola. Em 22-8-68 regressou à metrópole e fez um salto de 60” no Arrepiado. Saindo de um Allouette III, pilotado pelo tenente Bettencourt, fez um “relativo” com o capitão Lemos Costa. Escreve: “Recordo este salto com especial emoção, pelo retomar da actividade desportiva que tinha deixado em Luanda, pelo local tão simbólico e, porque não, pela concretização muito efectiva do mesmo (claro que devido às manobras do Capitão Lemos Costa…). Um pouco de modéstia para quem já tinha 83 saltos de muita qualidade. Quando, em 1965, o Lemos Costa e eu fizemos parte da equipa que representou Portugal no II CISM “Conselho Internacional do Desporto Militar” no Brasil, tínhamos 50 saltos cada um.
Até 1 de Maio de 1969 saltou mais 8 vezes no Arrepiado e Bemposta. Viria ainda a fazer 14 saltos nos Aeroclubes de Luanda e Carmona, no âmbito de um festival Internacional de 15 a 22 de Agosto de 1970.
O segundo susto veio mais tarde. Terminado o curso, os Sky Diver foram distribuídos pelos novos páras. Cada um era responsável pelo seu. Aprendiam durante o curso a dobrá-lo e não era necessário voltarem à manutenção após cada salto. Tendo o Jofre faltado a uma sessão de lançamento, alguém me perguntou se podia saltar com o seu pára-quedas. Este tinha de ser dobrado pelo próprio, o que aconteceu. Fiquei ao pé dele a verificar a operação de dobragem. Notando alguma hesitação perguntei-lhe o que se passava. Mostrou-me um pequeno buraco na seda da calote. Meti-lhe um dedo e forcei. A seda rasgou-se como papel. Cancelei de imediato os saltos e os pára-quedas recolheram à manutenção para reverificação. Falando posteriormente com o sargento Jofre respondeu-me: “eu sabia que o pára-quedas tinha buracos mas, também sabia que, se lhe dissesse, me retirava o equipamento…”. Recordando os chamados “gloriosos malucos da aviação”, pioneiros que praticaram proezas que exigiam muito arrojo, estes novos pioneiros não queriam ficar-lhes atrás. Eram os “gloriosos malucos do pára-quedismo civil”.
No final do curso de queda livre os novos detentores de brevet de 2.º grau ofereceram-me uma Placa em prata, gravada, e um completíssimo relógio cronómetro de pulso.

Placa  em prata, oferta dos novos páras ao capitão Mansilha [18]

Placa em prata, oferta dos novos páras ao capitão Mansilha

A revista Notícia, de Angola, acompanhou-nos num vôo para fazer uma reportagem. Foi publicada em 21 de Janeiro de 1967. Optamos por uma novidade. Uma saída a três, Carvalho, Mansilha e Ferreira da Costa, saltando da asa do avião, já agarrados. Acabou por ser uma fotografia de sucesso.

Capa da "Noticia" / Angola: Ferreira da Costa, José Mansilha e Albano Carvalho         [19]

Honras de capa na "Noticia" para o pára-quedismo civil: Ferreira da Costa, José Mansilha e Albano Carvalho.

Grupo de páras civis. De pé, Jofre, Vasco Vieira, Carvalho, Carmelo, Basto, Mansilha, Vladimiro, Jaime (Director do Aeroporto de  Luanda) e Campaniço. Em baixo Rosalina, Lena, Adelina (Nocas) e Ferreira da Costa. [20]

Grupo de páras civis. De pé (da esquerda), Jofre, Vasco Vieira, Carvalho, Carmelo, Basto, Mansilha, Vladimiro, Jaime (Director do Aeroporto de Luanda) e Campaniço. Em baixo Rosalina, Lena, Adelina (Nocas) e Ferreira da Costa.

Terminado o curso, os instrutores eram frequentemente acordados de madrugada pelos novos colegas. Recordo as vozes do Ferreira da Costa e do Gonçalves gritando da rua: “mestre, temos piloto para o avião. Pode vir?” Morava num quarto andar. Vestia-me a correr e seguia para o aeroporto. Depois de os largar saltava também, acrescentando mais um salto ao meu curriculum. Fiz em Angola 71 saltos de Abertura Manual. O Dragon Rapid, avião disponibilizado pelo Aeroclube, era um biplano com fuselagem em tela, pelo que era muito leve. Equipado com 2 motores, subia rapidamente. Junto à porta, muito grande e do lado esquerdo, a asa estava reforçada com metal que dava para apoiar um pé ao entrar sem “furar” a tela. Suficientemente larga, suportava o peso de 3 páras. O problema da disponibilidade dos pilotos cabia aos civis que tinham a responsabilidade de encontrar um que conhecesse o avião e estivesse disposto a madrugar. O grito da rua (ou seja, a hora a que me acordavam, para rumar à zona de saltos) soava pelas 5 da manhã. Às oito horas os militares tinham a formatura no quartel.

Almoço em Luanda. [21]

Almoço em Luanda.

Tive o grande prazer de assistir, recentemente, ao desenvolvimento da modalidade em Angola e Moçambique, através de filmes da época, convertidos em DVD por Valter Carmelo. “Saltando Aqui e Ali 1968-1972”. Identificam lugares onde os civis fizeram demonstrações de saltos, automáticos e manuais e a sua participação em campeonatos nacionais e internacionais. No desembarque de um Dakota da FAP, no Uíge, revi com grande prazer, os jovens Helena Revés, Vasco Rocha Vieira, Valter Carmelo e Ferreira da Costa.

Órgão de Informação do Aéroclube de Angola. [22]

Órgão de Informação do Aéroclube de Angola.

Moçambique
A modalidade em Moçambique desenvolveu-se rapidamente graças à dinâmica de dois homens que criaram duas Secções de Pára-quedismo. O engenheiro Jorge Jardim, impulsionou desde 1967 a secção de pára-quedismo do Aeroclube da Beira, onde decorreu o primeiro curso em Moçambique. O engenheiro Valter Carmelo, que trouxera o bichinho de Angola e estava colocado na Direcção de Exploração dos Transportes Aéreos (DETA), praticava a queda-livre em Lourenço Marques saltando de um avião Beaver e de DC4 da DETA. Foi fundador, em 1968, da Secção Pára-quedismo do Aeroclube de Moçambique, com sede em Lourenço Marques.
O curso na Beira começou em Dezembro de 1967, reunindo cerca de 24 alunos. Os instrutores foram o capitão Arlindo Mendes, os tenentes Castro Gonçalves e Comboias e o sargento Rosário Lourenço. Entre alunos contavam-se o engenheiro Jorge Jardim e filho Carlos Frederico Jardim, Leonor Jardim, Ana Maria Freitas, capitão Rodrigo Lobo de Ávila, oficial com o Curso de Estado-Maior, comandante da Polícia da Beira, tenente Nunes Pereira, Santos Nunes, Cristo, Sousa Teles, Carriço e outros. Por falta de meios aéreos o primeiro salto só se realizou-se em Março de 1968. Informação apoiada no livro do coronel Bragança Moutinho (“História e Técnicas do Pára-quedismo”). Helena Revés e Valter Carmelo, que estavam em Angola, têm, nos seus registos de saltos e voos, uma deslocação à Beira em 20 de Janeiro e um salto em ambiente festivo efectuado em 21, para o qual foram convidados. Crêem que saltaram com o 1.º curso em Moçambique. Existe pois uma diferença de datas que não tenho possibilidade de esclarecer.
Em 1969 o engenheiro Valter Antunes Carmelo iniciou o 1.º curso em Lourenço Marques. Deu a instrução de terra e dobragem de pára-quedas. Embora portador da Licença de 2.º Grau entendeu não dar sozinho a fase de saltos do avião. A legislação para o efeito estava em elaboração em Lisboa. Pediu ajuda à Beira para cedência de um instrutor qualificado que verificasse o grau de instrução dos alunos e dirigisse os lançamentos. Foi indicado o capitão Albano Marques de Carvalho!… Mais uma vez deparamos com aquele que não hesito em denominar de trave mestra do pára-quedismo civil em Portugal. Na fotografia podem ser identificados os alunos do 1.º curso de Lourenço Marques que terminou em 23-03-69.

Primeiro curso em Lourenço Marques / Moçambique [23]

Primeiro curso em Lourenço Marques / Moçambique

No 1.º salto do 1.º curso estiveram presentes o instrutor militar da Beira na altura, major António João Ruivinho, que deu o terceiro curso e o engenheiro Jorge Jardim, que já tinha o brevet de salto automático. Albano de Carvalho recorda que o piloto do avião terá sido o tenente-coronel piloto aviador da FAP José Velhinho, comandante da esquadra de Nord Atlas da BA11 na Beira. Além de piloto, que largou em pára-quedas centenas de páras civis e militares, transportava para o Norte, zonas afectadas pela guerra, as companhias de pára-quedistas. Não estou certo que fosse ele o piloto mas aproveito recordar que também ele, foi mordido pelo “bichinho”. É dos primeiros páras civis da Beira.

Tenente-coronel piloto aviador José Velhinho [24]

Tenente-coronel piloto aviador José Velhinho

Seguiu-se um 2.º curso , em Ago/Out de 1969.

2.º Curso em Lourenço Marques [25]

2.º Curso em Lourenço Marques

Estive na Beira em 68/70 mas não fui instrutor, embora tenha sido convidado. Com um intervalo de apenas um ano entre a 2.ª comissão em Angola e a 3.ª na Beira, não recuperara totalmente das madrugadas de Luanda e do desgaste que sofrera. Havia lá óptimos instrutores, ansiosos por ensinar os seus saberes. Saltava com eles, como civil desportista. Ainda assim tiveram a amabilidade de me oferecer um corta papéis com uma gravação e um carimbo de lacre, com as armas da Beira, ambos em prata. Conversando agora com o tenente-coronel Albano de Carvalho fiquei a saber que foi ele a vítima das madrugadas. Às seis da manhã iam acordar o tenente-coronel PILAV Conceição e Silva, comandante da BA10, que estava sempre pronto para pilotar o avião. Foi chefe do Estado-Maior da Força Aérea.

Guiné
Na Guiné o 1.º curso começou em Maio de 1968. Os instrutores foram os tenentes Avelar de Sousa e José Gomes. Quase todos os alunos eram pára-quedistas do Batalhão de Caçadores Pára-quedistas N.º 12 (BCP 12). Assim, introduziram uma novidade. Dividiram o curso em duas partes. Uma, curso de pára-quedista para iniciados e outra, curso de queda-livre para os já pára-quedistas, que incluiu soldados. Só tenho referências de alguns: os sargentos pára-quedistas, Amoroso, Castanheira, Rosa, Fortunato e António Pereira. Fizeram-se retardos de 20 segundos.
Quando regressou de Angola o capitão Rocha Vieira trouxe os seus saberes e entusiasmo. Foi o principal instigador do pára-quedismo civil na metrópole. Criou a Secção de Pára-quedismo da Associação de Estudante do Instituto Superior Técnico (IST), de onde saíram os alunos do 1.º curso feito em Portugal Metropolitano. Todos futuros engenheiros. Fundou o Pára-Clube Universitário, onde desempenhou funções de instrutor, dando cursos de pára-quedismo e queda-livre, e colaborou na elaboração do regulamento provisório desta actividade. Hoje general, terminou a sua brilhante carreira militar como último Governador de Macau. De destacar também o então tenente Avelar e Sousa. Regressado da Guiné não mais abandonou a modalidade civil. É hoje major-general pára-quedista reformado.

Portugal (Metrópole)
Na metrópole os cursos iniciaram-se pouco depois. O primeiro, em Agosto de 1968, foi dado em Tancos, em período férias, por instrutores militares. Os candidatos eram alunos do IST. Este curso teve, em relação aos feitos em África, a vantagem da utilização dos aparelhos destinados aos cursos dos militares. Foram brevetados 16 pára-quedistas. Apenas posso mencionar alguns. Seria interessante se, ao ler este artigo, a memória de outros se avivasse e ajudasse a completar a lista. O único elemento de apoio que tive foi o livro do coronel Bragança Moutinho. Sem ele este artigo perderia muita informação. Entre os primeiros brevetados menciona: Varela Pinto, Arriaga Cunha, Rodrigues Costa, Batista Coelho, Nuno Horta e Faria Leal, todos futuros engenheiros.
Curiosa a obra de engenheiros nos primeiros páras civis. Alferes miliciano Lobo de Oliveira, engenheiro de minas, lança a primeira pedra; seguem-no o major engenheiro Basto, o tenente engenheiro Vasco Rocha Viera; o alferes miliciano engenheiro mecânico de aeronáutica Valter Antunes Carmelo e o engenheiro civil Jorge Jardim. Tirando o major Basto, a que a vida militar deu outro rumo, foram os pilares de sustentação do grande arranha-céus em que o desporto “saltar” se transformou. À viga mestra, como já afirmei, chamo alferes, tenente, capitão, major, tenente-coronel Albano Marques de Carvalho.
Em Dezembro começou um novo curso. Neste os alunos receberam a instrução de terra em Lisboa efectuando os saltos em Tancos, aos fins-de-semana. A associação dos estudantes do IST, convidou universitários de outras faculdades. Os instruendos mais promissores foram Santos Barros, Roseira Coelho e Costa Franco.
Em Março de 1969 seguiu-se o terceiro curso com uma inovação: a mulher portuguesa da metrópole começa a aderir. Maria de Fátima e Fernanda Durão foram as primeiras. Nos homens destacaram-se Martins Ângelo, Caixaria e Temes de Oliveira.
A semente fora lançada. As raízes espalhadas, fortaleceram-se, lançando fortes e maciços troncos. Formaram-se novos clubes e começaram os torneios civis em África e Portugal. Quão meritória e gratificante foi a concretização do sonho dos jovens alferes Lobo de Oliveira e Ângelo Lopes. Sonho que transmitiram a dedicados instrutores militares que se constituíram, eles próprios, os primeiros páras civis portugueses.

Até Breve!

José Guilherme Rosa Mansilha