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O MUNDIAL DE FUTEBOL E AS MISSÕES MILITARES NO EXTERIOR

As missões expedicionárias que Portugal tem vindo a cumprir são um tema a que o “Operacional” presta desde a sua criação muita atenção – é mesmo um dos nossos principais objectivos, abordar todas as vertentes destas missões – e ao qual hoje volta com mais um contundente e certeiro artigo de opinião de João Brandão Ferreira.

Actualmente quase 800 militares da Marinha, Exército, Força Aérea e Guarda Nacional Republicana, e elementos da Polícia de Segurança Pública, cumprem missões operacionais fora do território nacional. [1]

Actualmente cerca de 800 militares da Marinha, Exército, Força Aérea e Guarda Nacional Republicana, e elementos da Polícia de Segurança Pública, cumprem missões operacionais fora do território nacional.

O MUNDIAL DE FUTEBOL E AS MISSÕES MILITARES NO EXTERIOR

A Selecção Nacional de futebol de 11, começou a 5 de Junho uma missão no exterior: vai participar no Campeonato Mundial da modalidade que se realiza na República da África do Sul (RAS); e tem um objectivo que é a de defrontar e, se possível, vencer as equipas que lhe calharem em sorte, até ao derradeiro jogo final. Em qualquer dos casos jogar bem, esforçar-se e cumprir os deveres associados.
As Forças Armadas Portuguesas (Fas) e a GNR têm, neste momento, várias unidades suas destacadas em diferentes teatros de operações com perigosidade variável, a saber: cerca de 200 homens no Afeganistão; 300 no Kosovo; 12 na Bósnia; 130 no Líbano, cerca de 40 homens a operar no Corno de África e 120 em Timor. Em cooperação técnico militar nos PALOPs, existirão uns 30 e outros 40 estão distribuídos por diferentes quartéis-generais. Há cerca de 20 anos que assim é, tendo já sido mobilizados cerca de 30000 homens para mais de 30 países diferentes. A sua missão é o de participarem em missões humanitárias, de paz e de imposição de paz, no âmbito das organizações ou alianças de que Portugal faz parte. Neste momento o Afeganistão configura um verdadeiro teatro de guerra.
Vejamos alguns aspectos que ilustram o modo como os órgãos do Estado, os “media” e a população em geral, encara estas duas realidades.
A preparação para o campeonato de futebol, que é apenas uma competição desportiva de carácter lúdico e que está confinada a um período curto de espaço e tempo, desenvolve-se em ambiente festivo e com uma visibilidade mediática que raia o estupidificante.
É um verdadeiro massacre visual, auditivo e em papel, que cai sobre o cidadão que, aparentemente, gosta. Pelo menos esta é a desculpa recorrente dos órgãos de comunicação social para fazerem o que fazem.
As condições dos eleitos que constituem a “caravana” é rodeada de todos os luxos que fazem os atletas e técnicos parecerem uns nababos, já para não falar nos vencimentos algo pornográficos que auferem, não havendo “crise” que os refreie. O seleccionador está, ao que corre, em sexto de todos as mais bem pagos que participam e aos jogadores, só por estarem “deslocados” na Covilhã, num meio circo meio estágio, usufruem a modesta quantia de 800 euros/dia, só de ajudas de custo, quando ainda por cima não têm que despender um cêntimo…
Os jogadores, que cada vez menos configuram uma selecção nacional – deram em naturalizar uns quantos estrangeiros à pressa – são rodeados de todas as atenções. A participação no campeonato não envolve quaisquer riscos, a não ser aqueles decorrentes de lesões ou de uma falta mais dura, além de uma ou outra pergunta mais incómoda de um jornalista ou de uns quantos assobios, na volta, derivados de uma eventual má prestação.
A entidade organizadora do evento é a Federação Portuguesa de futebol, que se move num meio cravejado de claques e toda a sorte de desvergonhas, impróprias de olhares de menores de 70 anos.
Quando chega a hora da partida, há foguetes, bandas, bandeiras, comezainas, declarações furiosas de optimismo e fezádas de vitória. Vá lá, à falta de boas notícias e de nunca mais sair o totoloto, sempre é uma maneira do pessoal ter uns momentos de alegria. Percebe-se. Alguns até aprendem a cantar o hino que de outro modo não saberiam e inventam usos inusitados para a bandeira nacional, que o olhar complacente e às vezes embevecido, dos agentes de autoridade consente.
Os poderes públicos ao verem tão patrióticos propósitos e desbragado entusiasmo, cavalgam a onda, e não raras vezes ultrapassam, pela direita alta ou pela esquerda baixa, o entusiasmo popular.
Meio mundo tenta explorar as oportunidades de negócio que o evento proporciona e milhares de pessoas compram bilhete e tiram férias, sabe-se lá com que sacrifícios.

Vejamos agora o que se passa com as missões militares no exterior

Estas missões são definidas ao mais alto nível do Estado e servem, supostamente, para defender os interesses globais desse mesmo estado e do país. São pois, altos desígnios que estão em jogo, não um simples campeonato desportivo. Estes desígnios não são a “feijões”. Envolvem somas financeiras elevadas e um conjunto complexo de meios e exige uma selecção, preparação e treino muito apurados, de meios humanos. Finalmente, estas missões envolvem riscos sérios que, não poucas vezes, causam ferimentos graves e a própria morte, nos intervenientes.
Ora o que acontece?
Normalmente, e ao contrário dos campeonatos de futebol cujo calendário se sabe com muita antecipação, as missões militares são decididas de um momento para o outro – o que há partida exige uma estrutura que se compadeça com uma coisa destas; vai-se a ver e falta normalmente tudo o que é preciso, pois os meios ou não estão previstos na Lei de Programação Militar e, ou, são postergados continuamente; a seguir corre-se a comprar por ajuste directo, o que sai mais caro e nem sempre se consegue. Por várias vezes o governo português teve já, que pedir material emprestado a nações aliadas…
Sobre o que se passa, pouca gente fala. Os orgãos de comunicação social (OCS), habituados a toda a sorte de cusquices, sentem uma verdadeira azia quando se trata de reportar o que se passa. Uma ou outra notícia fugaz, de um treino; uma reportagem de um enviado especial quando o rei faz anos e umas imagens de choros e abraços nas partidas e chegadas.
O comportamento dos responsáveis do Estado também não é melhor: quando não primam pela ausência, aparecem embaraçados, distantes, conformados com uma maçada. Falta-lhes convicção e autenticidade. Ou é isso que reflectem. Dizem umas palavras de circunstância e, logo a seguir, vão por detrás e zás, mais umas facadas no orçamento, estrutura, meios, etc., das FAs.
Quando morre um militar tudo se altera: passa-se do 8 para o 80. Os OCS despejam pipas de notícias, massacrando a família e amigos da vítima; descobrindo imensas coisas que criticar, etc.. Os representantes do Estado estão presentes ou fazem-se representar num esforço desproporcionado ao evento, mas sempre rezando para que o ocorrido seja esquecido rapidamente. O povo em geral, anestesiado por catadupas de informação e desinformação, encolhe os ombros e sussurra quanto muito um “coitado teve azar”. E alguns rematam, dizendo “foi para lá porque quis…”.
Ou seja a acção destes homens que abnegadamente servem o seu país, ganham mal (relativamente), estão longe da família em ambiente hostil e perigoso, sofrendo as inclemênciasinclemencias do clima e o “stress” do perigo e que, calados e humildes, cumprem as suas missões sem queixumes – mesmo quando o seu equipamento não é o adequado – não têm qualquer tipo de reconhecimento nem visibilidade. E se os compararmos aos 20 minutos que uma qualquer estação televisiva dedica às ementas, aos quartos e às massagens dos jogadores da bola, estaremos até a ofendê-los.
Quem prepara estes homens e é responsável por os manter operacionais e com moral elevado é a Instituição Militar (IM). A IM também já teve os seus momentos maus, mas é uma instituição nacional, séria, cuja história se confunde com a nacionalidade e sem a qual Portugal nunca teria existido nem se manteria. O mundo das FAs não é propriamente o mundo do futebol e os generais e almirantes não se parecem nada com os dirigentes dos clubes. Ou parecem? Agora meditem no tratamento que goza a F.P.F. comparado com o Exército, a FA ou a Armada!
Acreditem que gostaria que a nossa selecção de futebol ganhasse a taça. Já ficaria contente se tivesse uma boa prestação.
Agora aquilo que de facto me satisfaria, era que na nossa terra houvesse o sentido das proporções, da justiça relativa e que não se andasse a matar o bom senso diariamente.
Porque, até ver, ainda ninguém morreu de ridículo.

João José Brandão Ferreira
TCor/Pilav (Ref)