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INSTRUÇÃO DURA…

Esta obra que acaba de ser publicada em edição do autor, Diogo de Góis Figueira, é um documento muito interessante e, tanto quanto julgamos saber, o primeiro livro que aborda a instrução num Curso Geral de Milicianos. Estes cursos que hoje já não se realizam marcaram uma época nas Forças Armadas em geral e também nas Tropas Pára-quedistas ao qual se refere em particular. Em concreto o CGM 1/86.

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Os cinquenta e cinco episódios que se seguem ao longo de 178 páginas, estão escritos com vivacidade, sentido de humor e também crítica, certeira, sem contemplações ou favores. 
É uma visão pessoal, nem todos se identificarão com ela na totalidade, mas é um retrato muito completo da instrução básica que os voluntários para as Tropas Pára-quedistas tinham que ultrapassar nos anos 80 e início dos 90, do século XX. Depois seguia-se o Curso de Pára-quedismo Militar e, só então, se podia envergar a boina de cor verde que desde 1955 distingue os pára-quedistas portugueses.

Em 1986, ano em que decorre esta Instrução Dura – e são factos, não se trata de um romance! – a guerra no antigo Ultramar já tinha acabado, mas o Muro de Berlim ainda estava de pé e ninguém imaginava o seu desmoronamento. Lido hoje e especialmente para quem não viveu essa época, muito do que aqui é escrito pode parecer, de alguma forma, ridículo, exagerado ou desnecessário, mas no Corpo de Tropas Pára-quedistas (CTP), a transição da instrução vocacionada para a contra-guerrilha em África, para a guerra convencional e a perspectiva de emprego na Europa, era levada a sério e a exigência da preparação psico-física era, na altura, muito exigente, o que sobressai claramente neste livro.

Em Tancos sempre se pensou que se a Instrução for Dura, o Combate poderá ser Fácil.

O serviço militar era obrigatório para os jovens do sexo masculino, mas os pára-quedistas só aceitavam voluntários – como sempre desde a sua criação, tendo sido durante muitos anos a única tropa em Portugal que assim procedia, mesmo durante todo o período da guerra no antigo Ultramar – e uns milhares por ano tentavam conquistar a boina verde e o brevet, símbolos máximos desta tropa de elite.
Todos sabiam razoavelmente ao que iam e a propaganda de recrutamento dos pára-quedistas bem avisava que se tratava de uma tropa muito exigente, mas a maioria não estava à espera de tanto! Diogo Figueira deixa isso bem claro nas personagens reais – embora com nomes fictícios, para, como é referido, não ferir susceptibilidades – que o acompanharam nesta instrução do Curso Geral de Milicianos nº 1/86 (CGM), no qual 1/3 do efectivo inicial foi eliminado ou desistiu.

Na Base Escola de Tropas Pára-quedistas do Corpo de Tropas Pára-quedistas, da Força Aérea Portuguesa, estes cursos de “Milicianos” começaram em 1979, para os jovens que tinham completado o ensino secundário. Destes CGM’s saíam os Aspirantes e Segundos-Furriéis – hoje diríamos em regime de “Voluntariado” e que depois seriam “Contratados” como Alferes e Furriéis e alguns mesmo como Tenentes e Segundos-Sargentos. Estes iriam, quando terminada esta formação e o curso de pára-quedismo, enquadrar os pelotões da próxima recruta, compostos por candidatos a soldados pára-quedistas.
Os “Milicianos” tinham naturalmente que ultrapassar uma instrução mais exigente do que a dos seus futuros subordinados. Assim, não só o patamar de esforço era muito elevado como, ao mesmo tempo, havia a necessidade de ministrar formação para futuros formadores. Os instrutores destes CGM’s deviam perceber, em escassos meses, quais os candidatos que revelavam mais capacidade de comando (além das notas nos testes, resultados das provas físicas e toda uma parafernália de aspectos “medíveis”) e, assim, fazer a selecção para oficiais ou sargentos. No mesmo ano, por exemplo – habitualmente havia dois cursos/ano – um curso podia “produzir” 6 aspirantes e o seguinte, o dobro ou mais! Dependia muito das passagens à disponibilidade no final dos contratos e dos que ali permaneciam mais tempo (máximo de 5 anos, em contratos anuais). Tendo todos passado pela mesma formação, não deixavam assim de se criar algumas situações dúbias, mas a realidade é que as necessidades em pessoal é que ditavam esta contabilidade. Quanto mais “para cima” um aluno estivesse na classificação, mais possibilidade tinha de vir a ser Aspirante, mas nunca havia certezas até ao último dia.

Os episódios que Diogo Figueira nos relata estão organizados por ordem cronológica, mostrando a evolução da instrução e dos instruendos ao longo das semanas e meses do CGM 1/86. Muitas, senão mesmo a totalidade das matérias ministradas a estes jovens de 20 anos, são aqui referidas. Entre o primeiro dia na BETP e o Juramento de Bandeira na Parada Alferes Pára-quedista Mota da Costa, pouco terá ficado de fora deste livro. O autor, quase sempre de memória, mas também com base em depoimentos de alguns camaradas de curso e um ou outro documento da época, recorda bons e maus momentos.
Instrução Dura não é um livro institucional, nem meramente descritivo. Aqui há emoção e há pessoas que, certamente, não vão gostar de relembrar certos factos e atitudes, mas também há muitas situações cómicas e bem apanhadas. Acima de tudo, prova-se com factos concretos que a força interior de cada um sobressai em momentos difíceis, por vezes tremendos, e determina a capacidade de ultrapassar o que parece impossível. Nessas alturas, a vontade férrea que se tem, para vir a ser pára-quedista, faz a diferença e determina os que seguem em frente.
Não tenho dúvidas em afirmar que Diogo Figueira, com este seu trabalho, acrescentou mais uma página pouco conhecida à História das Tropas Pára-quedistas Portuguesas.

O livro tem formato 14X22 cm, 178 páginas, inclui 14 fotografias a preto e branco, 31 desenhos a traço da autoria do Diogo Figueira alusivos ao que se vai passando na “história” e ainda algumas cópias de documentos da época, como convocatória para o serviço militar,  listagens de material, croqui da região de exercicio e outras.

Como edição de autor teve uma tiragem limitada, muito pensada para chegar aos elementos deste CGM, mas …quem estiver interessado pode contactar o autor através deste e-mail: diogogfigueira@gmail.com

 

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