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II CISM – BRASIL 1965

Depois de nos artigos anteriores (*) ter abordado o início do pára-quedismo desportivo em Portugal e o seu desenvolvimento, o Coronel José Guilherme Mansilha escreve hoje, sobre nova internacionalização dos “boinas verdes” portugueses neste âmbito do desporto militar: Brasil 1965.

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O II CISM (Conselho Internacional do Desporto Militar) teve lugar de 21 a 24 de Abril de 1965 no Rio de Janeiro – Campo dos Afonsos, infra-estrura aeronáutica, incluindo uma base aérea, onde nasceu e se desenvolveu a aviação militar brasileira.
Foi um campeonato com pouca história e fracos resultados, mas algumas lições, embora na classificação final tenhamos ficado numa posição que não desonrou o País.

Pessoal com muito pouca experiência – o capitão Mansilha e tenente Lemos Costa tinham cerca de 60 saltos de queda livre cada um, o sargento Gaspar tinha mais mas foi, para estes três militares, a primeira participação num campeonato – concorria “contra” pára-quedistas com mais de mil e dois mil saltos, cujas equipas treinavam durante todo o ano estando, a maior parte, dispensada de outras funções.

Flamula criada para o campeonato e distribuida às delegações. [1]

Galhardete criado para o campeonato e distribuído às delegações.

Países que participaram neste campeonato organizado pelo Brasil. [2]

Países que participaram neste campeonato organizado pelo Brasil.

A guerra no Ultramar constituía um grande obstáculo dado que quase todos os elementos da equipa portuguesa andavam “cá e lá”, ora em África a combater como qualquer outro militar para-quedista, ora na Metrópole a ministrar instrução ou outras funções no Regimento de Caçadores Pára-quedistas.

Da esquerda: Ten. Lemos Costa, Cap. Mansilha, Maj. Leitão, Sar. Arlindo Mendes, TCor. Alcínio Ribeiro, Cap. Mário (brasileiro acompanhante da Delegação), Maj. Seixas, Sar Cravidão, Cap. Ruivinho, Sar. Gaspar, Sar. Mota. Posam sob a asa de um "Dakota", avião com 76 anos que ainda hoje tem cerca de 200 unidades a voar no mundo inteiro. [3]

Da esquerda: Ten. Lemos Costa, Cap. Mansilha, Maj. Leitão, Sar. Arlindo Mendes, TCor. Alcínio Ribeiro, Cap. Mário (brasileiro acompanhante da Delegação), Maj. Seixas, Sar Cravidão, Cap. Ruivinho, Sar. Gaspar, Sar. Mota. Posam sob a asa de um "Dakota", avião com quase 80 anos de vida, que ainda hoje tem cerca de 200 unidades a voar no mundo inteiro.

A delegação era constituída por: Chefe da Delegação, tenente-coronel Alcínio Ribeiro, grande entusiasta pela actividade desportiva que já estivera em França no I CISM e acompanhou mais tarde a equipa à Bélgica; major Argentino Urbano Seixas, que, como referi no artigo anterior fez a sua formação pára-quedista no Brasil e aproveitaria para estudar alterações aos métodos de formação; major Curado Leitão e capitão António João Ruivinho, dois grandes entusiastas nos dois estágios em Portugal, que integraram os treinos para a constituição da equipa; capitão Mansilha, tenente Lemos Costa [4] e sargento Gaspar; sargento Arlindo Mendes que o alcançou o 1.º lugar entre os restantes portugueses. Era o nosso concorrente com mais experiência e talvez com mais saltos. Infelizmente não guardei quaisquer registos sobre as pontuações individuais e colectivas apenas tenho o Regulamento do Campeonato e Instruções para os concorrentes.

A Delegação Portuguesa, com a equipa envergando as combinações de salto que constituíam à data a sua "imagem de marca". [5]

A Delegação Portuguesa, com a equipa envergando as combinações de salto que constituíam à data a sua "imagem de marca".

Regulamento do Campeonato (capa). [6]

Regulamento do Campeonato (capa).

Instruções para os concorrentes (capa). [7]

Instruções para os concorrentes (capa).

Lições aprendidas
Para conseguir bons resultados é necessária muita experiência, treino e permanente ligação que permita a adopção, em tempo, de novos métodos utilizados. Em especial nos saltos de estilo (1). Os saltos de precisão (1) estiveram sempre ligados à evolução das calotes dos pára-quedas. Mas também os saltos de estilo estavam dependentes do formato e adaptação do equipamento ao corpo do concorrente, “design”, favorecendo a aerodinâmica.
Sentimo-lo principalmente nos treinos para os quarto e quinto campeonatos, uma vez que, num curto espaço de tempo, cerca de um ano, treinámos para dois campeonatos, Alemanha e Portugal, e um torneio na Bélgica. Os 60 saltos com que concorremos a este CISM no Brasil tinham passado para cerca de 500 por competidor. Os mil saltos ainda estavam longe mas a diferença técnica dos pára-quedistas portugueses era bem notória.

Recordação da delegaç [8]

Recordação da delegação austríaca.

Desde muito cedo que alguns aspectos do pára-quedismo militar no Brasil - baseado ele próprio na doutrina US, mas com algumas particularidades - foram inspiração para as Tropas Pára-quedistas Portuguesas. [9]

Desde muito cedo que alguns aspectos do pára-quedismo militar no Brasil - baseado ele próprio na doutrina americana mas com algumas particularidades - foram inspiração para as Tropas Pára-quedistas Portuguesas.

Despedida do Rio
Fez parte do programa, no Brasil, uma demonstração após o campeonato. Consistia num salto, envolvendo todas as equipas concorrentes, na praia de Copacabana. Tivemos assim oportunidade de ver Rio de Janeiro do ar, pendurados num pára-quedas. Uns aterraram na praia do Ipanema, outros no mar e houve um que foi levado pelo vento para os arranha-céus que cercam a praia. A calote raspou levemente no parapeito do terraço e a partir daí passou a ser atraída, como se houvesse um íman, para a fachada do edifício. Batia, afastava-se um pouco e voltava a bater. Depois de um pequeno susto, aterrou sem mais incidentes no alcatrão da avenida.
Até breve


(*) Ver: PRIMEIROS PASSOS DA QUEDA LIVRE DESPORTIVA EM PORTUGAL [10] e ESTÁGIOS DE QUEDA LIVRE EM PORTUGAL [11]

(1) Ver: PRIMEIROS PASSOS DA QUEDA LIVRE DESPORTIVA EM PORTUGAL [10]