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GUERRA É GUERRA

Este é um livro marcadamente autobiográfico em que o autor, o Major de Infantaria da GNR Miguel Costa Barreto, conta não só o modo como viu os seus 4 meses de missão no Iraque, como relembra factos marcantes da sua vida, com destaque para aspectos familiares, a vivência no Corpo de Fuzileiros e passagens por outras missões internacionais.capa-guerra-e-guerra [1]
Costa Barreto foi 2º comandante da primeira companhia da Guarda Nacional Republicana que Portugal enviou para o Iraque em 2003 (Sub-Agrupamento Alfa), e esta missão abrange parte substancial do livro. Mas não só, e começando pelo fim, uma das partes bem conseguidas da obra é o relato da perigosa peripécia que Costa Barreto viveu em Angola quando ali esteve ao serviço das Nações Unidas em meados dos anos 90 – Condenado à morte em Angola -. Escrito de modo empolgante, ficamos com uma noção muito real, crua, do que era (é?) a vida de um observador das Nações Unidas num país em guerra, com que espécie de gente tinham que lidar e ao que estes militares e polícias estavam sujeitos…em nome da paz mundial e dos seus países.


No respeitante à missão no Iraque que abrange vários capítulos da obra, Costa Barreto é extremamente elogioso para a sua organização e os “meus homens” e também para os jornalistas e a comunicação social em geral que são muitas vezes referidos no texto. Não deixa no entanto de criticar directa e indirectamente outros actores militares nacionais e estrangeiros, quer em períodos anteriores da sua vida militar quer mesmo no decurso da operação.
No relato que faz das várias fases da intervenção da GNR no Iraque ficamos com uma noção do ambiente vivido no contingente português, das condições que encontraram à chegada e do esforço de todos para levar a cabo a missão que lhes havia sido acometida pelo governo. Na descrição de Costa Barreto salta à vista o enorme orgulho com que GNR encarou esta missão. Do general ao soldado. Fica patente que para a Guarda a confiança que lhes havia sido dada tinha que ser aproveitada, e foi. Este é aliás um espírito sempre mais marcado quando uma determinada força é enviada para “abrir” um teatro de operações do que naqueles que os vão depois substituir. O peso da responsabilidade que caiu sobre estes primeiros militares da GNR está aqui bem patente. Acrescentando-se a esta missão, para dificultar a preparação mas ao mesmo tempo para testar o “espírito de corpo”, a particularidade de ter sido à data muito polémica. Importantes sectores políticos, militares e da sociedade em geral não estiveram de acordo com o envolvimento nacional, mas a realidade é que a GNR cumpriu, bem e sem vítimas mortais.
O livro é rico em detalhes da vida do militar da GNR no Iraque naquele período inicial, quer no dia-a-dia de quartel – telefonemas para casa, problemas familiares, ataques, munições perdidas, diálogos de caserna, etc. – quer em algumas das operações que efectuaram. E é exactamente na descrição, muito detalhada e viva, de duas dessas operações – juntamente com a já falada “questão angolana” – que, quanto a nós, o livro se torna um registo muito interessante para quem quer saber o que se passa nestas missões. A dura realidade do militar que se confronta com o inimigo (mesmo que se lhe chame outra coisa qualquer por questões politicas) e tem que o abater, dominar ou convencer, está aqui muito bem descrita.

Costa Barreto, major da GNR no activo, não escreveu um livro institucional, mas “Guerra é Guerra” bem o podia ser não fossem algumas criticas  (veladas e mesmo directas) que faz a alguns aliados e a outros militares portugueses. A instituição GNR, as suas chefias e mesmo a tutela política, não sofrem reparos negativos – nada dos habituais problemas com equipamentos, armamento, viaturas, vencimentos, etc. – quer na fase de preparação da força quer depois no apoio à missão no terreno. Antes pelo contrário, Costa Barreto é peremptório em afirmar que nada faltou à força e considera-a mesmo, em alguns aspectos, com mais condições que os aliados.

O livro consegue descrever em várias passagens o que os militares portugueses da GNR “no terreno” tiveram que fazer. Em detalhe. Talvez só um par de reportagens televisivas e outras tantas radiofónicas feitas noutros teatros de operações nos últimos 15 anos, com outras forças, o tenham conseguido tão bem. Aqui Costa Barreto mostra-nos a “guerra da GNR no Iraque” e foge aos elogios fáceis, generalistas e por vezes até exagerados, que passamos a vida a ouvir da boca de políticos e militares e que na realidade, muito pouco dizem do que se passa nas missões.

Trata-se de uma edição “A Esfera dos Livros”, prefácio de Paulo Portas, formato 15X23 cm, 261 páginas e um caderno com 31 fotos a cores sobre a missão no Iraque. ISBN: 978-989-626-214-3.

Quer ler mais sobre o Iraque no Operacional? Clique em:

PORTUGUESES EM KIRKUK : A ÚLTIMA MISSÃO. [2]

E sobre a GNR:

A NOVA ORGÂNICA DA GNR [3]

GNR, CONTRADIÇÕES E AMBIGUIDADES [4]