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GRANDE GUERRA – 1914 A 1918 (I)

O “Operacional” inicia hoje com a publicação de uma série de artigos alusivos à Grande Guerra 1914-1918, mais uma parceria. Com a colaboração desinteressada de Manuel Ribeiro Rodrigues, vamos dar a conhecer acontecimentos de épocas que marcaram a História Militar de Portugal. O seu acervo particular abrange uma infinidade de temas que em boa hora se lembrou de divulgar pela internet e muitas serão as imagens, factos e opiniões que só anos e anos de pesquisa aturada e muito investimento permitiram recolher. O “Operacional“orgulha-se de ajudar a divulgar este material de consulta e certos estamos que, juntamente com Ribeiro Rodrigues, prestamos mais um serviço à comunidade interessada nestas temáticas, em Portugal e no Estrangeiro.
Manuel António Ribeiro Rodrigues, 62 anos de idade, dedica-se à investigação e divulgação da história militar em geral e principalmente sobre o estudo dos uniformes militares, equipamento, organização, há cerca de 47 anos.
Foi militar, cumpriu uma comissão de serviço de 27 meses na totalidade passados no Norte de Moçambique (Mocímboa da Praia/Mueda/Palma), entre 1970 e 1972.
É autor de diversos livros sobre estas temáticas, entre os quais: “300 Anos de Uniformes Militares do Exército”; “Modern Africam Wars (Angola, Guiné e Moçambique)” da editora inglesa Osprey; “400 Anos de Uniformes e Organização militar de Macau”, do Instituto Cultural de Macau (edição trilingue em português, inglês e mandarim); “Mocidade Portuguesa Masculina”; “Mocidade Portuguesa Feminina”. Tem publicado muitos artigos em revista nacionais e estrangeiras e presentemente dedica-se à divulgação do seu enorme acervo particular através da internet, tendo três blogues: um dedicado exclusivamente à Guerra Peninsular outro à Grande Guerra e um outro à História Militar Portuguesa no geral.

Bem-vindo ao “Operacional” Ribeiro Rodrigues!

Esta série de artigos sobre a Grande Guerra, 1914-1918 está ser divulgada no blog http://grandeguerra-marr.blogspot.com/ [1]e vamos iniciar a publicação, num formato ligeiramente diferente do original mas como mesmíssimo conteúdo.

GRANDE GUERRA – 1914 A 1918 (I)
Aos alemães, até determinada data não lhes interessava a África, mas Bismarck, depois de grande resistência, consentiu que a Alemanha tentasse estabelecer-se nesse continente; neste sentido, no ano de 1884, o Togo e o Camarões foram ocupados e declarados Protectorados Alemães assim como umas parcelas de território do Sudoeste Africano, onde residiam muitos naturais desse País.
Em 1897 a Alemanha conseguiu que Portugal lhe cedesse os seus direitos sobre o território entre Cabo Frio e o Baixo Cunene, assim o território alemão aproximou-se muito da fronteira de Angola, e desse modo constituiu a Damaralândia, na costa ocidental ao sul desse nosso território.

(Colecção particular) [2]

(Colecção particular)

Na África Oriental, a norte de Moçambique, havia uma companhia de negociantes alemães, que em sintonia com os sucessos obtidos na África Ocidental, declararam que: aquela região passaria a ser de futuro a África Oriental Alemã!
Em 1898 o governo inglês e o alemão decidiram entre si partilhar a influência mercantil em Angola, aparecendo na imprensa estrangeira uma série de artigos de opinião. O jornal alemão “Post” em Dezembro de 1911 publicava: (…) Lembremo-nos, de que nos arquivos de Londres e Berlim, existe um tratado que assinámos em 1898, com a Inglaterra, e pelo qual as possessões de Portugal, na África, nos são garantidas. Seriam compensações, que deviam dar-se-nos, em troca das vantagens da partilha da Pérsia (…)
Precisamente pela mesma ocasião o jornal inglês “Daily Mail” publicava num artigo assinado pelo alemão Hans Delbruck, o seguinte: (…) É inevitável, uma diminuição do poder português em África, e uma partilha das possessões da República, ali, entre a Inglaterra e a Alemanha, partilha feita há muito tempo, se não fosse a repugnância da Inglaterra, a ter intervido desvantajosamente na ideia da expansão alemã (…)

Programa de viagem do navio alemão "Ussukuma" (Colecção particular) [3]

Programa de viagem do navio alemão "Ussukuma" (Colecção particular)

Não restam dúvidas de que Angola e Moçambique estavam nos projectos expansionistas da Alemanha. Devido a diversas e sucessivas campanhas na imprensa germânica, começaram-se a infiltrar em Angola, muitos alemães, alegando motivos de estudos tropicais, safaris, missões, etc.
A 28 de Julho de 1914, a Áustria declara guerra à Sérvia; a 31, a Alemanha manda um “ultimatum” à Rússia e à França; a 1 de Agosto declara guerra à Rússia, a 2 do mesmo mês invade o Luxemburgo, a 3 declara guerra à França e a 4 invade a Bélgica!
Assim ficaram definidas as posições dos beligerantes: a Alemanha e a Áustria Hungria contra a Inglaterra, a França, a Rússia, a Bélgica e a Sérvia. Depois a Itália juntou-se aos aliados e a Turquia aos impérios centrais. Todos os outros países declararam a neutralidade, com excepção de Portugal que nada disse, esperando uma definição da aliada Inglaterra em relação às nossas possessões de África.

ÁFRICA

Postal ilustrado de propaganda (Colecção particular) [4]

Postal ilustrado de propaganda (Colecção particular)

A 25 de Agosto de 1914 os alemães atacaram o nosso posto de Maziua, na África Oriental Portuguesa, matando-nos gente, saqueando e destruindo o posto; a 11 de Setembro embarcam as nossas tropas para Moçambique ali chegando a 16 de Outubro; a 12 de Setembro, partem as nossas tropas com destino a Angola, onde desembarcam em Moçâmedes a 1 de Outubro, começando assim as nossas campanhas defensivas de África contra o invasor alemão; a 18 de Outubro de 1914 dá-se o incidente de Naulila e a 31, do mesmo mês, o de Cuangar, matando o comandante, oficiais e incendiando o posto; a Alemanha declara guerra contra Portugal a 9 de Março de 1916 e Portugal só a declarou, oficialmente no dia 19 de Maio.

Primeiro da esquerda: General Ferreira Gil, comandante da 3.ª Expedição a Moçambique com o seu Estado-Maior.Junho de 1916 [5]

Primeiro da esquerda: General Ferreira Gil, comandante da 3.ª Expedição a Moçambique com o seu Estado-Maior.Junho de 1916

Infelizmente as nossas acções em África contra os alemães e os nossos heróis, que combateram nas nossas antigas possessões de África, são sempre olvidados, até nas comemorações oficiais e nos monumentos que existem espalhados pelo nosso País; nenhum tem a estátua em bronze ou pedra referente a um combatente de Angola ou Moçambique, apenas legendas…terá sido por vergonha de terem enviado militares combaterem para África sem as mínimas condições e votados a um total abandono? Terá sido pela incompetência por parte dos principais dirigentes e políticos dessa época?

Embarque de tropas para África In:Ilustração Portuguesa [6]

Embarque de tropas para África In:Ilustração Portuguesa

MOÇAMBIQUE – TESTEMUNHOS
O Dr. Américo Pires de Lima legou-nos um impressionante e real testemunho no seu livro intitulado “Na Costa d’África – Memória de um Médico Expedicionário a Moçambique”, publicado em 1933, onde o seu autor nos começa por afirmar que: (…) A história faz-se sobre factos autênticos e não sobre convenções por mais agradáveis que estas sejam. De contrário, não passa de romance(…)
(…) É estrito dever de cada um dizer o que sabe e o que viu. É o que agora aqui faço. É possível que alguns vejam nisto manifestações de derrotismo ou de antimilitarismo. Esses serão dos que antepõem as convenções à verdade, na ingénua esperança de que – verdade escondida é verdade inexistente. Supondo, é claro, que são sinceros, o que nem sempre acontecerá(…)
(…) Que não se repita a situação absurda reminiscência e contra natura de os nossos militares sofrerem mais pela acção dos amigos do que pela dos inimigos. Que não se repitam os males de imprevidência e de indiferença pelo destino dos nossos pobres soldados de África, que certamente seriam mais felizes se combatessem como mercenários, à sombra duma bandeira estranha (…)

Dr. Américo Pires de Lima em Mocímboa da Praia Desenho do Dr. Abel Salazar [7]

Dr. Américo Pires de Lima em Mocímboa da Praia Desenho do Dr. Abel Salazar

(…) Que não se repitam, em suma, factos que, ao menos pela sua absurda falta de lógica, só são possíveis em um País em que os analfabetos são a maioria, em que por isso a opinião pública é, muitas vezes, uma torpe ficção, estereotipada e distribuída por meio de não sei que misteriosos e recônditos canais, para ser absorvida tal qual, sem espírito crítico nem prévia digestão. A verdade convencional fica assim distante da verdade autêntica, que dir-se-ia não haver entre elas o menor grau de parentesco(…) (…) Esta ausência de diferenciação moral conta por muito na desorientação da vida portuguesa, que tem andado à matroca, sem finalidade, sem leme e sem rumo, ora carpindo as misérias do presente, ora exaltando as glórias do passado, mas nunca preparando singelamente o plano futuro(…)
(…) Só assim se explica que fossemos tão mal precavidos para uma campanha de altíssima responsabilidade como a de Moçambique, guerra colonial, não contra indígenas, mas contra o bem preparado e equipado exército alemão! Deixámos tudo à mercê do acaso e do nosso duvidoso talento de improvisadores(…)

Atravessando o rio Rovuma numa jangada In: Ilustração Portuguesa [8]

Atravessando o rio Rovuma numa jangada In: Ilustração Portuguesa

(…) Assim se mandaram para a guerra cavalos que nunca tinham sido montados, muares que nunca tinham sentido os arreios, soldados que nunca tinham disparado um tiro. Assim se expuseram os soldados aos mosquitos e à cacimba, à espera que fossem construídos os seus aquartelamentos. Assim se instalaram hospitais, meses depois de desembarcada a tropa; de modo que centenas de soldados adoeceram e morreram sem que pudessem receber uma razoável assistência médica, por não poderem ser hospitalizados (…)
(…) Chegou-se ao cúmulo de, contra o parecer dos médicos, dar alta a doentes, obrigando-os a partir na expedição, quando pela natureza da doença, tudo aconselhava o contrário, pondo assim em grave risco o nosso prestígio de nação civilizadora e colonizadora!(…)
Dr. Américo Pires de Lima

ÁFRICA – TESTEMUNHO

General Gomes da Costa Colecção particular [9]

General Gomes da Costa Colecção particular

O General Gomes da Costa no seu livro “A Guerra nas Colónias”, escreve: (…) A maior e principal causa dos nossos desastres vem sempre dos governos, por se não preocuparem com a preparação do exército (…)
(…) Numa república onde os homens que se sucedem no poder, mal tendo tempo para tomar posse, e logo se vão embora, é indispensável que as instituições prevejam e remedeiem os inconvenientes resultantes, em tempo de guerra, dessa instabilidade, e que ponham à disposição dos membros do governo, desde a declaração de guerra, um organismo com experiência, autoridade e bem preparado para os ajudar no desempenho da sua missão de salvar o País (…)
(…) Numa república moderna, não são só os generais incompetentes que a lei tem de punir e afastar dos comandos: são também, os Ministros que lutaram pelo poder e aceitam responsabilidades do governo, sem se terem previamente tornado capazes de o exercer (…)

Posto de observação (Colecção particular) [10]

Posto de observação (Colecção particular)

(…) Estes deveres consistem, principalmente, na nomeação dos comandos superiores, e em lhes dar, – não conselhos, nem, opiniões, mas ordens precisas e concisas sobre o objectivo das operações (…)
(…) Se os nossos governos tivessem sabido assim proceder, não teríamos visto as operações em África a arrastarem-se sem objectivo, sem plano, sem nexo até à derrota (…)
General Gomes da Costa

MOÇAMBIQUE – OS ALEMÃES

Estampa da época (Colecção particular) [11]

Estampa da época (Colecção particular)

General von Lettow Worbeck [12]

General von Lettow Worbeck

O General von Lettow Worbeck escreveu, nas suas “Memórias da África Oriental”, acerca das campanhas contra Portugal que:
(…) O inimigo maior em Moçambique, foi o próprio português com a sua leviandade, irreflexão, desmazelo e bizarria, a sua vara na mão, o seu cego posso, quero e mando, que não velou pela alimentação, saúde e pela assistência das tropas; prevenir e atacar os flagelos que sobre elas incidem letalmente, ouvir e respeitar as vozes da higiene e da medicina. A ordem era não adoecer e quem o fizesse que rebentasse, não tinham camas, nem assistência, nem remédios (…)

Postal ilustrado da época (Colecção particular) [13]

Postal ilustrado da época (Colecção particular)

O FIM
E de volta à Pátria, como terá sido a recepção que estes heróis tiveram no cais de desembarque? Para melhor descrever esse regresso à Metrópole, após a missão cumprida, explica-nos o Dr. Pires de Lima que (…) a esperar-nos, ninguém, nem a Cruz Vermelha, na hipótese, infelizmente verdadeira, de trazermos doentes, que careciam de ser transportados em maca…recordei então as notícias, que tinha lido, da maneira como eram recebidos, com mimos e carinhos femininos,os feridos e doentes, que regressavam de França (…)

Tropa de África! Foto de 1918 [14]

Tropa de África! Foto de 1918

(…) Profundamente chocado, mandei para o Quartel-General um telefonema seco: “estava ali o Quelimane com duzentos soldados doentes; alguns, que só poderiam desembarcar de maca, outros que vinham em trajes menores e, por isso, não poderiam desembarcar de dia” (…) Tempos depois, apareceu no cais, muito enfadado, um senhor alferes, que o Q.G. mandara, para tomar conta dos meus doentes. E nisto se resumiu a recepção oficial feita aos Expedicionários, que parece não terem cumprido integralmente o seu dever, pois, com teimosia inexplicável e digna de muita censura, se tinham obstinado em não morre, longe da Pátria, para lhe poupar um espectáculo deselegante e perturbador de digestões felizes (…).
Dr. Pires de Lima

Felizmente ainda conheci pessoalmente um desses heróicos combatentes (resistentes), que com a idade de 18 anos foi como voluntário para Angola combater os alemães, infelizmente já nos deixou, faz uns bons pares de anos, e numa idade já centenária, refiro-me ao Coronel e Engenheiro Químico Manuel Aboim Ascensão de Sande Lemos que durante muitas horas me narrou alguns dos acontecimentos por ele vividos em África, testemunhos esses que me entusiasmaram a levar em frente o trabalho que aqui inicio.
Dedicando este modesto trabalho não só à sua memória, mas à de todos esses heróis esquecidos que tanto deram pela Pátria sem nada em troca pedirem…
O Autor
M. A. Ribeiro Rodrigues

Veja aqui as Parte II, III e IV deste trabalho no “Operacional”:

GRANDE GUERRA – 1914 A 1918 (II) [15]

GRANDE GUERRA – 1914 A 1918 (III) UNIFORMES [16]

GRANDE GUERRA – 1914 A 1918 (IV) UNIFORMES (II) [17]