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EXERCÍCIO “MOLIÇO 151”: PÁRA-QUEDISTAS & HELICÓPTEROS EM SEIA

O 2.º Batalhão de Infantaria Pára-quedista, unidade em “stand by” para a Força de Reacção Imediata do Estado-Maior General das Forças Armadas (FRI/EMGFA), cumpriu mais um exercício no seu programa de treino, este com um “valor acrescentado”, o uso intenso de helicópteros portugueses e dinamarqueses. O Operacional esteve em Seia e mostra o que viu fazer.

Helitransporte na região de Seia. Pára-quedista português, helicóptero dinamarquês. [1]

Pára-quedistas portugueses e helicópteros dinamarqueses em perfeita articulação nas acções de helitransporte a que assistimos na região de Seia.

Conjugação de esforços inter-ramos

Para quem acompanha estas temáticas a primeira surpresa agradável é ver a conjugação de esforços entre dois ramos das forças armadas, Exército e Força Aérea – e mesmo de uma força aérea estrangeira(*) – transformar-se numa mais-valia para todos e na efectiva utilização ao máximo dos recursos disponíveis. Sendo isto relativamente normal em exercícios de grande dimensão (como semanas antes o “Real Thaw” o provou e alguns outros durante o ano), já não é vulgar em exercícios deste escalão tão baixo. Os “Moliço” são exercícios do 2.º BIPara, que embora envolvam (e logo treinem) praticamente todo o batalhão, nomeadamente o seu comando e estado-maior e até destacamentos de outras unidades da brigada, estão destinados a avaliar as suas companhias. Diz-nos o Tenente-Coronel Pára-quedista Francisco Sousa, comandante do 2.º BIPara: “Tendo sabido através dos canais de comando adequados, com a devida antecedência, a intenção que as forças aéreas de Portugal e da Dinamarca tinha de realizar um treino complementar na sequência do “Real Thaw”, aqui nesta região, e de nós, de acordo com as directivas de treino do Comando das Forças Terrestres e da Brigada de Reacção Rápida estarmos a preparar este exercício “Moliço 151” para avaliar o treino das subunidades de manobra do 2BIPara (Companhias 21 e 23) no planeamento e condução de operações militares convencionais, foram estabelecidos os contactos necessários – só possíveis dadas as excelentes relações entre os dois ramos – para integrarmos tudo isto, e os resultados até ao momento são os melhores. O “Moliço” como verão não se esgota na utilização dos helicópteros, é muito mais do que isso, mas confere-lhe uma outra dinâmica, e até ao momento (em 3 dias) já utilizamos mais de 5 horas de voo, a maioria nos Fennec da Força Aérea Dinamarquesa mas também nos Alouette III da Força Aérea Portuguesa”.

Vista geral do Aeródromo de Seia, com as instalações do 2.º BIPara (à direita) e das Forças Aéreas de Portugal e da Dinamarca, junto ao "hangar de campanha". [2]

Vista geral do Aeródromo de Seia, “encostado” à Serra da Estrela, com as instalações do 2.º BIPara (centro- direita) e das Forças Aéreas de Portugal e da Dinamarca, com tendas semelhantes e um  “hangar de campanha”.

Descolagem dos Fennec para mais um helitransporte. Estes helicópteros, quando estiveram no Exército, estavam armados com misseis TOW, actualmente estão destinados a missões de observação, ligação, transporte táctico e operações especiais. [3]

Descolagem dos Fennec para mais um helitransporte. Estes helicópteros, quando estiveram no Exército, estavam armados com misseis TOW, actualmente estão destinados a missões de observação, ligação, transporte táctico e operações especiais.

Além dos 4 AS-550 Fennec da  Real Força Aérea da Dinamarca (Esquadrilha 724) em Seia também estiveram 4 Alouette III da Esquadra 552 "Zangões". [4]

Além dos 4 AS-550 Fennec da Real Força Aérea da Dinamarca (Esquadrilha 724) em Seia também estiveram 4 Alouette III da Esquadra 552 “Zangões”…

...meios e pessoal da Força Aérea, nomeadamente elementos da Unidade de Comando e Controlo Móvel para, entre outras tarefas, assegurar a ligação com o Comando Aéreo. [5]

…meios e pessoal da Força Aérea, nomeadamente elementos da Unidade de Comando e Controlo Móvel para, entre outras tarefas, assegurar a ligação com o Comando Aéreo.

“Moliço 151”

Princípio básico, embora nem sempre lembrado, “se é possível simplificar para quê complicar?”, parece ter sido aqui aplicado em vários aspectos, nomeadamente o do cenário do exercício. Se o “Real Thaw” tinha terminado dias antes e se algumas das forças empenhadas no “Moliço” haviam estudado, interiorizado e actuado de acordo com o cenário desse grande exercício multinacional …aplicou-se o mesmo cenário. O mesmo inimigo, o “Exército de Libertação de Balantya”, ía ser combatido agora apenas por portugueses e dinamarqueses, e sabia-se que tinha capacidade para atacar com emboscadas e flagelações, podia colocar explosivos improvisados, queria fazer reféns e tinha civis que andavam “por aí” mas que serviam de “spotters”, monitorizando as forças aliadas.

As duas companhias de pára-quedistas – a 21 e a 23 – foram testadas num ambiente de alguma competição inserido pelo estado-maior do batalhão que lhes atribuía as missões, parte delas com algumas intensidade, obrigando-as a pernoitar fora da “base”, transportando consigo naturalmente “às costas” todo o equipamento de combate adequado ao empenhamento. Foram executadas infiltrações e exfiltrações em helicóptero, marcha de montanha, aproximações aos objectivos, reconhecimentos, assalto a objectivos, tudo isto num ambiente “hostil”, “em áreas controladas pelas forças opositoras”, “em média e alta montanha”. O modo como tudo isto foi cumprido pelas companhias permitiu ao comando do batalhão avaliar, entre outros aspectos, a capacidade de emprego de meios aéreos de asa móvel em operações de combate convencional; a capacidade de reacção a situações inopinadas; a capacidade para actuar em situações de relativo isolamento táctico, falta de informações e reabastecimentos, em condições adversas do terreno, meteorológicas e com grande intensidade nas operações.

Foram definidas duas áreas de responsabilidade para o batalhão e as companhias cumpriam missões, muitas vezes “trocadas” dentro de cada uma delas. Um exemplo: a companhia 21 efectuava a infiltração helitransportada, marcha e reconhecimento a um objectivo, e regressava à base, para depois, com os elementos recolhidos, ser a 23 a fazer a infiltração e ataque a esse objectivo. Introduzia-se assim uma responsabilidade acrescida na recolha das informações necessárias ao cumprimento da missão.

E se as companhias andavam muitas vezes mais do que um dia no terreno cumprindo estas missões, o estado-maior também tinha essa rotina de trabalho e funcionou num ciclo de trabalho 24H sobre 24H, a partir da base montada junto à pista de Seia, lado a lado com o destacamento das forças aéreas de Portugal e da Dinamarca.

Palavras para quê? Seguem-se as diferentes fases de um helitransporte que colocou parte de uma companhia de pára-quedistas numa zona de aterragem improvisada. Os "páras" iniciaram a marcha para mais um reconhecimento a uns quilómetros dali e os Fennec, terminada a missão de transporte, regressaram  ao aeródromo de Seia. [6]

Palavras para quê? Seguem-se as diferentes fases de um helitransporte que colocou parte de uma companhia de pára-quedistas numa zona de aterragem improvisada. Os “páras” iniciaram a marcha para mais um reconhecimento a uns quilómetros dali e os Fennec, terminada a missão de transporte, regressaram ao aeródromo de Seia.

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Rumo ao objectivo sobre o qual irá incidir o reconhecimento. Outra companhia, com os dados recolhidos por esta, realizará o ataque. [17]

Rumo ao objectivo sobre o qual irá incidir o reconhecimento. Outra companhia, com os dados recolhidos por esta, realizará o ataque.

Novidade tecnológica testada

A necessidade aguça o engenho e se no “campo militar” isto tem sido uma constante ao longo da história, assim continua e neste exercício o 2.ºBIPara testou uma “ferramenta” que o auxiliou a aperfeiçoar o comando e controlo das operações. Como nos diz o sargento-ajudante pára-quedista Carlos Queirós, «…trata-se de uma aplicação (SevenEARTH) desenvolvida pelo Primeiro-Sargento de Transmissões Pára-quedista Jacinto Neves, da Companhia de Transmissões da BrigRR. Baseia-se em mapas do Google Earth em modo offline. Estes mapas são colocados em memória cache e posteriormente utilizados pela aplicação referida. Tem capacidade, através de ligação rádio segura (SECOM – V) do TR525 (EID) permite realizar o “tracking” (posicionamento e traçado do itinerário) do militar no terreno durante a operação. Em HF modo ALE3G permite ver a posição do rádio remoto e o envio e recepção de mensagens curtas; permite também a visualização da localização de todos os rádios; envio de mensagens também em modo seguro. É uma aplicação em desenvolvimento e que foi testada anteriormente pela Companhia de Transmissões da Brigada de Reacção Rápida e agora pelo 2BIPara pela primeira vez. Tem como vantagem a utilização de imagens geo-referenciadas obtidas de forma gratuita». Pode-se dizer que não será uma evolução “estrondosa” e é um facto, mas também não é menos verdade que se trata de uma evolução, “empurrada” de baixo para cima e logo apoiada senão incentivada, como tantas vezes acontece na instituição militar, o que para nós é um óptimo sintoma da vontade de fazer bem, vontade de evoluir em todos os níveis da hierarquia, em suma, de apego à profissão.

Claro que num exercício – e para isso é que servem! – nem tudo é positivo ou corre bem, não haja ilusões. Se por um lado a componente logística nos pareceu muito aligeirada, reduzida ao mínimo indispensável – não se queixaram, mas responderam-nos que é assim na nova orgânica dos batalhões de pára-quedistas – certamente num caso real esta vertente terá outra atenção e não dependerá apenas do esforço e boa-vontade e dedicação de quadros e praças envolvidos; a nível dos equipamentos e do armamento individual, vão-se notando falhas e alguma distância face ao que os nossos parceiros e aliados utilizam. Do lado positivo não podemos deixar de referir que hoje em dia este (e certamente outros) batalhão tem um bom enquadramento com oficiais e sargentos dos quadros permanentes em número suficiente para o quadro orgânico, gente muito experiente com diversas missões internacionais cumpridas bem assim como participação em exercícios em ambiente multinacional, movendo-se com naturalidade e profissionalismo na doutrina NATO, comum a todos este exercícios e operações.

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Pessoal e meios de outras unidades integraram o exercício, sendo de destacar as equipas cinótécnicas da Escola de Tropas Pára-quedistas (Batalhão Operacional Aeroterrestre), que fizeram, segundo nos foi referido, um excelente trabalho, integradas nas companhias de pára-quedistas (e mesmo nas forças opositoras).

O Sargento-Ajudante Pára-quedista Carlos Queiroz a usar a nova aplicação testada pelo 2BIPara. Consegue-se uma melhoria da capacidade de comando e controlo pelo estado-maior do batalhão. [19]

O Sargento-Ajudante Pára-quedista Carlos Queiroz a usar a nova aplicação testada pelo 2BIPara, “seguindo uma força no terreno pelo monitor”. Consegue-se uma melhoria da capacidade de comando e controlo pelo estado-maior do batalhão.

Nas costas do Primeiro-Sargento Pára-quedista Matos, Sistemas TR -525 compostos por 2 rádios 525 da EID. Destinam-se a garantir as comunicações entre o posto de comando do 2BIPara e as companhias. Em Seia usou-se comunicações em HF para os Grupos de Combate que estavam a 30km;  VHF para os que estavam a cerca de 10km; e ainda UHF para estabelecer ligação com os meios aéreos portugueses e dinamarqueses. [20]

Nas costas do Primeiro-Sargento Pára-quedista Matos, Sistemas TR -525 compostos por 2 rádios 525 da EID. Destinam-se a garantir as comunicações entre o posto de comando do 2BIPara e as companhias. Em Seia usou-se comunicações em HF para os Grupos de Combate que estavam a 30km; VHF para os que estavam a cerca de 10km; e ainda UHF para estabelecer ligação com os meios aéreos portugueses e dinamarqueses.

O comandante do 2.º BIPara, TCor Francisco Sousa, com o piloto dinamarquês que comandou o helitransporte a que assistimos. [21]

O comandante do 2.º BIPara, Tenente-Coronel Francisco Sousa, com o Capitão Andersen Bor que comandou o helitransporte a que assistimos.

Após cada missão repete-se o procedimento diremos "instantâneo". Após a aterragem, o comandante da acção em concreto, veio fazer o "debriefing" informal com o oficial de operações do batalhão, Major Pára-quedista Vladimiro Cancela (ao centro) e o Capitão Pára-quedista [22]

Após cada missão repete-se o procedimento diremos “instantâneo”. Após a aterragem, o comandante da acção em concreto, veio fazer o “debriefing” informal com o oficial de operações do batalhão, Major Pára-quedista Vladimiro Cancela (ao centro) e o Capitão Pára-quedista Costa, adjunto do oficial de operações para o apoio aéreo.

No dia em que estivemos em Seia não vimos os AL III operar com os pára-quedistas mas neste terceiro dia do exercício já tinham executado uma missão conjunta. Aqui, depois enquanto o "19376" abastecia, o "19302" estava entregue aos cuidados da manutenção. [23]

No dia em que estivemos em Seia não vimos os AL III operar com os pára-quedistas mas neste terceiro dia do exercício já tinham executado uma missão conjunta. Aqui, depois enquanto o “19376” abastecia, o “19302” estava entregue aos cuidados da manutenção.

Quadros e praças do 2.ºBIPara foram mais uma vez testados num exercício do qual certamente serão retiradas lições aprendidas e depois do qual estarão mais aptos a cumprir uma missão real. [24]

Quadros e praças do 2.ºBIPara foram mais uma vez testados num exercício do qual certamente serão retiradas lições aprendidas e depois do qual estarão mais aptos a cumprir uma missão real.

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Alferes Pára-quedista do 2BIPara. Os anúncios da vontade de adquirir uma “nova arma” a curto prazo são boas noticias para quem tem que as usar! Por exemplo, na NATO já ninguém usa em operações uma espingarda automática sem um dispositivo de pontaria moderno. Nas Forças Armadas Portuguesas, se exceptuarmos parte dos militares das Operações Especiais no Exército e as unidades especiais da Marinha e Força Aérea, ninguém os tem.

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As evoluções que foram introduzidas no inicio das missões de paz (no final dos anos 90 do século XX) já começam a “pedir” renovação. O Exército dá prioridade ao “Projeto do Equipamento Individual”, o próprio Chefe do Estado-Maior o anunciou publicamente em 26OUT2014, esperemos que se concretize. Mais segurança para a tropa, maior capacidade para cumprir a missão.

 

Conclusão

Numa situação real, por exemplo numa evacuação de cidadãos nacionais de um qualquer local do mundo em convulsão, se uma força deste tipo fosse empregue – helicópteros e pára-quedistas – o dispositivo montado e a partir do qual se desenrolaria a acção, não seria muito diferente do que vimos em Seia. Uma base em local seguro para a partir daí lançar as operações que a situação justificasse.

Mesmo que os batalhões de pára-quedistas hoje tenham uma estrutura muito (demasiado?) aligeirada, o que numa operação deste tipo obrigaria a um reforço da componente logística com meios e pessoal de outras sub-unidades, aqui em Seia, fruto do tal principio de simplificar e não complicar reinante e também de algum apoio – a custo zero – prestado pela Força Aérea Portuguesa, foi possível realizar este tipo de exercício, introduzir e testar inovações, cooperar de modo continuado com uma unidade de helicópteros estrangeira (com larga experiência operacional no Kosovo, Iraque e Afeganistão), concluindo-se que também os nossos militares, muitos deles com empenhamentos semelhantes, não só estão “ao nível” como também eles transmitiram algo da sua própria experiência que foi aproveitado pelos outros.

(*) A Real Força Aérea da Dinamarca – «Flyvevåbent», concentra todos os helicópteros militares da Dinamarca: 8 Fennec (4 estiveram no Moliço 151), 8 EH101 SAR; 6 EH101 Tacticos; 8 Lynx embarcados em navios da Marinha de Guerra. E profissionalismo não lhes falta!

Veja aqui o vídeo: HELITRANSPORTE NO “MOLIÇO 151″ EM VÍDEO [27]