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ESTÁGIOS DE QUEDA LIVRE EM PORTUGAL

Na sequência da formação de pára-quedistas portugueses em Pau (França), realizaram-se em Tancos dois estágios de aperfeiçoamento de queda livre. Foram o segundo grande impulso para que os instrutores e monitores portugueses pudessem participar em competições de pára-quedismo.

Da esquerda, em pé: Sargento David, Capitão Cann, Major Leitão, Tenente Lemos Costa, Capitão Mansilha. Em baixo, da esquerda:Sargentos Gaspar, Cravidão, Arlindo Mandes e Rogério Motta. [1]

Da esquerda, em pé: sargento David, capitão Cann, major Curado Leitão, tenente Lemos Costa, capitão José Mansilha. Em baixo, da esquerda: sargentos Gaspar, Cravidão, Arlindo Mandes e Rogério Motta.

Na sequência do artigo PRIMEIROS PASSOS DA QUEDA LIVRE DESPORTIVA EM PORTUGAL [2], o coronel José Mansilha aborda hoje os estágios de queda livre em Portugal, com a presença de instrutores estrangeiros, o que muito contribuiu para o desenvolvimento desta actividade entre nós.


ESTÁGIOS DE QUEDA LIVRE EM PORTUGAL

Entre as competições que se realizavam em todo mundo, em especial nos países de Leste, as mais acessíveis para nós eram: os campeonatos do Conselho Internacional do Desporto Militar (CISM), e os torneios organizados anualmente pela Bélgica.
Embora nunca tivesse sido um homem de competição nesta modalidade, não pode ser esquecida a acção do coronel Alcínio Ribeiro em Lisboa, junto das entidades superiores. Era um dos entusiastas e grande defensor da modalidade. Foi ele o Chefe das Delegações que se deslocaram aos campeonatos I e II do CISM, respectivamente em França e no Brasil e também do primeiro torneio na Bélgica. Teve grande influência nas diligências tomadas para a vinda a Portugal de dois treinadores franceses que prepararam a equipa para o II CISM. Foram indicados pelo capitão Bragança Moutinho, sendo os mesmos que deram formação em França aos nossos pioneiros: o capitão François Cann e o sargento Etienne David.
1.º Estágio – Através dos sargentos que estagiaram em Pau, o capitão Bragança Moutinho teve conhecimento de que o sargento Etienne David tencionava vir passar 3 semanas de férias em Portugal e de que gostaria de tirar o brevet de pára-quedista português. Informação preciosa, foi de imediato aproveitada para que se conseguissem as autorizações necessárias para o convidar a ir para Tancos. Em Tancos, em meados de 1964, saltou em pára-quedas e deu um estágio de queda livre aos instrutores e monitores interessados, isto sem encargos para a Fazenda Nacional.
Não foram muitos os voluntários, mas foram em número suficiente para que Portugal passasse a ter elementos de escolha para futuras representações portuguesas em campeonatos ou torneios.

Cap Ruivinho, majores Marques da Costa, Curado Leitão , cap Moutinho, sarg Etiene David, cap José Mansilha, De joelhos, ten Lemos Costa e sarg Arlindo Mendes. [3]

Em cima, da esquerda: capitão Ruivinho, majores Marques da Costa, Curado Leitão, capitão Bragança Moutinho, sargento Etiene David, capitão José Mansilha; De joelhos, da esquerda: tenente Lemos Costa e sargento Arlindo Mendes.

Gostaria de recordar os nomes de todos os participantes no primeiro estágio, mas infelizmente, tenho de me cingir àqueles que encontro em fotografias da época e um ou outro que consegui averiguar.
Mas havia mais, que não estavam presentes no momento da fotografia. O capitão José Mensurado, o tenente Eduardo Carreiro, o sargento Gaspar e alguns sargentos.
O estágio implicava um certo sacrifício do nosso tempo “livre”. Os treinos eram feitos sem prejuízo para o Serviço. Dado que no Regimento de Caçadores Pára-quedistas (RCP), as duas primeiras horas do dia de trabalho eram destinadas à instrução física, isso representava que, salvo os graduados que enquadravam as praças nas sessões de educação física, até às dez da manhã cada um podia praticar o desporto de que mais gostava. Havia então uns “renhidos” de basquetebol que eram muito concorridos.
Os treinos dos estagiários começavam bem cedo, quase ao raiar do Sol, aproveitando as primeiras horas do dia para fazer um ou mais saltos. Estes realizavam-se na Base Aérea 3, onde se conseguia saltar mais vezes por dia, ou no Arrepiado, mais demorados dada a deslocação de retorno à Base.
O capitão Moutinho, que chefiava na altura a ITO (Secção de Instrução Táctica e Operacional), tomou as providências necessárias para serem construídos dois círculos em areia, com alvo, para a aterragem de precisão (ver primeiro artigo desta série [2]). Contava com as ajudas de outros entusiastas que colaboraram naquilo em que tinham possibilidades. O major Curado Leitão, o major Marques da Costa e o sargento Arlindo Mendes, que era o chefe da secção de manutenção e dobragem de pára-quedas, um homem que ressaltava pela sua habilidade e comportamento no ar. Utilizando material de reparação dos pára-quedas fabricou uns sacos onde cabia o equipamento de salto: capacete, altímetro, botas e combinação de salto. Ainda há pouco tempo vi o meu, já muito velhinho e com nylon a desfiar.
Fabricados em nylon verde, tinham uma forma tubular. A base, circular, era debruada com um cordão vermelho. Em cima, na boca de entrada, tinham uma tira vermelha a toda a volta com ilhós, onde trabalhava um cordão de suspensão de pára-quedas, verde, que permitia abrir e fechar o saco. Foram usados no II CISM.

Após os treinos do dia, “corríamos” para o RCP, pois tínhamos de estar prontos às 10H00, de banho tomado, para desempenhar a actividade diária. Formação e instrução de pessoal, técnica ou administrativa. Era usual sermos os primeiros a chegar ao local de trabalho.

2.º Estágio – Com a aproximação do II CISM, que iria realizar-se no Brasil, o tenente-coronel Alcínio Ribeiro obteve em Lisboa, no Estado-Maior da Força Aérea, autorização para que os dois treinadores franceses, altamente classificados, fossem convidados a vir a Portugal para ajudar a preparar uma equipa que nos representasse. Iniciou-se assim, em Março e Abril de 1965, o segundo estágio de aperfeiçoamento de queda livre, que levou à formação de um pequeno grupo com nível aceitável para a prática desportiva. O número de aderentes não foi muito grande e as possibilidades de treinar estavam limitadas às disponibilidades dos meios aéreos: o Junker, JU52. Em Tancos não havia outro tipo de aeronave adaptável ao lançamento de pessoal. Juntaram-se aos iniciados em Pau outros elementos entusiastas: os majores Leitão e Marques da Costa, os Capitães Ruivinho e Mansilha, o Tenente Lemos Costa e o sargento Gaspar.

Simbolo original dos "Falcões Negros" (Colecção José Mansilha) [4]

Símbolo original dos "Falcões Negros" em 1964 (Colecção José Mansilha)

Entretanto outras iniciativas foram tomadas, brotadas do entusiasmo de todos nós. Foi criado um Clube, “Os Falcões Negros”, que englobava todos aqueles que de alguma forma contribuíram para a recolha e posta em prática dos ensinamentos dos técnicos franceses, tirando assim partido deles. As memórias levam a afirmar que a ideia deste clube nasce do capitão Moutinho, derivada da admiração que tinha pelos Golden Knights (equipa de queda-livre do Exército dos EUA). Creio que foi ele também quem desenhou o emblema do Clube, dois falcões pretos em voo, malhados de branco e debruados a ouro, sobre um círculo vermelho envolvido por um arco circular preto debruado a ouro, de onde ressalta o nome do Clube também bordado a ouro, “FALCÕES NEGROS”. Baseado na memória creio que foi o major Leitão que mandou fazer os emblemas numa bordadeira no Entroncamento.

Dois "Falcões Negros",capitão José Mansilha e sargento Arlindo Mendes no interior de um JU-52, antes de mais um salto de abertura manual. [5]

Dois "Falcões Negros",capitão José Mansilha e sargento Arlindo Mendes no interior de um JU-52, antes de mais um salto de abertura manual.

O capitão José Mansilha fotografado no momento exacto em que abandona o "JU", a tomar a posição "rã" para um salto de Estilo [6]

O capitão José Mansilha fotografado no momento exacto em que abandona o "JU", a tomar a posição "rã" para um salto de Estilo (ver artigo anterior: estilo e precisão, as duas modalidades da queda livre de então)

Abaixo uma fotografia da equipa portuguesa, envergando o equipamento especialmente fabricado para o campeonato. As barras das combinações e dos capacetes simbolizavam as cores nacionais: o vermelho e o verde.

caps Mansilha e Cann sar David, maj Leitão, sars Cravidão e Gaspar, ten Lemos Costa e sarg Mota [7]

Da esquerda, em pé: capitães Mansilha e Cann, sargento David, major Leitão, e sargento Cravidão; em baixo, da esquerda: sargento Gaspar, tenente Lemos Costa e sargento Mota.

Ainda foi levantada a hipótese dos treinadores nos acompanharem ao campeonato. Acabou por ser decidido que a delegação integrasse apenas portugueses, habilitados a recolher no Brasil mais conhecimentos úteis para a melhoria da nossa formação.
Quando da formação de pára-quedistas em França e em Espanha foram mandados para o Brasil (em 1956) dois oficiais: os alferes Argentino Urbano Seixas e Siguefredo Costa Campos. A finalidade era tirarem um curso de Educação Física. Acabaram por ficar lá cerca de um ano.
Durante esse tempo tiraram vários cursos, entre os quais o de pára-quedista militar, de instrutores e monitores, de manutenção e dobragem de pára-quedas e de precursores, etc. Estes cursos eram um cópia fiel dos cursos americanos.
A nossa torre de saltos era cópia da torre francesa e a instrução utilizava o métodos franceses com uns toques dos espanhóis. Quando eles regressaram revolucionaram toda a instrução pára-quedista, que passou a seguir o sistema americano. Mais eficaz, proporcionava aos homens uma formação física mais eficiente.

A torre "francesas" (hoje também conhecida por "de aterragem") continua em serviço na Escola de Tropas Pára-quedistas. [8]

A torre "francesa" (hoje também conhecida por "de aterragem") continua em serviço na Escola de Tropas Pára-quedistas.

A torre "americana", permite os alunos efectuarem saltos "em patrulha", até um máximo de 4 por cada porta. Também conhecida por torres "de saída". [9]

A torre "americana", permite os alunos efectuarem saltos "em patrulha", até um máximo de 4 por cada porta. Também conhecida por torre "de saída".

Os primeiros pára-quedas que Portugal utilizou foram os T10, americanos, para salto automático e os Sky Dyvers, para o salto de queda livre. Só bem mais tarde se passou a adquirir material francês.

Quando se tornou necessária a formação de mais pára-quedistas em curto espaço de tempo, foi construída uma torre tipo americano, mais eficiente para a formação de pessoal em massa.

Voltando à queda livre, as sementes lançadas em 1964 germinaram e fixaram-se ao solo com mais firmeza. Surgiu um tronco do qual começavam a brotar os primeiros ramos, os Falcões Negros.
Até breve.

Veja aqui o primeiro artigo desta série: PRIMEIROS PASSOS DA QUEDA LIVRE DESPORTIVA EM PORTUGAL [2]