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DISTINTIVO DE QUALIFICAÇÃO PÁRA-QUEDISTA DA ORGANIZAÇÃO PARAMILITAR «COMANDOS MAMBISES»

INTRODUÇÃO

Sendo um grupo paramilitar organizado no período posterior à famigerada invasão de Playa Girón (popularmente conhecida como Baía dos Porcos), é aqui referido nesta rubrica (DISTINTIVOS E INSÍGNIAS) pelo facto de ter sido uma das únicas organizações paramilitares anti-cubana pós-1959, a desenhar e aprovar um distintivo de qualificação pára-quedista próprio. Importa, por isso, fazer emergir a sua curta história principalmente para os amantes do coleccionismo de distintivos de qualificação aeroterrestre.

Distintivo de identificação da Organização Paramilitar «COMANDOS MAMBISES». (Col. do Autor / réplica comercializada em Miami / EUA) [1]

Distintivo de identificação da Organização Paramilitar «COMANDOS MAMBISES». (Col. do Autor / réplica comercializada em Miami / EUA)

ALGUNS DADOS HISTÓRICOS (*)

Organização controlada e financiada pela CIA com base em Nova Orleans – EUA, e dirigida por Robert Wall e um cubano “camagueyano” de nome MANUEL VILLAFAÑA y MARTÍNEZ, ex-Tenente das Forças Armadas de Fulgêncio Baptista y Zaldívar, ex-Adido Aeronáutico de Cuba no México até à sua deserção em Abril de 1960, e ex-Comandante, com o posto de capitão, da aniquilada Força Aérea da Brigada de Assalto 2506 tinha, dentro do novo conceito de “operações autónomas” planeadas pela CIA contra o Governo Revolucionário do Dr. Fidel Alejandro Castro Ruz, depois do desastre de Playa Girón (Baía dos Cochinos), a responsabilidade de substituir o desarticulado Grupo de Missões Especiais (1).

O Grupo de Missões Especiais foi uma das múltiplas frentes de agressão contra Cuba, criadas depois da fracassada invasão de Playa Girón e no âmbito da denominada “Mangoose Operation / Operação Mangosta”.

Esta operação (iniciada em Novembro de 1961 e oficialmente concluída em 3 de Janeiro de 1963) consistia num complexo programa subversivo, organizado pelo Conselho de Segurança Nacional dos EUA, em que intervinham, também, o Pentágono, o Departamento de Estado, a CIA e a Agência de Informação que compreendia acções do tipo “comando” para ocupar centros estratégicos, sabotagens em objectivos económicos, assim como assaltos a unidades militares das Forças Armadas Revolucionárias (FAR).

Para este efeito foi activada uma estação da CIA, no sul da Florida – Estação «JM WAVE» – que esteve sob o comando e direcção de Theodore Shackley, um alto oficial dos serviços secretos norte-americanos que foi transferido do seu posto na Alemanha, em 1962, para ter sob sua responsabilidade directa a condução das operações contra Cuba. Neste local (Florida-EUA), mais de 800 cubanos exilados recrutados pela CIA, receberam treino especializado em navegação naval e aérea, demolições terrestres e aquáticas, mergulho com escafandro autónomo, pilotagem e pára-quedismo, naquele que foi considerado o maior centro da CIA em todo o mundo.

Os novos «COMANDOS MAMBISES», agora recrutados com base em critérios mais exigentes que em situações similares anteriores no seio dos inúmeros grupos de exilados cubanos sedeados em Miami, Nova Orleans e Dallas, receberam intensa e sofisticada preparação militar de militares norte-americanos. Entre as diversas disciplinas, estes comandos assimilaram toda a técnica para poderem fazer uso do “envolvimento vertical” como um dos processos de infiltração em território cubano.

No final do intensivo Curso Básico de Pára-quedismo, chegaram mesmo a aprovar um distintivo de qualificação pára-quedista próprio (que as fotos ilustram), embora com carácter reservado no que respeita à sua ostentação nos uniformes individuais.

Adoptaram a designação histórica «MAMBISES»(2), nome dado aos integrantes do Exército Libertador de Cuba no século XIX.

As suas acções armadas mais espectaculares contra objectivos económicos, políticos e militares em território cubano foram:

14AGO63 – um pequeno grupo dos «Comandos Mambises» atacam as minas de Matahambre e os reservatórios (tanques) de petróleo de Casilda.

19AGO1963 – duas lanchas-rápidas, com «Comandos Mambises» a bordo, provenientes de um navio-transportador fundeado nas proximidades de Santa Lúcia, na Província de Pinar del Rio, penetram o suficiente até se aproximarem de uma fábrica metalúrgica. Desencadeiam um ataque com metralhadoras pesadas e lança-granadas, causando avultados prejuízos materiais avaliados em mais de 15.000 pesos cubanos.

01OUT1963 – uma embarcação do tipo “REX” tripulada por «Comandos Mambises » e fortemente armada desfere um ataque em Cayo Guín (Oriente). Várias pessoas resultam feridas deste ataque relâmpago.

27DEZ1963 – a “lancha torpedeira” LT-85 da Marinha de Guerra Revolucionária (MGR), ancorada no porto da Baía de Siguanea (Ilha de Pinos – hoje designa-se por Ilha da Juventude) é dinamitada por mergulhadores dos «Comandos Mambises». Esta acção provoca 4 mortos (Alferes-de-Fragata Leonardo Luberta Noy; Marinheiros Jesus Mendoza Larosa; Fe de La Caridad Hernández Jubón; Andrés Gavilla Soto) e 18 feridos.

13MAI1964 – a Central Açucareira “LUIS ENRIQUE CARRACEDO”, no município de Pilón, Província de Oriente, é atacada por uma embarcação fortemente armada. Esta acção dos «Comandos Mambises» provoca ferimentos numa criança (Maria Ortega Olivera) de 8 anos de idade e destrói (por incêndio) mais de 70 mil sacos de açúcar.

02FEV1965 – uma lancha equipada com metralhadoras pesadas e um canhão de 57mm atinge os tanques de combustível próximos da Praia Ancón, em Trinidad, na Província de Sancti Spíritus. Nesta acção armada, os «Comandos Mambises» conseguem ainda atingir um tanque de água potável, um armazém de açúcar, e várias habitações civis da zona.

Distintivo de qualificação pára-quedista da Organização Paramilitar «COMANDOS MAMBISES». Versão original em metal. (Foto de Arquivo/Col. do Autor) [2]

Distintivo de qualificação pára-quedista da Organização Paramilitar «COMANDOS MAMBISES». Versão original em metal. (Foto de Arquivo/Col. do Autor)

CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS DO DISTINTIVO

Ainda hoje é desconhecido o autor (ou autores) do distintivo de qualificação pára-quedista dos «COMANDOS MAMBISES». Porém, sabe-se que nos anos 60 foram mandados fabricar alguns exemplares, apesar do carácter reservado desta organização paramilitar.

Com o passar dos anos, algumas réplicas foram comercializadas em casas especializadas na cidade de Miami (EUA), e mais recentemente, algumas reproduções têm aparecido à venda no eBay.

O distintivo metálico original foi fabricado em contra-cunho e no seu reverso detinha um alfinete de segurança para fixação no vestuário e/ou uniformes. As medidas aprovadas eram de  9 cm X 2,2 cm, desconhecendo-se o número de exemplares confeccionados na edição original.

O seu desenho heráldico apresentava duas ASAS com a calote de um pára-quedas ao centro. Cobrindo parte da calote, a tradicional cobertura de cabeça emblemática dos «MAMBISES».

Na parte inferior do pára-quedas um círculo rodeado de dois ramos de louro (símbolo de vitória). No interior do círculo está inscrito a expressão «COM LA VERGUENZA», ou seja «COM VERGONHA».

Distintivo de qualificação pára-quedista da Organização Paramilitar «COMANDOS MAMBISES». Frente e reverso. Reprodução recente comercializada no eBay. [3]

Distintivo de qualificação pára-quedista da Organização Paramilitar «COMANDOS MAMBISES». Frente e reverso. Reprodução recente comercializada no eBay.

Esta versão bordada a fio-de-prata nunca teve qualquer suporte legal. Trata-se de uma réplica comercializada no eBay e em casas da especialidade. (Foto Col. de J.W./Suécia) [4]

Esta versão bordada a fio-de-prata nunca teve qualquer suporte legal. Trata-se de uma réplica comercializada no eBay e em casas da especialidade. (Foto Col. de J.W./Suécia)

NOTAS

(*) N. do A.: Todos os dados relativos às acções armadas da organização paramilitar «COMANDOS MAMBISES» aqui relatados, foram recolhidos pelo autor durante a visita efectuada ao Museu do Ministério do Interior (MUSEO DEL MININT) situado na Quinta Avenida e Rua 14, Município de Playa, Ciudad de La Habana (CUBA) e que em 26 de Março de 2010 cumpriu o seu 21º aniversário.

(1) O GRUPO DE MISSÕES ESPECIAIS (GME) foi organizado e treinado pela CIA antes da invasão de Playa Girón com o propósito de realizar acções contra Cuba a partir de território norte-americano. Os homens recrutados foram seleccionados entre ex-militares da ditadura de Fulgêncio Batista e foram treinados nos EUA e Guatemala. Entre as missões que deviam cumprir estavam contempladas as de introdução de armamento, explosivos e outros materiais. Também constava das missões atribuídas obter informações militares e económicas detalhadas. Ao longo da sua curta existência levou a cabo cerca de 25 operações, sendo a mais famosa a que a história registou com o nome de «MALAS AGUAS» em 20 de Outubro de 1962. Esta operação de infiltração foi liderada pelo seu Comandante, MIGUEL ÁNGEL OROSCO CRESPO, e pretendiam introduzir armas neste local – MALAS AGUAS – município de Minas de Matahambre na província de Pinar del Río. Paralelamente, e no mesmo dia, outro grupo do GME, liderados por REINALDO GARCÍA MARTÍNEZ, desembarcou a Oeste do mesmo lugar. Ambos os grupos tinham o propósito de cumprir diversas missões e de apoiarem-se mutuamente na colocação de cargas explosivas na mina de cobre de Matahambre.

(2) A palavra «MAMBISES» tem a sua origem em Santo Domingo (República Dominicana) depois de um oficial espanhol negro, desertor, de nome JUAN ETHNINIUS MAMBY, ter conseguido unir os dominicanos na luta pela independência em 1846. Neste conflito, os soldados espanhóis referiam-se aos insurgentes como os “homens de MAMBY”. Este facto deu-se cinquenta anos antes do início da “Guerra dos Dez Anos” em Cuba. Neste conflito, os soldados espanhóis notaram que os cubanos faziam um uso muito semelhante do “Machete” e logo os alcunharam de «MAMBÍS» ou «MAMBISES». As “tropas mambisas” eram compostas por cubanos oriundos de todas as classes sociais (negros, escravos e mulatos livres) que lutaram com determinação pela liberdade e independência de Cuba. O “Machete”, arma muito usada, é um facão curto, com menos de 60 cm de lâmina (muito semelhante à catana) e que é usado, normalmente, no corte da cana-de-açúcar e na abertura de percursos em selvas de vegetação alta e densa.

As façanhas dos «MAMBISES» também inspiraram o autor de banda desenhada cubano, Juan Padron que criou o maior herói de todos os tempos: ELPIDIO VALDES. Note-se a tradicional cobertura de cabeça emblemática dos «MAMBISES» e que é contemplada no desenho heráldico do distintivo. (Capa DVD-Col. do Autor) [5]

As façanhas dos «MAMBISES» também inspiraram o autor de banda desenhada cubano, Juan Padron que criou o maior herói cubano de todos os tempos: ELPIDIO VALDES. Note-se a tradicional cobertura de cabeça emblemática dos «MAMBISES» e que é contemplada no desenho heráldico do distintivo de qualificação pára-quedista. (Capa DVD-Col. do Autor)


SUPORTE DOCUMENTAL

– SHACKLEY, Ted., SPYMASTER MY LIFE IN THE CIA. Potomac Books, Inc., 2005, ISBN 1-57488-915-X

– CARMO, António E. S., HISTÓRIA SUCINTA DAS FORÇAS ESPECIAIS CUBANAS. Edição do Autor, Lisboa, 2008, ISBN 978-989-95744-0-3

– Apontamentos recolhidos pessoalmente pelo autor no Museu do MININT (Havana – Cuba)

Mais informação sobre a invasão de Playa Girón pode ser lida em:


INVASÃO DE PLAYA GIRÓN (CUBA): O 1º BATALHÃO DE PÁRA-QUEDISTAS DA BRIGADA DE ASSALTO 2506 (1ª PARTE) [6]


INVASÃO DE PLAYA GIRÓN (CUBA): O 1º BATALHÃO DE PÁRA-QUEDISTAS DA BRIGADA DE ASSALTO 2506 (2ª PARTE)