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COMUNICAÇÃO SOCIAL DE SERVIÇO PÚBLICO E MILITARES EM OPERAÇÕES

Por decisão dos órgãos políticos democraticamente eleitos, Portugal mantém no estrangeiro em permanência centenas de militares em operações. Os três ramos das Forças Armadas garantem missões em vários locais do planeta, umas no âmbito de forças multinacionais, outras na base de acordos bilaterais. Não deviam os portugueses estar melhor informados sobre o que se passa com estes contingentes e o que é o esforço militar nacional além-fronteiras?

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Em 2018 apenas uma equipa de reportagem da RTP esteve na República Centro Africana com os militares portugueses e durante uma semana. A reportagem “Arma Secreta” tem 28 minutos. Nos outros teatros de operações onde temos contingentes significativos, nenhuma reportagem do género foi feita.

As Forças no Estrangeiro

Durante este ano de 2018 as Forças Armadas Portuguesas estiveram empenhadas em mais de uma dezena de países e regiões com efectivos variáveis mas sempre acima dos 500 militares – apenas em Janeiro não atingiu este número – chegando a ultrapassar os 1.000 em Março, Junho, Julho, Agosto e Setembro. Para um país com orçamento de Defesa e efectivos militares muito reduzidos, é um esforço considerável. De assinalar que a estes efectivos no estrangeiro correspondem quase e sempre números semelhantes em Portugal em preparação para os substituírem, e ainda efectivos em prontidão para atender a necessidades imprevistas, seja para operações de contingência em defesa dos interesses nacionais afectados em qualquer parte do globo, seja para apoio aos serviços de protecção civil em Portugal, incluído naturalmente as Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores (*)

Em síntese – não considerando a Cooperação Técnico-Militar com países de língua oficial portuguesa – participamos este ano em missões no âmbito da NATO, no Afeganistão, Mar Mediterrâneo, Kosovo, Oceano Atlântico, Roménia, Letónia e Lituânia;

No âmbito da União Europeia, no Mali, Somália, República Centro Africana e Mar Mediterrâneo;

No âmbito da ONU, no Mali, Colômbia, República Centro Africana e Afeganistão;

No âmbito de acordos com países amigos ou aliados, em São Tomé e Príncipe, no Oceano Atlântico, no Iraque e na Jordânia.

Todas são naturalmente importantes e por vezes isso não pode ser apenas medido em número de efectivos, mas os contingentes mais expressivos que Portugal mantém no exterior, por períodos prolongados, são os seguintes:

NATO – Afeganistão – Resolut Support Mission (195 militares)

ONU – República Centro Africana, MINUSCA (164 militares)

UE – República Centro Africana, EUTM-RCA (45 militares)

Bilateral – Iraque, Operação Inherent Resolve (32 militares)

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Documento do jornal “Público” com base em informações do EMGFA publicado em 24DEZ2018. Portugal manteve no estrangeiro em operações durante este ano, sempre mais de 500 militares – apenas em Janeiro não atingiu este número – chegando a ultrapassar os 1.000 em Março, Junho, Julho, Agosto e Setembro. No mapa não foram incluídos os militares em Cooperação Técnico-Militar nos Países de Língua Portuguesa.

Outras missões realizadas em 2018 com efectivos relativamente elevados – para o nível de empenhamento que nos tempos que correm o poder político determina – embora por períodos de tempos mais reduzidos, foram: a participação nas “Medidas de Tranquilização da NATO” nos países Bálticos onde a Força Aérea empenhou caças F-16 e aviões de patrulha marítima P-3C CUP+ e a Marinha uma Companhia de Fuzileiros; o empenhamento de meios navais significativos para Portugal, na costa ocidental de África, por onde actuaram em exercícios e missões de prevenção de actividades criminosas, os NRP Álvares Cabral (200 militares), NRP Bérrio (85 militares da guarnição mais 58 fuzileiros), NRP Zaire (35 militares), NRP Corte Real (221 militares), NRP Viana do Castelo (54 militares), ao que se juntaram em várias ocasiões aviões P-3C CUP+ da Força Aérea. No Mar Mediterrâneo actuaram o NRP Arpão (33 militares), NRP Douro (32 militares), NRP Viana do Castelo (60 militares) e também aqui os P-3C CUP+ actuaram.

Ao longo de 2018, segundo o EMGFA, foram empenhados no exterior do território nacional 2.260 militares em 40 missões diferentes.

Quer pelos efectivos, quer pelos meios empregues, quer ainda pela finalidade última das missões – contribuir para a segurança internacional e logo a nossa – e não menos como reconhecimento pelo esforço e reconhecido profissionalismo dos nossos militares, ainda que nem sempre dotados do adequado armamento e equipamento, era desejável uma maior cobertura noticiosa destas missões.

Comunicação Social pública e privada

O Estado português dispõe de um grupo de comunicação social, a RTP, com vários canais de televisão, radio e online. É o operador de serviço público de Rádio e Televisão de Portugal. Segundo a própria empresa «…A RTP é de todos e para todos. Chega às maiorias e às minorias, ao público com necessidades especiais e está próxima de todos os portugueses, onde quer que estejam. A RTP é única no reforço da coesão e identidade nacionais, afirmando a língua, os valores e costumes de forma transversal…». Outro importante órgão na esfera do Estado trata-se da Agência LUSA de notícias na qual é accionista maioritário. Esta agência, que é a única portuguesa de âmbito nacional, tem obrigações de serviço público e segundo ela própria, tem como objectivos «…Afirmar a importância nacional e internacional da Lusa, ajustando qualitativamente os seus serviços e a sua presença no território nacional e no espaço lusófono, no âmbito da circulação democrática e plural da informação noticiosa e no da defesa dos interesses estratégicos externos do Estado Português…». Em termos de imprensa escrita o Estado não tem qualquer OCS.

Sobre os OCS privados não vamos entrar em grandes detalhes, apenas lembrar que há três grupos principais que dispõem de canais de televisão: Impresa (vários canais SIC, jornal Expresso); Media Capital (vários canais TVI e rádios); Cofina (Jornal Correio da Manhã, Correio da Manhã Televisão, revista Sábado, outras revistas e jornais) aos quais podemos juntar, o Grupo Renascença (várias rádios), o Global Media Group (TSF, Jornal de Noticias, Diário de Noticias outros jornais e revistas) e o Grupo Sonaecom (jornal Público)

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Em Fevereiro de 1996 quando os pára-quedistas portugueses realizaram o primeiro “comboio humanitário” de Sarajevo para Gorazde – e que foi também o primeiro a chegar à cidade após anos de cerco – vários OCS nacionais acompanharam a missão, nomeadamente a RTP (na foto).

Cobertura noticiosa das Forças Nacionais Destacadas

Não vamos fazer aqui o histórico da cobertura noticiosa das “Missões de Paz”, mas referir que desde o seu início nos anos 90 do século XX, apenas em três períodos a comunicação social portuguesa acompanhou intensamente as operações. Sem ir ao pormenor podemos afirmar que o início das missões na Bósnia e Herzegovina em 1996, em Timor-Leste no ano 2000 e no Iraque em 2003 (aqui com a GNR), foram os períodos em que jornalistas portugueses estiveram semanas seguidas, por vezes meses a acompanhar a actividade das nossas forças. O caso de Timor-Leste tem algumas particularidades porque os jornalistas presentes não estavam sobretudo interessados na missão militar uma vez que o tema “Timor” para as audiências portuguesas era muito vasto, mas era uma componente do seu trabalho. Já na Bósnia e Iraque o assunto versado era sobretudo a realidade dos contingentes portugueses. Houve naturalmente mais missões com alguma atenção como o início do Kosovo ou o mesmo teatro de operações por alturas da crise do “urânio empobrecido”, e visitas pontuais de jornalistas a muitas missões posteriores na Bósnia, ou as realizadas por Exército e Força Aérea no Afeganistão, e outras, mas a cobertura sistemática, essa nunca mais aconteceu. 

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Visita do Presidente da República à Bósnia em 1996. Nesses anos como agora as visitas de altas entidades têm sempre cobertura noticiosa garantida.

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O Primeiro-Ministro no Afeganistão para uma visita de Natal em 16DEZ2018. As fotos distribuídas pela Agência LUSA (aqui numa edição online do Jornal da Madeira) , são de Paulo Vaz Henriques do Gabinete do Primeiro-Ministro e a viagem foi também acompanhada por uma jornalista da LUSA e um operador de imagem.

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Este ano a visita do Primeiro-Ministro ao Afeganistão foi aproveitada enviar uma mensagem de Natal às Forças Armadas, filmada em Cabul. O vídeo foi depois distribuído pelos diferentes OCS nacionais que de um modo geral o passaram, e colocado nos sites do governo e redes sociais. Veja aqui: Mensagem de Natal às Forças Armadas. [7]

Não relevo aqui as visitas que um ou outro jornalista faz aos teatros de operações “à boleia” de um governante para passar umas horas com os militares. Não que não tenham importância, porque têm, é mais uma oportunidade para se mostrar que os militares existem! Mas na realidade o jornalista nestes casos pouco mais pode fazer do que a pequena noticia sobre o acontecimento que foi convidado para cobrir. 

Sendo certo que Portugal chegou a manter efectivos no estrangeiro muito superiores aos actuais, caso da Bósnia em 1996 e Timor-Leste em 2000, teatros de operações onde rondavam os mil militares em permanência, a realidade é que os OCS nacionais por vezes até enviavam, e enviam, repórteres a conflitos onde não há participação nacional (só para dar três exemplos de memória, recordo a Palestina, Líbia, Ucrânia), mas, deixaram de se interessar pelos nossos militares no estrangeiro. Excepção feita quando temos baixas…

[8]

As principais empresas de comunicação social que tinham jornalistas na Bósnia em 1996, garantiam o seu alojamento e mesmo o transporte com viaturas próprias.

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Em 1996 a RTP e a RTP mantiveram-se um ano na Bósnia. Cobriam todas as actividades dos militares. Aqui uma equipa da RTP faz reportagem sobre uma apreensão de material de guerra que o Exército Muçulmano da Bósnia ilegalmente quis introduzir em Gorazde. Em Timor os primeiros anos da missão militar beneficiaram da presença constante de jornalistas portugueses no país.

Uma nota que deve ser tomada em linha de conta no que a seguir iremos abordar, a nível das Forças Armadas Portuguesas está definido que a responsabilidade da divulgação de informação sobre as Forças Nacionais Destacadas cabe ao Estado-Maior General das Forças Armadas, sendo responsabilidade dos ramos a difusão da informação relativa à preparação das Forças ou ao seu apoio a partir de Portugal e outras informações pertinentes após o regresso das suas forças.

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Em 2017 e 2018 foram estas as reportagens televisivas feitas na RCA com os militares portugueses. Uma da TVI, uma da RTP e uma (com duas partes) da SIC. A Impresa, grupo privado que detém a SIC e o Expresso (o qual também publicou reportagens feitas no terreno), deu mais “tempo de antena” aos militares portugueses que o Serviço Público de Televisão…

Afeganistão, RCA e Iraque

E chegamos à actualidade onde os três teatros de operações com mais militares empenhados são a República Centro Africana e o Afeganistão, cada um com cerca de 200 militares e o Iraque com 30.

Em dois anos registamos menos do que “os dedos de uma mão” em termos de reportagens sobre estas missões!

Não me refiro à cobertura pontual de uma vista do Presidente da República ou do Primeiro-Ministro a um destes teatros de operações, mas à presença de jornalistas por vários dias ou semanas (já nem falo em meses como aconteceu na Bósnia e em Timor!), para cobrir a actividade normal da força e dar uma ideia ao povo português do que fazem os seus militares.

Não recordo nestes últimos anos qualquer reportagem – tipo 20 ou 30 minutos de televisão – no Iraque ou no Afeganistão. Zero!

Quanto à RCA houve de facto umas três ou quatro reportagens destas, uma pela TVI, uma pela SIC (transmitida em duas partes, muito focada no pessoal de um curso de comandos e não só na missão) e uma reportagem da RTP. Para dois anos de missão, não parece muito…e muito menos para o Serviço Público de Comunicação Social.

“A guerra esquecida” [11], TVI em Setembro de 2017, Rui Araújo, com imagem de Rui Pereira (37 minutos).

“Arma Secreta” [12]: RTP em Julho 2018, Sandra Claudino e imagem de Tiago Passos (28 minutos) (**)

Comandos 127 [13]” (1.ª Parte): SIC em Setembro de 2018, João Santos Duarte, imagem e edição, fotografias de Tiago Miranda.

Comandos 127 [14]” (2.ª Parte): SIC em Setembro de 2018, João Santos Duarte, imagem e edição, fotografias de Tiago Miranda.

Em todas estas reportagens são usadas imagens feitas pelos militares  – mesmo que isso não seja referido – nomeadamente em situações de combate a que os jornalistas não tiveram acesso ou feitas por “drones” das FND’s.

A reportagem da SIC deu também origem a dois artigos alargados na revista do Expresso, com o mesmo tema, o Curso de Comandos n.º 127 (o que sofreu dois mortos na instrução em Setembro de 2016).

De assinalar contudo que a partir de Janeiro de 2018 a política de informação pública do EMGFA alterou-se significativamente em relação à difusão de notícias, fotografias e vídeos sobre as Forças Nacionais Destacadas. Através dos seus canais, sobretudo o Facebook “Forças Armadas Portuguesas” (https://www.facebook.com/emgfa/ [15]) mas também o site do EMGFA (https://www.emgfa.pt/ [16]), Instagram @emgfa (https://www.instagram.com/emgfa/?hl=pt [17]) e no Twiter @EMGFA_RP (https://twitter.com/EMGFA_RP [18] ) iniciou-se uma acção constante de divulgar, em tempo útil, os acontecimentos considerados relevantes nos TO’s exteriores, com algumas dessas notícias aproveitadas pelos OCS, incluindo pequenos filmes emitidos nas TV’s ou nos sítios internet da generalidade dos OCS generalistas. 

[19]

Em 2018 a RTP esteve presente por uma semana da RCA com a 3.ª FND na MINUSCA e a EUTM-RCA. Em simultâneo o Exército enviou uma equipa do Centro de Audiovisuais para cobrir a actividade militar portuguesa no teatro de operações.

Serviço Público de TV e Radio

As estações de serviço público de TV e radio e a agência Lusa não têm feito grande esforço para divulgar a actividade das FND. Sendo certo que retransmitem os comunicados oficiais, por regra acompanham as visitas de governantes aos teatros de operações – ali permanecendo uma horas – e que fizeram 1 (uma) reportagem na RCA (28 minutos) e outra muito reduzida (3 minutos), parece evidente que isto fica muito mas mesmo muito aquém do que o dito estatuto de “serviço público” exigiria. No fundo fizeram sensivelmente o mesmo que a Media Capital (TVI) e menos que a Impresa (SIC e Expresso), empresas privadas.

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A jornalista Sandra Claudino e o repórter de imagem Tiago Vaz, da RTP, acompanham um FAC da Força Aérea na RCA.

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O major Henrique Carvalho, 2.º Comandante da 3.ª FND a ser entrevistado na RCA na Igreja de “Notre Dame de Fátima” em Bangui onde decorreram graves incidentes com mortos e feridos civis e os Páras portugueses foram chamados a intervir e a combater.

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A equipa da RTP entrevista alguns dos Pára-quedistas do 1.º BIPara que estiveram envolvidos nos combates.

[23]

É nestas ocasiões, “com as botas no chão”, que os jornalistas podem verdadeiramente perceber e depois transmitir à opinião pública o que é a vida do militar em operações. Por seu lado os militares passam a olhar com mais respeito para o trabalho dos profissionais da comunicação social.

 Os critérios do interesse jornalístico são sempre muito discutíveis, mas o interesse público destas missões não pode ser negado! Se a RTP enviasse aos três teatros de operações mais relevantes, uma equipa de reportagem em cada seis meses e pontualmente fosse a outros locais onde temos forças, não seria nenhuma exigência absurda em termos de orçamento. E isto é tanto mais verdade quanto é sabido que actualmente as Forças Armadas estão disponíveis para fornecer apoios em termos logísticos como raramente o fizeram no passado. Se hoje não há com frequência os chamados “voos de sustentação” militares que permitiam colocar os jornalistas a “custo zero” para as suas empresas em vários teatros de operações, também é verdade que a “estadia” – dormida, alimentação e transporte – ao contrário de muitas vezes no passado (por exemplo na Bósnia ou Timor os jornalistas pernoitavam e deslocavam-se por sua conta e risco) hoje pode ser garantida sem custos para as empresas de comunicação.

É nestas ocasiões, “com as botas no chão”, que os jornalistas podem verdadeiramente perceber e depois transmitir à opinião pública o que é a vida do militar em operações, o que é o trabalho que realizam em nome de Portugal e dos portugueses. Mas é também obrigação dos jornalistas ver o que é a nossa realidade militar, aperceber-se dos resultados obtidos no terreno e do retorno (ou falta dele!) que justifica este empenhamento militar.  Por seu lado os militares passam a olhar com mais respeito para o trabalho dos profissionais da comunicação social o qual não raras vezes é desvalorizado e mesmo posto em dúvida por quem enverga uniforme. 

Audiovisuais militares versus “Combat camera”

O Ministério da Defesa Nacional e os ramos das forças armadas dispõem de capacidades em termos de fotografia e vídeo. Não vamos neste artigo fazer a sua história que é uma boa e longa história que merece ser contada, mas apenas dar uma ideia geral e desfazer equívocos. Decidimos inserir neste artigo esta área de actividade militar porque o material audiovisual recolhido em operações pelos militares pode e deve ser usado – desde que garantidas questões ligadas à segurança das forças – pelos órgãos de comunicação social generalistas.

Os departamentos de audiovisuais do Ministério da Defesa e dos Ramos das Forças Armadas desde o início das missões de paz com forças constituídas, recolheram imagens para as suas acções de divulgação. Isto foi feito com deslocações pontuais aos teatros de operações por equipas de audiovisuais, quase e sempre poucas e por muito pouco tempo, compostas quer por civis funcionários nesses departamentos, quer por militares que ali prestavam serviço. Nestes últimos 25 anos haverá uma dúzia destas “reportagens militares” o que naturalmente não permite nem de longe nem de perto dizer que as forças em operações têm a sua actividade bem documentada pelos serviços competentes.

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O Exército tem uma antiga tradição na cobertura audiovisual das operações, mas no caso das Missões de Apoio à Paz, as reportagens por equipas de do CAVE nos teatros de operações têm sido esporádicas. As FND com os seus meios garantem o registo audiovisual mas este raramente entra nos arquivos do CAVE.

 

[25]

A Marinha tem os seus audiovisuais no Gabinete do CEMA que cobrem actividades em território nacional e as unidades em operações garantem elas próprias a cobertura das suas actividades.

 

[26]

A Força Aérea chegou a constituir uma equipa de “Combat Camera” mas abandonou o projecto. Os seus audiovisuais cobrem sobretudo missões em território nacional e muito esporadicamente foram enviados aos Destacamentos Aéreos no estrangeiro.

A situação não é igual nos três ramos, com os audiovisuais a terem diferentes dependências hierárquicas e funcionais, uns mais próximos da chefia do Ramo outros bem mais longe. Como dissemos não vamos aprofundar o tema mas a principal razão para esta situação de penúria de “reportagens oficiais” será de ordem orçamental, depois pelo facto dos departamentos audiovisuais não estarem organizados para realizarem o acompanhamento em permanência das operações e, talvez o motivo mais importante, esta valência teimar em não ser de utilidade reconhecida pela hierarquia.

O que tem acontecido, umas vezes com melhores resultados que outras é cada força expedicionária (ou cada navio em missão ou cada destacamento aéreo) ter um ou dois militares “com jeito” e material – felizmente cada vez melhor – e realizarem eles próprios a “sua história audiovisual”. O aparecimento do digital veio facilitar esta situação não só pelos muito menores custos como pela facilidade de edição e difusão do trabalho realizado. Basta passar pelas redes sociais institucionais do EMGFA, Marinha, Exército e Força Aérea para verificar que elas são alimentadas com imagens e vídeos com muita frequência.

Dadas as condições pode-se até dizer que os resultados são positivos, nomeadamente para esta utilização imediata e pouco exigente das redes sociais. O problema é que regra-geral este tipo de material não-profissional tem muitas limitações técnicas e até artísticas. Em boa verdade por vezes até é de origem particular, e nem sempre o seu uso depois é adequado em termos de qualidade (e até de direitos de autor) para, por exemplo, divulgação através dos OCS nacionais. Muitas destas reportagens “semi-oficias” nunca entram nos arquivos oficiais, ficando com os seus autores.

Combat Camera

Na realidade o que as Forças Armadas de muitos países fazem – já há muitos anos – é dispor daquilo que os americanos designam por Combat Camera (COMCAM) e que são, simplificando, equipas militares com formação especifica que recolhem material audiovisual de toda a actividade militar, seja onde for, para uso em diferentes situações (instrução, divulgação, lições aprendidas, informações, segurança, questões legais, etc) e produzem artigos (textos e imagem animada e/ou fixa).

Nós portugueses temos visto estes militares a actuar e por diversas vezes fomos alvo de artigos feitos por eles porque actuamos em conjunto com forças desses países (recordo os franceses, ingleses, canadianos e americanos, em diversas ocasiões), mas continuamos a não considerar “levantar” a sério esta capacidade.

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Desde que os militares portugueses iniciaram a sua participação nas operações da ONU e da NATO perceberam que a cobertura audiovisual é levada a sério por muitos países. Ainda em tempos de “analógico” os Aliados (aqui ingleses, mas também americanos, franceses e outros) transportavam para os teatros de operações todo o equipamento profissional necessário. Aqui a Secção Fotográfica da IFOR/NATO em Sarajevo (1996) onde se revelavam em horas as fotos captadas pelos seus “repórteres militares”. Muitas iam direitas para as grandes agências noticiosas.

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Mas fotografar e filmar não basta, tem que haver quem escreva as noticias, a história. “Jornalistas militares” da IFOR/NATO (um oficial espanhol e um sargento americano), entrevistam um capitão português na Bósnia em 1996 no decurso de uma operação naquilo que foi a “Bolsa de Gorazde”.

A Força Aérea ensaiou por volta de 2005 manter uma equipa destas, constituída por militares dos seus audiovisuais, mas o projecto acabou por ser abandonado um par de anos depois, embora ainda hoje pessoal dos audiovisuais da FAP faz as avaliações no Centro de Medicina Aeronáutica regulares para poder embarcar em todas as aeronaves da Força Aérea para filmar e fotografar. Os audiovisuais deste ramo têm algumas idas pontuais mas muito limitadas no tempo aos teatros de operações onde operaram destacamentos aéreos. Na Marinha em 2008 dois militares frequentaram um curso de Combat Camera em San Diego (EUA), e a sua experiência – mesmo sem se criar nada semelhante – acabou por ser divulgada e aproveitada pelo ramo.  No Exército não se conhecem quaisquer tentativas de criar esta capacidade recaindo esta trabalho de recolha de imagens nas missões expedicionárias de modo casuístico por militares das forças empenhadas em acumulação com outras funções.

[29]

Equipa “Combat Camera” de uma unidade dos EUA então estacionada na Alemanha, aqui num exercício na Roménia em 1999. Note-se o equipamento profissional com a curiosidade da máquina Nikon com o Kodak Digital Camera System, então coisa rara entre nós.

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A Master Sgt. Robert Carreon, COMCAM da US Air Force empenhada em operações no Afeganistão com uma Brigada da 2.ª Divisão de Infantaria do US Army. Foto Staff Sgt. Dayton Mitchell US Air Force.

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Os militares portugueses em operações com forças multinacionais, como aqui no Iraque, têm sido objecto de reportagens executadas por “Combat Camera” estrangeiros. Parte das fotografias e vídeos feitos pelos COMCAM são depois disponibilizados graciosamente nas suas plataformas informáticas como elementos de informação para o público interessado e naturalmente os OCS.

Convém não confundir as nossas Equipas de Audiovisuais dos Ramos e/ou do Ministério da Defesa, compostas por militares e funcionários civis  – que temos em Portugal e com excelentes profissionais militares e civis – com os Combat Camera estrangeiros compostos por militares profissionais com material profissional e formação adequada. E menos ainda, o que também tem acontecido, haver um ou outro jornalista que acompanhe pontualmente uma ou outra missão e ceda algumas das imagens à instituição militar, o que nada tem a ver com cobertura adequada das missões, são episódios pontuais, e material audiovisual de origem privada.

O que na realidade devemos ter nas Forças Armadas são equipas de Combat Camera, militares profissionais da imagem e também capazes de escrever artigos de carácter jornalístico, para fins militares, e também para ceder material oficial aos OCS que assim colocariam as Forças Nacionais Destacadas mais vezes nos seus tempos noticiosos.

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Infelizmente ganhou notoriedade ao morrer a fotografar , Hilda I. Clayton tem hoje o seu nome numa Competição Anual dos COMCAM como são conhecidos os elementos destas equipas nos EUA. Não confundir COMCAM com equipas de audiovisuais (que até podem ter funcionários civis das Forças Armadas e da Defesa Nacional, como em Portugal temos e excelentes profissionais), e ainda menos com jornalistas que possam andar a cobrir as operações e depois cedam umas fotos aos militares.

 

Foto Cine

O curioso nesta temática é que em Portugal temos bons antecedentes nesta área, mesmo que muitos hoje não os conheçam e outros os tenham esquecido.

Recordamos os pioneiros, primeiro Veloso de Castro que no início do século XX trabalhou para o Exército fotografando em Angola (Campanha dos Cuamatos), depois o célebre e até condecorado Arnaldo Garcez que foi contratado pelo Exército para acompanhar as operações em França. Mas mais ainda, pelas suas características de organização, missão, meios humanos e materiais, os “Destacamentos de Fotografia e Cinema” do Exército, vulgo “Foto Cine”, que actuaram na Guerra do Ultramar fazendo fotografia, filme e radio. Estes últimos sim terão sido os nossos Combat Camera, com muito trabalho produzido, de onde saíram aliás excelentes profissionais para os órgãos de comunicação social desses anos 60 e 70 do século XX.

Terminada a Guerra do Ultramar e depois do período revolucionários de 1974-1975, o Estado-Maior General das Forças Armadas teve grande preponderância nesta área com valências em pessoal e equipamentos depois transferidos para o Ministério da Defesa Nacional nos anos 90 do século XX, onde permanecem. Nos Ramos pontualmente algum esforço foi feito, sendo por exemplo de grande significado o investimento em material (ainda analógico) que o Exército fez no início das Missões de Paz, mas apesar das inovações que esta época das missões expedicionárias introduziu, nunca se evoluiu para o Combat Camera.

Acompanhando a evolução tecnológica associada ao digital podemos dizer que todos os ramos têm hoje os seus “departamentos audiovisuais” equipados com material moderno – mas não topo de gama – e pessoal habilitado. No Ministério da Defesa Nacional também existe esta capacidade mas actualmente o seu pessoal é civil.

Em síntese, os meios e as pessoas existem, a capacidade não!

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Um oficial de relações públicas do Exército, por sinal do Porta-Voz do Ramo nessa altura (ainda em 2018) dá instruções a pessoal do Centro de Audiovisuais do Exército. Pela natureza da actividade, independentemente da sua inserção na organização,  tem que haver sempre grande articulação entre estas duas áreas : informação pública e imagem.

 

Concluindo

O serviço público de televisão e radio tem sido praticamente omisso na desejável cobertura regular das operações expedicionárias das Forças Armadas Portuguesas, depois do inicio das missões na Bósnia e em Timor-Leste, nos já distantes anos de 1996 e 2000. A RTP pontualmente desloca equipas de reportagem aos teatros de operações para acompanhar visitas de membros do governo ou do Presidente da República e, juntamente com a LUSA, reproduz comunicados do EMGFA sobre as missões, estes com especial incremento no último ano.

Os grupos privados de comunicação social seguem uma política semelhante, têm menos possibilidade de acompanhar as referidas visitas do que a RTP ou a LUSA, e, especialmente em caso de acidentes ou incidentes com os militares portugueses em operações – o que também é verdade para a RTP – reproduzem os comunicados do EMGFA e despachos da LUSA.

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Nas partidas e chegadas das Forças Nacionais Destacadas a atenção prestada seja pelos OCS seja pelos departamentos de audiovisuais da Defesa Nacional e dos Ramos costuma ser grande…

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…mas ao Serviço Público de Comunicação Social exige-se mais do que entrevistar o comandante da força e um ou outro militar nestas ocasiões. É naturalmente importante mas curto! Na imagem o Comandante da 3.ª FND na MINUSCA -RCA é abordado por jornalistas em Setembro de 2018 no momento da sua chegada a Lisboa após 6 meses de missão.

O Exército envia pontualmente e por períodos de tempo muito limitados, equipas de audiovisuais – profissionais da imagem, portanto – para recolher imagens das suas forças em operações, e de um modo geral todos os ramos (muitas vezes até com meios dos próprios militares) recolhem nos teatros de operações – e aqui incluem-se naturalmente os navios da Marinha e os Destacamentos Aéreos da Força Aérea – fotografias e filmes que depois são usados pelos respectivos serviços de relações públicas e, por vezes, até cedidos aos OCS. Continuamos nas Forças Armadas a não dispor da capacidade Combat Camera.

Parece-nos que o Serviço Público que comunicação social tem a obrigação de prestar mais atenção às missões militares no exterior enviando em articulação com as Forças Armadas equipas de reportagem com regularidade aos diversos teatros de operações.

Os ramos das Forças Armadas, cada um por si ou numa nova capacidade conjunta, têm que voltar a dispor de capacidade para recolher de modo profissional imagens e textos que não só façam a história das missões como sirvam as necessidades de instrução e até acautelem aspectos legais também eles cada vez mais presentes na frente de combate.

 

[36]

A SIC do grupo privado Impresa está a fazer uma nova reportagem sobre os militares em operações no exterior, desta vez no Afeganistão. Desconhecemos se vão enviar alguém ao TO ou não, mas é mais um bom exemplo de atenção aos nossos militares em operações e às suas famílias em Portugal!

(*) Em Território Nacional foram empenhados 41.810 militares, assegurando mais de 7.920 missões em apoio directo às populações, na protecção dos seus bens e em situações de emergência civil, o que contribuiu directamente para salvar 671 vidas humanas (EMGFA, 23/12/2018)

(**) A RTP em Abril de 2017 apresentou um pequeno apontamento de menos de 3 minutos por João Fernando Ramos e imagem de Pedro Rodes, na RCA.