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COMANDANTE DA FND PORTUGUESA NA RCA FALA AO OPERACIONAL

A força portuguesa na República Centro Africana foi há escassos dias alvo de um ataque, reagiu com o armamento ligeiro e pesado ao seu dispor, letal e não-letal, não houve baixas entre os nossos militares nem na população, mesmo naquela apoiante dos atacantes que fugiram. Este facto teve algum destaque na imprensa portuguesa, as coisas correram bem, a notícia rapidamente passou. Quisemos saber mais detalhes, perceber o que se está a passar com os nossos militares na RCA e falamos com o Tenente-Coronel Pára-quedista João Bernardino que comanda a 3.ª Força Nacional Destacada (Conjunta) na MINUSCA – (United Nations Multidimensional Integrated Stabilization Mission in the Central African Republic). 

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A 3.ª FND portuguesa na MINUSCA – RCA está no terreno há exactamente 30 dias e missões não faltam. A actividade tem sido muito intensa e nesta entrevista com o comandante da Força passamos em revista os factos mais importantes deste primeiro de seis meses de missão.

A entrevista aborda os vários aspectos da missão, do trabalho operacional ao moral e bem-estar, passando pela logística mas não podemos deixar de destacar a parte referente à acção de 31MAR2018, o baptismo de fogo para os pára-quedista nesta missão e logo menos de um mês após a sua chegada ao teatro de operações! Sendo certo que os militares são treinados para isto mesmo, combater, parece-nos que a descrição feita pelo Tenente-Coronel João Bernardino, mostra bem a complexidade da realidade no terreno que os militares portugueses ali vivem desde o inicio de 2017.

O texto da entrevista inclui várias frases e traduções entre parênteses as quais são da responsabilidade do entrevistador, bem assim como as notas de rodapé e legendas que não veículam naturalmente o entrevistado. 

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Em 5 de Março de 2018 o Major-General Marco Serronha, 2.º Comandante do Comando das Forças Terrestres do Exército Português esteve na RCA para presidir à Transferência de Autoridade entre o TCor. Comando Duarte Varino, comandante da 2.ª FND  e o Tenente-Coronel Pára-quedista João Bernardino. A transmissão de informação entre forças que se rendem tem sido uma mais-valia importante para o desenrolar das operações na República Centro Africana.

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O Tenente-Coronel Pára-quedista João Bernardino, 52 anos de idade, 31 de serviço é Comandante do 1.º BIPara desde Dezembro de 2016, tem uma extensa folha de serviços com várias missões internacionais (Bósnia, Timor-Leste, Kosovo e Afeganistão), condecorações e louvores. Assumiu a preparação desta 3.º FND (Conj.) MINUSCA em 4 de Setembro de 2017. Está na RCA desde 19 de Fevereiro de 2018.

Operacional: A 3.ª Força Nacional Destacada na MINUSCA assinala hoje, 5 de Abril de 2018, 30 dias da chegada à RCA da quase totalidade dos seus 159 militares. Pelas notícias que vamos tendo, muito já se passou em tão pouco tempo. Pedia-lhe uma síntese deste primeiro mês de missão, quer na área logístico-administrativa quer na operacional e até na político-diplomática?

Comandante 3FND: Efetivamente foram 3 áreas que no curto espaço de 1 mês nos colocaram à prova e que fizeram este mês parecer uma semana. Na área logística-administrativa, começou com a chegada dos primeiros 21 elementos ao TO (Teatro de Operações) no passado dia 19 de fevereiro de 2018. Este grupo teve como tarefa iniciar os procedimentos de rendição em posição entre a força que termina a missão e a nova força que assume funções. Receção e contabilização de todo o material e equipamentos existentes e adaptação às suas novas funções. Com a chegada do grosso da força a 05Mar18, foi necessário que nesse dia os 21 elementos do grupo inicial mantivessem vivas as funções e competências essenciais de modo a que os elementos da força que termina pudessem ser dispensados e as atividades fulcrais continuassem. Durante este período como novo comandante da Força Nacional Destacada fiz a apresentação às entidades da MINUSCA entre as quais se salienta o representante especial do secretário-geral, o Sr. Parfait Onanga-Anyanga, o Force Commander Tenente General Balla Keita entre outros. Feita a transferência de autoridade a que presidiu o Exmo. Major-General Marco Serronha 2.º Comandante do Comando das Forças Terrestres do Exército seguiu-se  a preparação instrução e treino para atingir a FOC (Full Operation Capability) e o status de Prontos para Combate que consistiu num conjunto de instruções, palestras e brífingues obrigatórios por parte das Nações Unidas nomeadamente as matérias apresentadas no Induction Training e Sexual Exploitation and Abuse na MINUSCA, bem como o adestramento em condução, manuseamento de algum material e equipamento especifico e adaptação das armas individuais e coletivas ao seu utilizador. Foram ainda efetuados reconhecimentos terrestre e aéreos recorrendo aos meios helis existentes no TO.

A 22 de março de 2018, efetuou-se um exercício conjunto e combinado de CAS (Close Air Support) entre a QRF (Quick Reaction Force) Portuguesa, constituída por um Pelotão Paraquedista, uma equipa do Destacamento de Controlo Aéreo Tático da Força Aérea e uma parelha de aviões de combate MIRAGE2000 da Força Aérea Francesa, estacionados em N’Djamena, Chade.

O planeamento do exercício considerou a possibilidade futura de operações entre forças destes dois países, pelo que todo o cenário teve por base a necessária volatilidade e complexidade de um cenário dinâmico, com situações impossíveis de prever de antemão pelas forças participantes. Com isto, pretendeu-se exigir o máximo de empenho e rigor e testar, da maneira mais próxima da realidade, a interoperabilidade entre as forças dos dois países. Escolheu-se assim efetuar uma operação de CONVOY ESCORT (escolta a coluna auto) que imediatamente na fase de planeamento colocou sérios desafios, a começar pelo facto de se realizar no TO da República Centro Africana, ao qual o grosso da força tinha chegado apenas 3 semanas antes.

Assim no dia 22 de março, a cerca de 80Km de Bangui, uma parelha de MIRAGE2000 franceses, equipados com TARGETING POD, fez o check-in com os JTAC’s (Joint Terminal Attack Controller) da força portuguesa. No exercício foram feitos diversos ataques em apoio da manobra terrestre, com destaque para o emprego de armamento de precisão e de ataques simultâneos das duas aeronaves, coordenados em tempo com a força no terreno de modo a maximizar e potenciar os efeitos do armamento aéreo no inimigo. É ainda de destacar que foram utilizadas forças de cenário para desempenharem o papel de inimigos, o que constituiu um desafio, principalmente para os JTAC’s e as tripulações que tinham a todo o momento de entender o dispositivo no terreno de modo a neutralizar a ameaça reduzindo ao máximo a possibilidade de ocorrência de fratricídio.

De salientar que para além dos MIRAGE2000, a Força Aérea Francesa efetuou também o tasking de um KC-135, avião de reabastecimento aéreo, para aumentar o tempo de permanência dos MIRAGE2000 no espaço aéreo da República Centro Africana e concomitantemente o tempo em que participavam no exercício, sendo que esta projeção de força, com todos os custos que lhe são inerentes, é representativa da confiança que as autoridades francesas possuem no processo de integração de poder aéreo com poder terrestre que a Força portuguesa possui, materializada pelo JTAC’s do Destacamento de Controlo Aéreo Tático da Força Aérea Portuguesa.

A 24 de Março foram rececionadas 17 toneladas de diverso material e equipamento enviado de Portugal e que de acordo com o planeamento efetuado pelo escalão superior chegou antes da força a tingir a FOC. Foi necessário um trabalho titânico para rececionar e acondicionar tudo em menos de 48 horas para estarmos em condições de receber Sua Excelência o Presidente da Republica Portuguesa e Comandante Supremo das Forças Armadas Marcelo Rebelo de Sousa a 26 de Março de 2018. Foi uma honra e um imenso privilégio termos tido a visita do nosso Presidente e de todos os elementos que compunham a sua comitiva. Embora tenhamos sido nós os bafejados pela sorte, partilhamos a alegria desta visita com todos os camaradas de armas que nos antecederam.

Seguiu-se o planeamento para a operação conjunta e combinada – Operação “Bakala Stell Bird” que veio a realizar-se em 28 e 29 de Março de 2018, com elementos da Aviação do Paquistão e do Sri Lanka, e uma equipa Francesa de UAV. Tratou-se de recuperar um UAV que havia caído e foi muito bem-sucedida devido a um planeamento de minucia entre as diferentes partes, que executaram de uma forma extraordinária, e que teve uma exigência física assinável, tendo a instabilidade meteorológica como limitador do tempo de operação, pelo percurso em floresta apeado carregando todo o material essencial para o cumprimento da missão que envolveu motosserras e material explosivo, bem como todo o material individual, em ambiente de montanha, local este considerado reserva animal, logo toda a área em estado selvagem, que para o cumprimento da missão a força teve de encontrar um maciço rochoso, efetuar um deslocamento apeado em ambiente de montanha, navegação terrestre, preparação do UAV danificado para heli transporte, a criação de uma HLZ (Zona de Aterragem) através do corte de árvores com motosserra e explosivos, preparação do UAV para ser içado por guincho e transportado por heli e novamente regressar ao maciço rochoso para extração.

Tendo sido colocados em TACON (Controlo Táctico) da CJTFB (Combine Joint Task Force Bangui) iniciamos patrulhas na cidade de Bangui, onde no passado dia 31 de Março fomos empenhados em contacto com elementos de um grupo armado que atua num dos distritos mais complicados da capital. As nossas patrulhas consistiam em patrulhas de presença e segurança de modo contribuir para um ambiente calmo, pacifico e seguro na cidade de Bangui.

Efetivamente só tropa generosa, disciplinada, treinada e motivada consegue num tão curto espaço de tempo fazer face a todas estes desafios.

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Nos dias iniciais da missão mais formação na área dos cuidados de emergência médica foram ministrados por uma das enfermeiras da força.

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Crucial no comando e controlo das operações o bom funcionamento das comunicações. Não só o material tem que ser de qualidade como há uma miríade de procedimentos e acções que a não serem executadas com profissionalismo podem acarretar consequências fatais.

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O mesmo no armamento, é preciso saber usá-las e manter todos os seus componentes em funcionamento, aspecto tanto mais importante quanto se trata de equipamento já muito usado.

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O treino de tiro feito em Portugal na fase de aprontamento foi intensificado no TO agora com as armas que estão realmente a usar em operações.

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Treino de combate em áreas edificadas, a repetição e aperfeiçoamento é indispensável para obter bons resultados nas acções reais. HK G-3 7,62mm e shot gun.

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Como se pode ver nesta e nas fotos acima algumas das HK G-3, 7,62mm em uso estão equipadas com acessórios para melhorar as suas capacidades. Uma metralhadora HK MG4 5,56mm “fecha a equipa”

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Um dos reconhecimentos efectuados em “ambiente multinacional”, aqui em Bangassou a 700 km de Bangui na fronteira com a República Democrática do Congo

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Uma das formações recebidas no teatro de operações, esta ministrada por elementos do UNDSS (United Nation Department of Safety and Security)…

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… o curso de Safe and Secure Approaches. Como aliás se percebe na entrevista o ambiente em que os portugueses operam envolve muitas vezes populações civis. Note-se o uso de algumas HK G-36 5,56mm.

Sobre os acontecimentos de 31 de Março no Bairro PK5 de Bangui

O “baptismo de fogo” para os Pára-quedistas Portugueses na República Centro Africana

Operacional: Bangui é uma cidade talvez com 1 milhão de habitantes e a sua FND está aquartelada junto ao aeroporto internacional M’Poko. Pode dar-nos uma ideia da distância a que se encontra o dito bairro e da sua dimensão?

Comandante 3FND: Efetivamente o dito bairro encontra-se a cerca de 5 km do nosso Campo MPOKO e tem cerca de 20 Km quadrados de área.

Operacional: Os seus pelotões de pára-quedistas já tinham feito reconhecimentos diurnos e nocturnos no PK 5?

Comandante 3FND: Sim tínhamos feito durante a fase de aprontamento para atingir a FOC alguns reconhecimentos de zona, estando agora a efetuar reconhecimentos de área específicos.

Operacional: Nas lições aprendidas que as anteriores FND portuguesas foram passando – como aliás nos referiu durante a preparação em Alcochete – já havia alguma indicação de se poderem confrontar em Bangui com este tipo de situação?

Comandante 3FND: Sim. A força anterior já tinha efetuado patrulhamentos deste género, estando preparados para fazer face a situações similares. Foi-nos passada esta preocupação. Durante o aprontamento foi acautelado o treino para este tipo de ameaça.

Operacional: Como é que descreve o tipo de ataque que sofreram? Pode-nos fazer uma “fita de tempo”, mesmo que simplificada, do que se passou, explicando não só os factos na “frente” mas também como funcionou o “comando e controlo” da operação?

Comandante 3FND: Como é do conhecimento geral a Força no terreno, uma UEP(-) a 3 viaturas, (Unidade de Escalão Pelotão e (-) porque se trata de um pelotão reduzido) estava a efetuar uma patrulha de reconhecimento e segurança, em local definido superiormente – área urbana, tipo favela – , quando foi atacada por armas de fogo ligeiras, em 3 momentos sequenciais e distintos.

A patrulha respondeu ao fogo quando identificou positivamente a origem e autores dos disparos, através do uso de equipamento específico para o efeito, contrapondo fazendo uso do armamento orgânico da força, sendo de relevar a eficácia da MetPes Browning .50, na resolução do impasse de fogo criado já que os elementos do GA (Grupo Armado) que disparavam se encontravam protegidos por viaturas abandonadas. O comandante da Patrulha comunicou para o COT (Centro de Operações Táticas) da Força, que ativou e fez sair a IRF (Immediate Reaction Force – Força de Reacção Imediata) composta por nova UEP(-) a 3 viaturas, e mandou preparar um Pelotão com mais 6 viaturas.

De imediato a patrulha ficou envolta por população, favorável aos autores dos disparos, procurando criar bloqueios constantes a marcha da Força, através da colocação de obstáculos – sanitas, troncos, mobília, estruturas metálicas deformadas, e outros materiais disponíveis – e através de apedrejamento das viaturas e do militar na torre da viatura, de relevar a utilização de mulheres e crianças nesta mobilização popular designada na MINUSCA por “Flash Mobs”, que se constituíam como escudos humanos ao uso da força, para resolver esta situação a Força teve de efetuar um disparo de aviso para o ar e uso de gás lacrimogéneo de forma a dispersar a multidão.

A Força deslocou-se para local designado, juntando-se à IRF que tinha saído do Campo MPOKO, e juntos mantiveram o planeamento de patrulhar a área definida superiormente, tendo sido colocado diversos bloqueios no itinerário, semelhantes aos anteriores mas mais consistentes devido ao tempo de preparação e até mesmo com motas, que foram ultrapassados utilizando as viaturas, durante todo este processo o itinerário “ganhou vida” e milhares de pessoas vieram para a rua simular que estavam na sua atividade comercial normal, mas o objetivo desta multidão era inequivocamente escudar os elementos dos Grupo Armados, e os acessos às ruas que são o bastião destes, estavam bloqueados com camiões, mulheres e crianças, impossibilitando o novo acesso.

Face ao vivenciado o Pelotão de IRF recebe ordem de sair e juntar-se ao Pelotão que já estava no terreno, em local designado.

A Força unificou-se, com 2 Pelotões, foi reconhecida através de elementos com motas dos GA, e avançou novamente para o local de atrição, da mesma forma que milhares de pessoas estavam a simular a sua vida normal e escudavam os elementos do GA, quando esta nossa nova Força unificada se dirigia para o local, todo o itinerário estava deserto somente restando bloqueios de itinerário, e os acessos às ruas controladas pelo GA bloqueados.

Em termos de Controlo: No COT o acompanhamento das Operações consegue-se através das comunicações radio e sistema de geo-posicionamento em tempo real, permitindo ter a situação esclarecida, a par do conhecimento da área em questão.

Em termos de Comando: As missões e tarefas são assentes na intenção do Comandante, é algo há muito trabalhado nos paraquedistas, remontando à 2ªGGM – Auftragstaktik (“descentralização”, tradução livre do entrevistador). No 1BIPara (1.º Batalhão de Infantaria Paraquedista), os exercícios da série HIMBA – destinados às Unidade de Escalão Pelotão – que usualmente procuram, executar ações de nomadização, de forma a potenciar o isolamento da Força e inerentemente a ausência de ordens do escalão superior devendo os Pelotões através da intenção do Comandante executar as ações necessárias para o cumprimento da missão dada; em contexto da República Centro Africana as Forças que saem para exterior estão cientes da possibilidade de incidentes no decorrer da missão e reagem de acordo com o treino, TTP (Táticas Técnicas e Procedimentos) e segurança da Força. No entanto neste incidente toda a situação foi acompanhada e coordenada a partir do nosso COT (Centro de Operações Tácticas) de M´Poko.

Operacional: O uso de gás lacrimogéneo na RCA já tinha sido usado anteriormente por outras forças ou é inédito?

Comandante 3FND: Nas nossas missões anterior como KTM (Tactical Reserve Manoeuver Battalion – Reserva Táctica do Comandante da KFOR/NATO) no Kosovo já tinha sido usado, aliás a experiência em CRC (Crowd and Riot Control – Controlo de Tumultos) que grande parte dos graduados que constituem a força têm demonstrou-se uma mais-valia. Aqui já foi empregue pelas unidades de polícia que constituem a componente policial da CJTFB.

Operacional: Como é que lidaram com a questão de haver população entre os atacantes?

Comandante 3FND: Lidamos da melhor maneira possível, com calma, serenidade, autodisciplina, deixando fluir o treino executado em Portugal. Aliás de acordo com o lema da escola dos paraquedistas ingleses “Knowledge dispels fear” (“o conhecimento afasta o medo”, em tradução livre do entrevistador) os paraquedistas durante as sessões de lançamento em paraquedas têm que estar, permanentemente, concentrados nas tarefas a efetuar e serem muito autodisciplinados. Só assim se compreende o número muito baixo de incidentes nas sessões de saltos em paraquedas.

Operacional: Tem noção que tipo de armamento foi usado contra as nossas forças?

Comandante 3FND: Armas ligeiras, AK47 certamente, pois são as armas que identificamos em alguns elementos do grupo.

Operacional: Na reacção ao ataque que equipamento/armamento foi usado?

Comandante 3FND: Armas ligeiras e as armas existentes nas torres dos nossos veículos.

Operacional: Tiveram algum apoio de forças do Exército ou da Polícia da RCA ou de outras forças da ONU?

Comandante 3FND: Obtivemos a informação que logo que foi compreendida a situação pelo nosso escalão superior foram enviadas forças militares e da policia  FPU  (Formed Police Unit) para a área. Confirmamos não ter havido danos colaterais na população e isso é o mais importante, porque de facto existiu uma postura muito precisa dos nossos militares para evitar atingir a população nomeadamente mulheres e crianças que estavam no local.

Operacional: As notícias que fomos tendo ao longo do último ano dava conta de problemas fora de Bangui com grupos rebeldes de cariz politico-religioso. Esta vossa intervenção significa que a MINUSCA está agora mais virada para os problemas que pelos vistos subsistem na Capital ou foi uma decisão pontual do comandante da MINUSCA para tentar resolver um caso concreto?

Comandante 3FND: A situação geral no país é idêntica aos dos anteriores contingentes. O que se alterou foi o facto de terem sido divulgados os relatórios dos Generais Da Cruz e Amoussou (*)  bem como a nova visão operacional de acordo com a diretiva Operacional do Force Commander da MINUSCA para 2018-2019.

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Antes da partida de Bangui para a operação BAKALA STEEL BIRD, que decorreu a cerca de 400km da capital.

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Bambari, as comunicações terra-ar são responsabilidade do TACP da Força Aérea Portuguesa que integra a FND e também aqui assim foi na ligação com os helicópteros do Paquistão e do Sri Lanka ao serviço da ONU que foram empenhados.

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Heli colocação nas proximidades do objectivo. Não sabiam se estavam sozinhos, logo, precauções de segurança. De assinalar que neste tipo de operações as forças empenhadas actuam muitas vezes a grandes distâncias (e horas) de qualquer apoio que seja necessário.

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Joint Terminal Attack Controller do TACP a caminho do local por ele assinalado. estes militares da FAP acompanham as forças terrestres como “mais um”. De notar que usa a HK 416 5,56mm.

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Nunca se sabe o que se irá encontrar, logo, um LAW pode fazer falta!

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O acesso ao UAV e o local onde se havia despenhado mostra bem as características do terreno e da vegetação em grande parte do teatro de operações.

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Várias árvores tiveram mesmo que ser “abatidas” com explosivos pela equipa EOD da força.

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Finalmente, após mais de 7 meses depois da queda, a recuperação do UAV por portugueses e franceses.

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Bem visível a clareira aberta pelos portugueses e, à direita, o que resta das as árvores que foram abatidas com explosivos e moto serras. O MI 17 da Força Aérea do Sri Lanka fez o que lhe competia!

Operacional: A FND tem como “componente de intervenção” apenas 3 pelotões de pára-quedistas apoiados por 3 controladores aéreos tácticos da Força Aérea. Sendo uma força de reacção rápida deverá estar sempre pronta a intervir, mas por outro lado, imagino que também tenham missões pré-planeadas (como esta de 31MAR), explique-nos como é o dia-a-dia destes operacionais? Como é a vida de um solado pára-quedista na RCA?

Comandante 3FND: O dia começa como é apanágio nas tropas paraquedistas com treino físico, que poderá ser individual, mas é pelo menos 2 vezes por semana coletivo para manter o espirito de corpo e a coesão necessárias nas forças militares em geral, mas muito importante nas tropas especiais. Depois treino de TTP e manutenção do equipamento. Por fim planeamento de tarefas a efetuar nas próximas 24 horas.

Aqui todos são importantes, os módulos apoiam e executam as tarefas necessárias para que os elementos de manobra estejam prontos a executar as suas missões com proficiência. A secção de manutenção, com as respetivas tripulações preparam e fazem a manutenção dos veículos. O módulo de transmissões executa a manutenção e auxilia no adestramento das tripulações relativamente aos meios de comunicações mais ou mesmos complexos. A Equipa TACP treina TTP com os Páras, o mesmo acontece com o módulo EOD. O reabastecimento apoia na entrega do necessário de acordo com as classes de abastecimento e como dizia Napoleão Bonaparte “O soldado combate sob o estômago”, o módulo de alimentação  fornece as refeições e água de acordo com as tarefas e missões a desempenhar, portanto nesta força não há pessoas ou competências mais importantes do que outras. Todos trabalham para o mesmo objetivo, o cumprimento cabal e proficiente das tarefas dadas à PRT QRF (Força de Reação Rápida Portuguesa) em representação de Portugal e de todos os Portugueses

A vida dos militares RCA até ao momento tem sido intensa, mas devido à forte motivação e generosidade de todos, ainda vai sobrando algum tempo para atividades de moral e bem-estar como por exemplo o início de alguns campeonatos internos, treino físico, festejos de aniversários e de dias especiais.

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As viaturas HMMWV (High Mobility Multipurpose Wheeled Vehicle) “portugueses” foram adquiridos para a missão em Timor (em 2000), depois utilizados no Kosovo e receberam uma blindagem (em Israel) – o caso do que aparece nesta foto – para novo emprego no Afeganistão em 2006 onde foram adquiridos alguns novos aos EUA (outros emprestados e depois devolvidos). Ou seja, muitos deles têm 18 anos de operações, está mais do que na hora de serem substituídos mesmo que por outros iguais ou semelhantes. Como se viu em 31MAR, foram muito importantes quer pela protecção que conferiram ao nosso pessoal quer pela arma da torre, mas é preciso que não parem!

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A manutenção é uma das áreas importantes para a força e manter armamento, viaturas e outros equipamentos a funcionar…é trabalho constante.

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Limpeza de armamento, outra constante das operações, entre cada saída…verificar se está tudo em perfeito estado de funcionamento. Em cima da mesa uma metralhadora HK MG4 calibre 5,56mm

Operacional: O TCor. Bernardino é um veterano de muitas missões da Bósnia, Kosovo, de Timor ao Afeganistão, não sendo possível comparar o incomparável, ainda assim certamente nos consegue classificar as condições e vida do seu pessoal aí na RCA? Estou a pensar em alojamentos, alimentação, apoio sanitário ainda por cima num clima tropical, tempos livres, comunicações com a família, correio, e este tipo de coisas. Quem fornece a alimentação à FND? Durante os 6 meses podem sair do teatro de operações de licença?

Comandante 3FND: As condições de vida aqui no Campo de M’POKO são bastante boas em todas essas áreas apontadas, mesmo comparando a outras FND, no entanto quando formos projetadas as coisas irão piorar de acordo com as lições apreendidas das forças anteriores, assim como já tivemos oportunidade de ver nos nossos vários reconhecimentos e operações já efetuadas fora de Bangui.

Quem fornece alimentação à FND são as Nações Unidas e também aquisição local. É feito um reforço alimentar recorrendo a verbas de sustentação da força, porque considero ser muito importante para o moral e bem-estar dos militares e a boa qualidade na alimentação aqui neste clima faz toda a diferença. Sim, está ponderado e consta do plano de moral e bem-estar a possibilidade de licenças.

Operacional: A sua FND preparou-se para esta missão com base nas lições aprendidas dos anteriores contingentes e a próxima fará o mesmo, agora com a sua. Tem longos meses pela frente, muita coisa ainda vai acontecer, mas qual é a sua reação inicial à adaptação do que treinaram com a realidade que encontraram?

Comandante 3FND: Não há duas missões iguais, mas claro está que um bom aprontamento tendo em consideração as lições apreendidas é uma mais-valia para o êxito da missão. Muito importante será ter-se em consideração os factos apontados nos Relatórios das CREVAL (Combat Readiness Evaluation – Inspeção Operacional) efetuadas pelos elementos da Inspeção Geral do Exército (ainda em Portugal no final do aprontamento) pois o Exército não cede nenhuma força sem esta previamente ser certificada.

A realidade encontrada parece-nos familiar e de acordo com o que fomos treinando durante o aprontamento. Obviamente que as condições de clima não se treinam ou pelo menos não existe a possibilidade de estar algum tempo num país com condições idênticas ao da RCA. Há sim que ter em consideração que nas primeiras semanas o organismo de todos nós vai ter que se habituar aos novos desafios.  Os militares da 3ª FND (Conjunta) estavam bem cientes das dificuldades e perigos que podem encontrar na RCA. Depois foi necessário durante a fase de adaptação efetuar condução, ganhar “estaleca ou tarimba” com as viaturas e com os perigos de condução em Bangui, adaptarmo-nos às armas recebidas e aos novos equipamentos rececionados.

Treino, disciplina e motivação, aos quais anexamos a flexibilidade adaptabilidade e resiliência, foram de facto pilares muito importantes no aprontamento da 3ª Força Nacional Destacada. O proficiente desempenho refletido no aprontamento é inequivocamente o resultado dessa trilogia. A força vale pelo seu coletivo em detrimento do individual.

Espero que consigamos manter até ao final da missão o mesmo espírito e a mesma coesão.  Estou confiante no desempenho, dedicação e generosidade de todos os militares que compõem neste momento a PRT QRF independentemente do seu posto e da sua especialidade.

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26MAR2018, a operação de segurança para a visita do Presidente da República de Portugal e Comandante Supremo das Forças Armadas à República Centro Africana.

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O Presidente da República de Portugal cumprimenta o Tenente-General do Exército do Senegal, Balla Keita, Comandante da MINUSCA – e comandante directo dos militares portugueses da QRF – na presença do CEMGFA português, Almirante Silva Ribeiro e do Brigadeiro-General Hermínio Maio, comandante da EUTM-RCA , militar português de maior patente na RCA.

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Prometida ainda no tempo da preparação em Portugal da 1.ª FND a visita de Marcelo Rebelo de Sousa cumpriu-se agora. João Bernardino, assinala: «…partilhamos a alegria desta visita com todos os camaradas de armas que nos antecederam…»

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Foto para a posteridade da 3.ª FND MINUSCA no Campo M’Poko com o Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas, Marcelo Rebelo de Sousa,  acompanhado do Ministro da Defesa Nacional, José Azeredo Lopes; Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, Almirante António Silva Ribeiro; Chefe do Estado-Maior da Força Aérea; Embaixador português na RCA (residente em Kinshasa), António Pereira; General Manuel Teixeira Rolo; Chefe do Estado-Maior do Exército, General Frederico Rovisco Duarte; Brigadeiro-General Hermínio Maio, comandante da EUTM-RCA.

 

Operacional: Em Portugal muitos militares e antigos militares vivem com alguma emoção esta vossa missão através do pouco que se vai sabendo através dos OCS e das redes sociais. Estas como se sabe são um “pau de dois bicos” servem para o bem e para o mal! Como é que a FND lida com o uso das redes sociais pelos seus elementos?

Comandante 3FND: Esta missão é um desafio e uma experiência valorosa para os quadros em particular e para as praças em geral porque colocamos o nosso conhecimento, treino efetuado e recebido em prática.

Fazendo uma comparação para que se perceba melhor, tal como um atleta olímpico que treina durante anos para poder ser selecionado, estar presente na prova e poder ter uma boa prestação, também nós treinamos durante largos períodos para quando somos chamados a intervir estarmos bem preparados psicologicamente e tecnicamente. A diferença é que não ganhamos taças nem medalhas, no nosso proficiente empenho depende a nossa vida dos nossos camaradas e das pessoas que protegemos e isso faz toda a diferença.

 Os militares estão cientes do que podem, devem falar ou colocar nas redes sociais. Sabem que existem entidades oficiais para esse fim e que a intenção é protege-los a eles, aos familiares e amigos. Temos elementos que tem essa tarefa atribuída para que a Nação e o povo português valorizem cada vez mais os seus soldados que de facto são os filhos da Nação. É importante que potenciais candidatos às tropas paraquedistas em particular e a outras tropas em geral tenham conhecimento do que de facto o militar português faz a diferença onde quer que esteja. Nós em qualquer lado em qualquer momento efetuamos as nossas missões em nome de Portugal e de todos os portugueses, SEMPRE.

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A 3ªFND-(Conj)/MINUSCA um efetivo de 159 militares, organizados em:

Comando e Estado-Maior;

Destacamento de Apoio com os módulos de Comunicações, Sanitário, Manutenção, Alimentação, Reabastecimento/Serviços e Modulo de Engenharia;

3 Pelotões de Paraquedistas e uma Equipa de controlo Aéreo Táctico (TACP) da Força Aérea. Os 3 pelotões de pára-quedistas dispõem cada um de 30 militares e estão organizados em equipas.

 

(*)  Por determinação da ONU os Tenente-General Carlos dos Santos Cruz (Brasil) e o Brigadeiro-General Fernand Amoussou (Benim) conduziram investigações independentes sobre os incidentes que tiveram lugar na RCA e em outros países africanos em 2017, tendo em vista identificar causas de incidentes vários, entre outros os ataques a civis, violações dos direitos humanos e também do elevado número de mortos entre os militares da ONU em 2017, o mais elevado em 20 anos: 56.

 

 

Sobre a actividade recente das tropas portuguesas na RCA leia também no Operacional:

FORÇA PORTUGUESA NA REPÚBLICA CENTRO AFRICANA [30]

PÁRAS PRONTOS PARA A REPÚBLICA CENTRO AFRICANA [31]
DEFESA NACIONAL E FORÇAS ARMADAS, O PIOR E O MELHOR DE 2017 [32]
MILITARES PORTUGUESES EM ÁFRICA AO SERVIÇO DA ONU E UE [33]
BRIGADEIRO-GENERAL PORTUGUÊS COMANDA EUTM-REPÚBLICA CENTRO AFRICANA [34]
MISSÃO NA RCA – REPÚBLICA CENTRO AFRICANA [35]