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COM A VIDA TÃO PERDIDA

O centenário da Grande Guerra, ou 1.ª Guerra Mundial, tem dado origem a um grande número de evocações entre as quais muita produção literária. Não era vulgar tal interesse num acontecimento deste tipo em Portugal e, mesmo não sendo provável que o assunto se esgote até 2018, na realidade muitos aspectos até agora pouco tratados estão a conhecer novas abordagens. Por exemplo, o caso dos prisioneiros portugueses na Europa.

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O livro sobre o qual agora damos nota, já vai na 2.ª edição, e aborda exactamente um destes casos pela pena de Fernando Rita, oficial do Exército que investigou o caso de Sebastião Duarte, um português do Corpo Expedicionário Português feito prisioneiro dos alemães. 

Trata-se de uma obra profusamente ilustrada, com fotos e mapas que muito ajudam ao entendimento do assunto – a participação portuguesa na Grande Guerra na Europa – e cujo apelativo Prefácio, escrito pelo Tenente-Coronel de Artilharia Pedro Marquês de Sousa, também ele investigador de temática militar, professor de História na Academia Militar e com obra publicada, nos desperta o interesse para a leitura.

Através das linhas escritas neste livro, o nosso amigo e camarada de armas Fernando Rita descreve-nos o percurso de um homem integrado no Corpo Expedicionário Português (CEP), que foi mobilizado para a Flandres em 1917 e cujo exemplo representa bem o típico soldado português oriundo do meio rural, que foi enviado para a frente ocidental da grande guerra, a frente mais difícil daquela 1ª guerra mundial (1914-1918).
O autor recorda com carinho o seu conterrâneo Sebastião Duarte, o jovem rapaz ribatejano nascido na margem norte do Tejo, trabalhador rural habituado à vida dura do campo. Foi um dos 56.000 portugueses que foram mobilizados para a França, foi um dos 7.000 prisioneiros de guerra e o seu percurso, tão bem descrito por Fernando Rita, revela-nos como foi a vida de muitos portugueses envolvidos na grande guerra em França.

Este livro, com o curioso título “Com a Vida Tão Perdida”, mostra-nos de forma muito apelativa a experiência de vida e os locais por onde passou este português na Flandres como combatente, e na Alemanha como prisioneiro de guerra. Mas o livro revela-nos ainda o Diário escrito pelo jovem rapaz que saiu da sua terra para o estrangeiro, que viajou pela primeira vez num grande navio, depois atravessou a França de comboio, viu muitas cidades e aldeias e conheceu um mundo novo de pessoas que falavam outras línguas e comiam coisas diferentes.
A guerra é sempre muito mais do que a atividade militar, pelo que a experiência de vida do jovem Sebastião Duarte, descrita neste livro, constitui uma preciosa fonte de informação acerca de como um cidadão português via o mundo no início do século XX.
O seu Diário, escrito com simplicidade mas com uma grande sensibilidade, permite-nos acompanhar a vida deste português em terras da França e na Alemanha. O caso do cabo de Metralhadoras, Sebastião Duarte, reflete também o militar e o homem que viveu a primeira república em Portugal. Foi sujeito ao serviço militar obrigatório criado pelo regime republicano, com uma instrução militar muito incompleta, foi vítima da radical política republicana, quando, sem a adequada preparação, foi apressadamente mobilizado para a frente mais difícil da guerra na Europa. A sua especialidade militar, como servente de Metralhadora Pesada, era uma especialidade nova, como inovadoras eram as metralhadoras que foram uma das grandes novidades da guerra das trincheiras, a par de outros novos sistemas de armas, desde a artilharia pesada, o gás, as granadas e os morteiros, que deram origem a novos equipamentos como o capacete ou a máscara anti-gás.

A formação militar do autor deste livro permitiu-lhe fazer uma descrição precisa e clara sobre as funções desempenhadas pelo cabo Sebastião Duarte, como militar do 3º Grupo de Metralhadoras. Alguns dos locais referenciados por onde passou este cabo de guerra, nas trincheiras da frente e na retaguarda, nos postos de Le Drumez ou Pont du Hem, levam o nosso imaginário a revisitar os momentos dramáticos da batalha de la Lys a 9 de abril de 1918, quando Sebastião foi feito prisioneiro pelo alemães.

As palavras de Sebastião Duarte, que neste livro voltam a ter vida, não revelam ódio pelo inimigo, nem hostilizam o regime republicano que o mandou para a guerra, mas mostram a simplicidade do homem português nascido e criado no meio rural, que, apesar dos traumas da guerra, foi conhecer outros lugares em Portugal e no estrangeiro, ficando com uma visão mais ampla do mundo, muito para além da sua aldeia no ribatejo, em Vale de Figueira.

Aqui deixamos para os nossos leitores o Índice da obra, ficha técnica e algumas notas biográficas do autor. 

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