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BLOOD SWEPT LANDS AND SEAS OF RED

Em ano de centenário do início da 1.ª Guerra Mundial, poucas iniciativas terão tido maior visibilidade a nível mundial do que a levada a cabo no Reino Unido, centrada na Torre de Londres, com o título desde apontamento de reportagem: o sangue cobriu a terra e os mares de vermelho. (*)

Mais de 800.000 papoilas de cerâmica criaram um tremendo impacto visual, que tornaram a Torre de Londres, por uns meses, o maior símbolo global da memória aos que tombaram na 1.ª Guerra Mundial. [1]

Mais de 800.000 papoilas de cerâmica criaram um tremendo impacto visual, que tornaram a Torre de Londres, por uns meses, o maior símbolo global da memória aos que tombaram na 1.ª Guerra Mundial.

Esta criação dos artistas Paul Cummins e Tom Piper, envolve 888 246 papoilas em cerâmica que foram sucessivamente colocadas por voluntários em várias localizações da Torre de Londres – praticamente toda envolvida – entre 17 de Julho e 11 de Novembro, estando agora a ser cuidadosamente retiradas. Cada uma representa um militar britânico morto na guerra, e foram todas vendidas como mais uma maneira de recolher fundos para apoio a antigos militares e famílias. Seis organizações de caridade dedicadas a apoiar antigos militares vão receber os fundos provenientes desta criação (Cobseo; Combat Stress; Coming Home; Help for Heroes; The Royal British Legion; SSAFA).

Esta “obra de arte” de escala inédita, constituiu este ano mais um ponto alto e um enorme impulso ao tradicional Poppy Appeal da Royal British Legion.

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Este “apelo da papoila” vende anualmente milhões de pequenas papoilas feitas de papel nas roupagens de praticamente toda a gente no Reno Unido. Quando se aproxima o aniversário daquilo a que nós por cá designamos “o Armistício”, 11 de Novembro, este apelo é uma enorme campanha de angariação de fundos e uma homenagem aos mortos em todos os conflitos onde os militares britânicos têm estado envolvidos. Foi nesse dia 11, em 1918, que a Alemanha derrotada nos campos de batalha assinou a sua rendição aos aliados na localidade de Compiègne, 80 km a Norte de Paris. No Reino Unido assinala-se anualmente, no domingo mais próximo do dia 11 de Novembro, o Remembrance Sunday.

Terminada a 1.ª Guerra Mundial, devastadora para os britânicos – 6 milhões de militares participaram na guerra, 888.246 morreram e 1.750.000 regressaram mas com algum tipo de incapacidade – nasceram várias associações de combatentes para apoiar os militares desmobilizados caídos na miséria e estropiados. Em 1921 estas associações juntaram-se e criaram a Royal British Legion, que lançou o primeiro Poppy Appeal em 11 de Novembro desse ano. Uma recolha de fundos a nível nacional, vendendo estas pequenas papoilas para apoiar os antigos combatentes. A Royal British Legion – a maior associação de caridade dedicada a antigos militares e famílias no Reino Unido – alargou depois a sua acção aos veteranos sobreviventes da 2.ª Guerra Mundial (causou 382.600 mortos) e aos sucessivos conflitos em que o Reino Unido tem participado, desde a Guerra da Coreia, os de natureza colonial em defesa do Império, e depois, mais tarde os mais recentes como os das Falklands, Irlanda do Norte, Golfo, Bósnia, Iraque e Afeganistão.

Para se ter uma ideia do volume de dinheiro que esta campanha consegue, em 2013 foram doados £39 milhões de libras e o apelo deste ano (até Setembro de 2015), tenta atingir os 40 milhões de libras, 50 milhões de euros!

Este ano as comemorações tiveram em muitas ocasiões uma atenção especial ao caso dos militares regressados do Afeganistão, uma guerra que se aproxima do fim para os britânicos e na qual mais de 450 perderam a vida.

O local escolhido, um dos mais visitados da cidade de Londres, potenciou naturalmente o impacto mundial do memorial. [8]

O local escolhido, um dos mais visitados da cidade de Londres, potenciou naturalmente o impacto mundial do memorial.

Leia mais sobre o memorial no site da Torre de Londres. [9]

Leia mais sobre o memorial no site da Torre de Londres [10].

Como nasceu a pequena papoila de lapela?

O Jornal “Público” do passado dia 7 de Novembro de 2011, pela jornalista Ana Fonseca Pereira, conta-nos detalhadamente as suas origens:

(…)

Um poema de sangue

A I Guerra Mundial estava a dias de terminar quando Moina Michael, uma professora americana que trabalhava como voluntária do YMCA (organização humanitária cristã) em Nova Iorque, leu numa revista o poema de John McCrae (1872-1918), um médico do contingente canadiano estacionado na frente de batalha belga.

O poema fora escrito em Maio de 1915, dias depois da segunda batalha de Ipres (Leste da Bélgica), que vitimara milhares de soldados, entre eles o tenente Alexis Helmer, amigo do médico canadiano.

Pouco depois de ter enterrado o amigo, McCrae, sentado nas traseiras de uma ambulância, escreveu em 20 minutos as 15 linhas de um poema que se tornaria elegia aos milhares de jovens que tombaram nos campos de batalha onde nada crescia, à excepção de rubras papoilas. “Nos campos da Flandres crescem papoilas/entre as cruzes que, fila a fila, marcam o nosso lugar (…)”, escreve o médico, narrando a morte em seu redor. O poema termina dizendo: “se trairdes a fé de nós que morremos/Jamais dormiremos, ainda que cresçam papoilas/ Nos campos da Flandres”.

Publicado meses depois na revista inglesa “Punch”, sob o título “Os Campos da Flandres”, o poema ganha rápida popularidade e aclamação unânime. A elegia associa pela primeira vez a memória às papoilas vermelhas, flores silvestres e delicadas cujas sementes resistem anos no subsolo até que são expostas à luz, o que acontecia nas frentes de batalha por acção dos obuses que caíam impiedosos sobre as trincheiras, repetindo um cenário que se espalhara pela Europa durante as Guerras Napoleónicas. A sua cor vermelha mistura-se com o sangue dos mortos, relembrando antigos mitos que associavam a papoila ao sacrifício humano, mas também ao renascimento depois da morte.

O nascimento de um símbolo

Emocionada pelo poema e pela notícia da morte de McCrae – em Janeiro de 1918, vítima de pneumonia e meningite – Moina Michael escreveu uma réplica ao oficial canadiano, sob o título “Manteremos a fé”, lançando a ideia de promover a papoila como promessa de manter na lembrança todos os que morreram na Grande Guerra. Moina comprou numa loja de Nova Iorque pequenas papoilas de papel, colocou uma na lapela e vendeu as outras a voluntárias da associação, iniciando assim uma campanha para que a pequena flor se tornasse símbolo nacional de recordação. Esse objectivo é alcançado em 1920 quando a Legião Americana a adopta como emblema da sua convenção anual.

Presente no encontro estava a francesa Anne Guerin, dirigente de uma associação de apoio a viúvas e órfãos da guerra que, inspirada pelo exemplo de Moina, decide promover a flor como símbolo internacional de homenagem às vítimas de conflitos armados. Mas mais do que um ícone, Guerin viu na pequena papoila uma forma de auxiliar os sobreviventes do conflito e, em breve, a sua associação começou a produzir flores em papel para serem vendidas por grupos de veteranos dos países envolvidos no conflito.

Em 1920 e 1921, Guerin convenceu vários membros da Commonwealth a adoptar o novo símbolo, fornecendo às associações de veteranos as flores produzidas pelas viúvas das zonas devastadas pela Guerra. Nos anos seguintes, contudo, a maioria das associações começaria a fabricar as suas próprias insígnias, uma tarefa que pela sua simplicidade podia ser cumprida pelos muitos mutilados de guerra que não conseguiam arranjar outro emprego.

No Reino Unido – o país que a par do Canadá mais viva mantém a tradição – as flores continuam a ser produzidas na Fábrica de Papoilas, uma instituição criada em 1922 pelo major George Howson, fundador da associação de apoio ao deficiente das forças armadas. Instalada em Richmond, no Surrey, a fábrica emprega 42 trabalhadores, a maioria deficientes,…

(…)

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“Para que não esqueçamos, lembrem-se dos caídos, mas não esqueçam os vivos”
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Outro exemplo da utilização das papoilas. [12]

Outro exemplo da utilização das papoilas.

Uma das papoilas vendidas este ano. Cada um dá o que quer! [13]

Uma das papoilas vendidas este ano. Cada um dá o que quer!

 

(*) Tradução da nossa responsabilidade