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ATRÁS DE NÓS, NINGUÉM!

Um incidente comunicacional que envolveu um autarca e o Exército a propósito dos fogos trouxe-me à memória esta frase em título, dita algures numa missão internacional, por um militar estrangeiro. Dizia-me “atrás de nós, ninguém” porque segundo ele, quando todos os outros falham ou não têm capacidade para resolver seja o que for (catástrofes naturais, terrorismo, violência urbana, acidentes nucleares, biológicos ou químicos, acidentes no mar, etc.), a solução é recorrer às Forças Armadas.

Os inquiridos neste inquérito seguem a tendência normal em qualquer país de atribuir às Forças Armadas a satisfação de missões que outros não conseguem cumprir. A confiança na Instituição Militar continua em alta. [1]

O sentimento ao afirmar isto não era de gabarolice, não queria denegrir ninguém, nem tinha a intenção de receber mais uns trocos no fim do mês. O sentimento era de profunda responsabilidade e orgulho. Estava consciente que essa era uma das suas missões naturais: ajudar os seus concidadãos. E a conversa prosseguiu a enumerar a quantidade de capacidades, saberes, que as suas Forças Armadas tinham e que podiam ser usadas naquelas circunstâncias.
Em Portugal quando se debatem estes assuntos da intervenção dos militares no interior do território nacional – o que acontece dos EUA à China, nas democracias como nas ditaduras – levanta-se um coro de protestos inflamados, até ao dia em que…as “entidades competentes” se esgotam. Afinal, os militares – embora cada vez menos numerosos – são mesmo o último recurso. Nessa altura de aperto, surgem as queixas de falta de coordenação, falta disto e daquilo.
As Forças Armadas cumprem há vários anos, nos termos definidos na lei, missões no âmbito da protecção civil. Pouco divulgadas é certo, mas a comunicação social é que define o interesse das suas audiências. Os militares podiam fazer mais em muitas áreas de actuação. Têm alguns meios, pessoas, conhecimento e vontade para isso. Mas se nada for definido e treinado a seu tempo, não é no desespero de uma situação particular, por iniciativa de um autarca, que se podem lançar ao assalto.
Claro está que em termos de incêndios, como de outras catástrofes naturais de grande dimensão ou de igual modo em termos de segurança interna, as “entidades competentes” podem não chegar. O dramático é ser necessário “arder a casa” (esperemos que não, também, “rebentarem as bombas”!) para saltar à vista do legislador que as Forças Armadas são úteis senão indispensáveis em muitas destas missões.
Não se pensa que elas sejam a panaceia que vai resolver todas as situações dramáticas. Mesmo equipadas, treinadas e coordenadas com as demais entidades, serão sempre “apenas” mais uma ajuda. Mas isso para muitos casos concretos pode ser a diferença entre a vida e a morte; entre muito e pouco sofrimento; entre enorme e algum prejuízo material. Quem for alvo deste apoio certamente apreciará estas diferenças e não está muito preocupado com questões de poder.
Talvez depois deste verão quente de 2010, 35 anos depois daquele que deixou marcas nos sectores políticos que afastaram os militares das missões no interior das fronteiras – e carregados de culpa estão muitos militares de então – quando os jovens de hoje jurarem “…defender a minha Pátria (…) mesmo com o sacrifício da própria vida.” saibam, finalmente, que proteger os seus concidadãos é, não a mais difícil, mas uma das mais nobres e muito provavelmente a mais apreciada das missões que deverão cumprir.

Artigo originalmente publicado no Diário de Notícias de 25 de Agosto de 2010 [2]