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A HISTÓRIA DO U-534

Os submarinos alemães, uma das armas mais temíveis e odiadas nos dois últimos conflitos mundiais pela destruição e morte de causavam, acabaram terminada a 2.ª Guerra Mundial por ir ganhando alguma indulgência, não só pela reconhecida coragem das suas guarnições – com um rácio de baixas terríveis – como pelos seus feitos. Hoje, submarinos do III Reich expostos recebem visitantes de todo o mundo. O Operacional foi ver o U-534 em Bikenhead, Merseyside, Liverpool, no Reino Unido.

O símbolo identificativo do U-534, os anéis olímpicos. Na realidade 23 U-Boat alemães usavam esta simbologia! Em 1936 os Jogos Olímpicos realizaram-se em Berlim e os oficiais que nesse ano se juntaram à Kriegsmarine, (Marinha de Guerra da Alemanha) adoptavam-no. [1]

O símbolo identificativo do U-534, os anéis olímpicos. Na realidade, muitos submarinos alemães usavam esta simbologia! Em 1936 os Jogos Olímpicos realizaram-se em Berlim e os 87 oficiais que nesse ano se juntaram à Kriegsmarine, (Marinha de Guerra da Alemanha durante o período 1935-1945), como Herbert Nollau do U-534, podiam usá-lo se chegassem a comandantes de submarino.

O museu “U-Boat Story” onde se encontra o U-534, fica na margem esquerda do rio Mersey, em Merseyside, frente à cidade de Liverpool, naquele que foi o principal porto do Reino Unido após Noruega e França terem caído em mãos alemãs no ano de 1940. Ali chegam e dali partiam comboios navais durante toda a “Batalha do Atlântico” e era do quartel-general de “Western Approaches”, em Liverpool que toda essa actividade era coordenada. Aqui fica a resposta à primeira interrogação que a muitos se coloca quando nos deparamos com um submarino alemão naquelas paragens!

O U-534 ainda antes de ser adaptado à função museológica. [2]

O U-534 ainda antes de ser adaptado à função museológica.

Maqueta da situação actual do submarino e museu. [3]

Maqueta da situação actual do submarino e museu.

O "Woodside Ferry Terminal" (ao centro), notando-se (à direita) a torres do U-534 e em primeiro plano o modelo à escala do "Resurgam" original (1879). Ver abaixo explicação detalhada. [4]

O “Woodside Ferry Terminal” (ao centro) de Birkenhead, Merseyside, notando-se (à direita) a torre do U-534, e em primeiro plano o modelo à escala do “Resurgam” (1879). Ver abaixo explicação detalhada.

O "Resurgam" que do latim em tradução livre será "Eu voltarei", foi construído em 1879 por J.T. Cochrane, na Cleveland Street, em Birkenhead. Desenhado pelo Reverendo George Garrett (1852-1902), é considerado um dos primeiros submarinos do mundo. Em madeira e ferro, tinha 14m de comprimento, 3 de diâmetro e pesava 300 toneladas.A propulsão era a vapor e tinha uma tripulação de 3 homens. Foi testado por curtos períodos ali próximo e funcionou. Em 1880 a caminho de Portsmouth foi apanhado por uma tempestade e afundou-se quando ia efectuar uma demonstração para a Royal Navy. Foi recuperado do fundo do mar em 1995. Este modelo foi feito em 1997 e renovado em 2009. [5]

O “Resurgam”, do latim em tradução livre, “Eu voltarei”, foi construído em 1879 por J.T. Cochrane, na Cleveland Street, em Birkenhead. Desenhado pelo Reverendo George Garrett (1852-1902), é considerado um dos primeiros submarinos do mundo. Em madeira e ferro, tinha 14m de comprimento, 3 de diâmetro e pesava 300 toneladas. A propulsão era por motor a vapor de “ciclo fechado” e tinha uma tripulação de 3 homens. Foi testado por curtos períodos ali próximo e funcionou. Em 1880 a caminho de Portsmouth foi apanhado por uma tempestade e afundou-se quando ia efectuar uma demonstração para a Royal Navy. Foi recuperado do fundo do mar em 1995. Este modelo data de 1997 e foi renovado em 2009.

O bitubo "Flak M42U" era uma temível arma antiaérea e esta abateu mais do que um avião Aliado. [6]

O bitubo “Flak M42U” era uma temível arma antiaérea e esta fez os seus estragos na Royal Air Force.

A vida do U-534 está bem documentada quer em fotografias ao longo desta "linha do tempo" quer em filmes e ainda em registos audio. [7]

A vida do U-534 está bem documentada quer em fotografias ao longo desta “fita de tempo” quer em filmes e ainda em registos áudio.

Aqui estão inúmeros objectos usados pelos tripulantes a bordo do submarino, quem artigos pessoais quer de serviço. [8]

Aqui estão inúmeros objectos usados pela guarnição do submarino, quer artigos pessoais quer de serviço.

Por exemplo os manuais de identificação de navios que se poderiam encontrar no oceano. [9]

Por exemplo os manuais de identificação de navios de diversos tipos que se poderiam encontrar no oceano.

E também os aviões, Aliados e Alemães. na imagem o "Libertador" que haveria de o afundar. [10]

E também os aviões, Aliados e Alemães. Na imagem o “Liberator” que haveria de afundar o U-534.

Modelo do B-24 "Liberator" que afundou o U-534 e uma das balsas salva-vidas do submarino. [11]

Modelo do B-24 “Liberator” que afundou o U-534 e uma das balsas salva-vidas do submarino.

Vida operacional atribulada

Agora a história de como ali chegou o U-534, também merece ser contada! O submarino estava na Dinamarca quando o Almirante Doenitz , comandante da marinha do III Reich e sucessor de Adolfo Hitler após a morte deste, emitiu ordem de rendição aos submarinos espalhados pelo mundo. Eram 08H00 de 05MAI1945. O comandante, Herbert Nollau, 26 anos de idade, o militar mais velho a bordo, ignorou a ordem e navegou em direcção à Noruega. A Royal Air Force (RAF) detectou o movimento e enviou vários “B-24 Liberator” no seu encalce. Um foi abatido pelo U-534 – dispunha de armamento anti-aéreo potente, bitubo 37mm Flak M42U e 4 20mm Flak 38 – mas não conseguiu depois imergir sem ser atingido pelas cargas de profundidade de outro B-24, uma das quais caiu mesmo em cima do submarino e outra danificou o casco, começando a afundar-se, lentamente. 47 de 52 elementos da guarnição conseguiram salvar-se saltando para a água. 5, apanhados no interior, tentaram sair com equipamento de emergência, com o submarino a 67m de profundidade, 4 conseguiram, 1 morreu. Os sobreviventes foram transportados para a Dinamarca, tendo dois falecido no trajecto. Preso até Agosto de 1945, Nollau foi libertado e trabalhou normalmente em Frankfurt na República Federal da Alemanha até à sua morte, por suicídio, em 1967 ou 1968. Nunca explicou porque não se rendeu.

O U-534 pertencia ao tipo IXC/40 da Kriegsmarine, com grandes dimensões – 76m de comprimento (como referência os actuais submarinos da Marinha Portuguesa, classe “Tridente”, têm 67,9m) – e tinha um raio de acção de 11,400 milhas náuticas navegando à superfície (mais de 21.000 quilómetros, o que dava quase para transpor o Atlântico mais de 3 vezes sem reabastecer), e de 63 em imersão.

O submarino foi construído em Hamburgo e lançado à água em 1942, tendo no final deste ano entrado no serviço activo com o único comandante que haveria de conhecer. Curiosamente este submarino teve uma vida atribulada e pouco heróica! Esteve pelos mares da Dinamarca em testes e treino, rumou à Noruega para missões operacionais e andou pela Gronelândia já em 1944, dedicando-se sobretudo à recolha de informações meteorológicas, muito importantes para determinar missões contra os comboios navais aliados e defesa de ataques aéreos. Actividade menos arriscada que atacar navios Aliados, mas com a vida a bordo igualmente dura. Os motores e baterias ocupavam 1/3 do espaço a bordo, e o restante era ocupado pelos 52 militares da guarnição, 22 torpedos, munições para as antiaéreas, 18 toneladas de alimentos e água e uma miríade de peças e acessórios indispensáveis ao funcionamento do submarino por longos períodos sem apoio.

Aspecto de objectos pessoais e de uso comum encontrados no submarino quando voltou à superfície em 1993. [12]

Aspecto de objectos pessoais e de uso comum encontrados no submarino quando voltou à superfície em 1993.

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O museu tem vários "simuladores/jogos" sendo um dos mais concorridos, o periscópio. [14]

O museu tem vários “simuladores/jogos” sendo um dos mais concorridos, o periscópio.

Mas também há a possibilidade de fazer submergir/emergir um modelo e trabalhar com um "sonar". [15]

Mas também há a possibilidade de fazer submergir/emergir um modelo e trabalhar com um “sonar”.

Este submarino também transportava as célebres "Enigma" [16]

Este submarino também transportava as célebres “Enigma”

E os visitantes podem tentar a sua sorte a decifrar mensagens. [17]

E os visitantes podem tentar a sua sorte a decifrar mensagens.

Uma Flak 38, 20mm e em segundo plano o local onde a história do U-534 é passada em filme. [18]

Uma Flak 38, 20mm e em segundo plano o local onde toda a história do U-534 é passada em filme.

Muito em voga nos museus britânicos, neste painel é possível ouvir quer depoimento da época, retirados de filmes, quer posteriores, com sobreviventes. [19]

Muito em voga nos museus britânicos, neste painel – histórias pessoais – é possível ouvir quer depoimentos da época, retirados de filmes, quer posteriores, com sobreviventes a falar das suas experiências.

A base dos submarinos alemães em Bordéus, onde o U-534 sofreu modificações, fotografada na actualidade.  [20]

A base dos submarinos alemães em Bordéus, onde o U-534 sofreu modificações, fotografada na actualidade.

Ainda em 1944 o U-534 estava na base de submarinos de Bordéus (França) a receber algumas modificações (instalar um “snorkel” para poder navegar submerso a diesel e ao mesmo tempo carregar as baterias). A instalação foi mal executada e no trajecto para a Noruega teve que emergir por estar “cheio de fumo”, sendo detectado por aviões aliados. Atacado por um “Vickers Wellington” da RAF, as armas anti-aéreas levaram a melhor e abateram o avião, conseguindo chegar a Kristiansand na Noruega. Transferido depois para Stettin (actualmente na Polónia) e a seguir para Kiel na Alemanha devido ao avanço do Exército Vermelho, sofreu grandes reparações, tendo deixado a Alemanha em direcção ao seu destino final, entre a Dinamarca e a Suécia (ilha de Anholt), a 3 de Maio de 1945, 2 dias antes do seu afundamento.

Diagrama do U-534. Todas as secções do submarino expostas estão muito be, explicadas através de legendas e destes painéis. [21]

Diagrama do U-534. Todas as secções do submarino expostas estão muito bem explicadas através de legendas e destes painéis.

Em primeiro plano o torpedo T11 Zaunkoning 2, o mais avançado produzido até ao final da guerra, e este é um dos apenas 38 construídos. Torpedo acústico dotado de um sofisticado sistema de guiamento que procurava o ruído emitidos pelos hélices dos navios. Podia atingir alvos a 5.700m de distância. [22]

Em primeiro plano o torpedo T11 Zaunkoning 2, o mais avançado produzido até ao final da guerra, e este é um dos apenas 38 construídos. Torpedo acústico dotado de um sofisticado sistema de guiamento que procurava o ruído emitidos pelos hélices dos navios. Podia atingir alvos a 5.700m de distância.

Duas das secções em que foi cortado o casco do submarino. À esquerda a "casa dos motores", à direita "a sala de controlo" e em cima a torre com o bitubo Flak M42U de 37mm. [23]

Duas das secções em que foi cortado o casco do submarino. À esquerda a “casa dos motores”, à direita “a sala de controlo” e em cima a torre com o bitubo Flak M42U de 37mm. O símbolo da torre – Ritter Von Kurpfalz – é um dos dois usados pelo U-534, o outro os anéis olímpicos.

A popa do submarino onde se encontrava a sala dos geradores eléctricos, usados em imersão. Este tipo de submarino tinha também dois tubos lançadores de torpedos para a retaguarda. [24]

A popa do submarino onde se encontrava a sala dos geradores eléctricos, usados em imersão. Este tipo de submarino tinha também dois tubos lançadores de torpedos para a retaguarda. Na imagem um dos dois hélices e os lemes.

Foi aqui que o efeito da carga de profundidade se fez sentir e por onde o U-534 começou a afundar. [25]

Bem visível o efeito da carga de profundidade. O U-534 começou a afundar por aqui.

A principal arma do submarino era o torpedo e nesta secção frontal  íam armazenados e eram disparados a maioria destas temíveis armas. [26]

A principal arma do submarino era o torpedo e nesta secção frontal iam armazenados e eram disparados a maioria destas temíveis armas.

A proa do submarino e os seus lemes. depois da sala dos torpedos ficavam os alojamentos da tripulação. [27]

A proa do submarino e os seus lemes. Depois da sala dos torpedos ficavam os alojamentos da guarnição.

Este sistema de exposição permite uma boa movimentação dos visitantes, mas na realidade não dá a sensação do que é andar dentro de um submarino. [28]

Este sistema de exposição permite uma boa movimentação dos visitantes, mas na realidade não dá a sensação do que é andar dentro de um submarino.

Mesmo estando tudo muito bem explicado nos painéis informativos, o interior está exactamente como foi retirado do oceano. [29]

Mesmo estando tudo muito bem explicado nos painéis informativos, o interior está exactamente como foi retirado do oceano.

Para se perceber e ver alguns dos pontos mais recônditos há um sistema de vídeo que  percorre segmentos do casco. [30]

Para se perceber e ver alguns dos pontos mais recônditos há um sistema de vídeo que percorre o interior, sendo possível comparar a actualidade com fotos do que teria sido esse segmento quando o submarino navegava.

E assim é possível, sem andar de facto dentro do submarino, ver o seu interior. [31]

E assim é possível, sem andar de facto dentro do submarino, ver o seu interior.

Nova vida frente a Liverpool

A misteriosa atitude do capitão do U-534 originou durante anos muitas especulações – tesouros, transporte de líderes nazis, etc – e talvez isso tenha feito despertar a atenção de Aaje Jensen, um mergulhador dinamarquês que o localizou junto a Anholt, em 1986. Estava “em bom estado” e logo se pensou em o retirar do local, mesmo que considerações de ordem política – a Alemanha opunha-se – legal, organizacional e financeira tornassem difícil a operação. Juntou-se o mergulhador a um editor e empresário, também dinamarquês, Karsten Ree, e o assunto teve seguimento. Em 1993 o U-534 voltava à superfície, inteiro, com 8 antigos elementos da tripulação e 4 do “Libertador” que o afundou a assistir, numa delicada operação realizada por uma empresa holandesa, Smit Tak, e o apoio da Marinha Dinamarquesa que retirou do submarino e destruiu 13 torpedos e centenas de munições das antiaéreas. Curiosamente esta marinha recolheu e guardou “3 torpedos de guiamento acústico”. Nenhum tesouro foi encontrado mas sim uma incrível panóplia de artigos de uso diário, muitos hoje expostos no museu que visitamos e que nos dá uma imagem de como era a vida a bordo.

A opção tomada para expor este submarino, foi a de o cortar em 4 secções – de modo tão rigoroso que se necessário for é possível voltar a montá-lo, garante o museu – mantendo o seu interior exactamente como foi retirado do fundo do mar em 1993, sendo a visualização feita do exterior através de vidros e câmaras vídeo. Esta modalidade pouco vulgar de exposição, não está explicada no local e pode bem ter sido tomada por questões de ordem financeira e até do espaço disponível onde se encontra o submarino. Sendo certo que permite uma excelente visualização do exterior, o mesmo não se pode dizer do interior. O edifício de apoio, esse sim, tem uma completíssima colecção de objectos usados no submarino, está muito bem organizado e inclui uma série de elementos, tudo ou quase, sobre a história do U-534, num grande número de suportes, áudio, vídeo e fotografias. Inclui ainda para os mais novos vários jogos que permitem simular actividades típicas a bordo.

Dos 1.168 submarinos alemães que entraram ao serviço na 2.ª Guerra Mundial, 790 foram afundados. Dos 40.000 submarinistas formados entre 1934 e 1945, 30.246 morreram em combate ou devido a ferimento assim adquiridos. 5.338 salvaram-se de morrer no mar e foram presos. É na realidade um balanço impressionante.   [32]

Dos 1.168 submarinos alemães que entraram ao serviço na 2.ª Guerra Mundial, 790 foram afundados. Dos 40.000 submarinistas formados entre 1934 e 1945, 30.246 morreram em combate ou devido a ferimentos assim adquiridos. 5.338 salvaram-se de morrer no mar e foram presos. É na realidade um balanço impressionante, para uma arma que chegou a ameaçar virar o rumo da guerra.

O "bilhete de identidade" do U-534. [33]

O “bilhete de identidade” do U-534.

Além de muita vontade, determinação e um conjunto muito alargado de entusiastas, também a UE contribuiu para preservar a história do U-534. Um bom exemplo de Turismo Militar. [34]

Além de muita vontade, determinação e um conjunto muito alargado de entusiastas e entidades, também a UE contribuiu para preservar a história do U-534. Um bom exemplo de Turismo Militar.

Como chegar?

O museu está a poucos minutos de metropolitano de Liverpool, ou a mais um pouco se fizer a viagem de ferry, e a entrada custa (adultos) 7,50£. Há pacotes que incluem a um pequeno cruzeiro no rio Mersey. Está aberto todo o ano das 10H30 às 17H00, exepto no Natal e Ano Novo. Na entrada/saída do Museu tem uma loja com produtos alusivos ao U-534 e a vários temas navais e no acesso aos ferrys de passageiros, há um agradável café/restaurante, o “Home Cafe”.

Veja aqui mais informações sobre o museu: U-Boat Story [35]

Bibliografia consultada:

The Story of U-534”  (brochura sem data/editor adquirida no museu);

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VISITA AO SUBMARINO “ESPADON” [36]

“BARRACUDA” TERMINOU SERVIÇO ACTIVO [37]

O “BARRACUDA” EM CACILHAS [38]