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A GUERRA DO ULTRAMAR, ESCRITA POR QUEM A COMBATEU (IV)

… Instintivamente levei a arma à cara, preparava-me para disparar, quando não sei porquê, reflecti e não premi o gatilho. Vi então, que o vulto era uma mulher com uma criança ao colo. Dei o alerta e alguém foi buscar a mulher. Caí de joelhos. Ainda bem que não disparei. Não sei se iria superar.

001 Guerra Ultramar IV A [1]

Perguntaram-lhe onde estava a restante população:Fugiram para a mata, eu não fui porque o menino está doente.

O enfermeiro confirmou que tinha febre e ministrou-lhe uns comprimidos dissolvidos num pouco de água. Deram-lhe algo para comerem e continuámos o deslocamento. A criança chorava e tossia.

Passamos por um acampamento, recentemente abandonado, as galinhas andavam à solta, vimos também, dezenas de porquinhos-da-Índia, malhados, brancos e pretos e brancos e castanhos.

Num cruzamento de caminhos muito batidos, foi dada ordem para montar um dispositivo de emboscada.

A criança continuava a chorar e não parava de tossir, mas o choro do menino foi interrompido pelo matraquear de rajadas curtas e contínuas, efetuadas pela equipa que estava a vigiar um dos caminhos. Aperceberam-se da aproximação cuidada, de um grupo de guerrilheiros, abriram fogo e abateram dois, os restantes responderam ao fogo e debandaram. O inimigo sabia a nossa posição no terreno e tentaram cercar-nos.

Numa pequena reunião, os graduados decidiram mandar a mulher embora. Concluíram que era uma armadilha, pois, com o barulho que a criança fazia, o inimigo sabia sempre a nossa localização no terreno. Estava a chegar a noite, não podiam ficar connosco.

002 Guerra Ultramar IV A [2]

O alferes passou palavra, dizendo que quem tivesse umas latas a mais, as trouxesse para dar à mulher. Juntámos um monte de latas, mas a mulher não tinha nada para as transportar. Vi então, o meu sargento, desfazer o chouriço da mochila e retirar a sua manta, estendê-la no chão e, mandou que lá colocássemos as latas, depois juntou os quatro cantos da manta e deu um nó, improvisando um saco. A mulher carregou-o e foi embora, a chorar agradecida.

Saímos imediatamente da zona, como estava a começar a escurecer, procurámos um lugar para pernoitar.

O meu sargento passou as duas noites que faltavam para o término da missão, sentado, encostado a uma árvore, enrolado na capa impermeável. Estávamos em África, mas as noites no interior da mata, devido à humidade, eram muito frias. Pensei: O meu sargento estará na terceira comissão, participou em inúmeras operações, com certeza já disparou e matou inimigos, mas não é um assassino. Tem bom carácter e é humano, é preciso ser altruísta para fazer o que fez, sabendo melhor que ninguém, o frio que ia passar.

Refletindo nesta atitude, recordei os ensinamentos da catequese quando era miúdo, e o S. Martinho, de quem o catequista nos falou.

Segundo reza a lenda, num dia frio e tempestuoso de outono, um soldado romano, de nome Martinho, percorria o seu caminho montado no seu cavalo, quando deparou com um mendigo cheio de fome e frio. O soldado, conhecido pela sua generosidade, tirou a sua capa e com a espada cortou-a ao meio, cobrindo o mendigo com uma das partes. Mais adiante, encontrou outro pobre homem cheio de frio e ofereceu-lhe a outra metade. Sem capa, Martinho continuou a sua viagem ao frio e ao vento quando, de repente, como por milagre, o céu se abriu, afastando a tempestade. Os raios de sol começaram a aquecer a terra e o bom tempo prolongou-se por cerca de três dias. Desde essa altura, todos os anos, por volta do dia 11 de Novembro, surgem esses dias de calor, a que se passou a chamar “Verão de S. Martinho”

Mas não era Novembro, e o meu sargento chamava-se Marinho. Já não está entre nós, mas nunca o esquecerei…

003 Guerra Ultramar IV A [3]

Nota explicativa:

Aqui estamos longe dos considerandos de ordem política e estratégica que consomem – e ainda bem, note-se, são necessários – académicos e estudiosos, nacionais e estrangeiros, sobre a presença militar portuguesa em África. Esta é uma face da guerra, aquela que muitos viram olhos nos olhos, e que mais de 40 anos depois continua viva, por vezes demais, na sua memória.

É a guerra “com as botas no chão” na verdadeira acepção da expressão, a guerra da capacidade técnica individual muito aperfeiçoada nos mais baixos escalões da hierarquia, do espírito de sacrifício nas suas expressões mais dolorosas, da camaradagem, do heroísmo em combate, da dor dos ferimentos sofrido e causados, da sobrevivência e da morte. A dos amigos e a dos inimigos.

Não é fácil encontrar quem tenha experiência de combate real e ao mesmo tempo esteja disposto a escrever sobre os factos com esta sinceridade. Estamos agradecidos ao autor, esperamos com esta publicação dar o nosso contributo para a divulgação daquilo que foi a guerra sob o ponto de vista de quem fez.

As fotos que acompanham o texto, cedidas por amigos, ilustram situações de guerra reais das Tropas Pára-quedistas em África mas não têm outra ligação directa com estes relatos escritos.

 

Leia aqui o primeiro artigo de A GUERRA DO ULTRAMAR, ESCRITA POR QUEM A COMBATEU (I) [4]

Leia aqui o segundo artigo de A GUERRA DO ULTRAMAR, ESCRITA POR QUEM A COMBATEU (II) [5]

Leia aqui o terceiro artigo de A GUERRA DO ULTRAMAR, ESCRITA POR QUEM A COMBATEU (III) [6]